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18 de abril de 2019, 15h10

Venezuela: o governo enfrenta a crise ou se resigna a ela?

O governo parece ter entendido que, se quer ficar no poder, tem que estabilizar a situação. Mas não está claro qual margem de ação existe neste novo período, que parece estar caraterizado pelo racionamento elétrico indefinido, o passo da hiperinflação à deflação e a transformação do ouro e outros minerais nas principais fontes de divisas de um  país desindustrializado

Nicolas Maduro (Arquivo)

Por Fabio Zuluaga*

No dia 1° de Março, Nicolás Maduro firmou o decreto de reativação do Estado Mayor Eléctrico (Estado Maior Elétrico). Este será presidido por Delcy Rodríguez, vice-presidenta da república, e o ministro para Interior, Justiça e Paz, Néstor Reverol, ocupará a secretaria executiva. Igor Gaviria León, novo ministro para a Energia Elétrica e presidente da Corporação Elétrica Nacional (Corpoelec), completa o triunvirato.

A primeira medida deste Estado Maior foi decretar a intervenção de Corpoelec.

“Deve funcionar durante as 24 horas do dia, em coordenação, revisão e ação permanente”, exortou o presidente, quem já tinha anunciado um racionamento elétrico, cujo cronograma foi publicado na quinta-feira seguinte.

Trauma
A intervenção na Corpoelec mostra o que parece ser a intenção de realizar mudanças, como resposta a uma série de traumas: em poucas semanas, Maduro não só viu-se enfrentado a um governo paralelo, mas também perdeu enormes ativos financeiros e industriais e o acesso ao mercado petroleiro estadunidense, que era sua primeira fonte de dinheiro em efetivo.

Se fosse pouco, chegou o apagão com sua sequela de desastres.

De fato, desde o ano passado, figuras do chavismo como Juan Barreto, Elías Jaua e Rodrigo Cabezas, tinham feito críticas ao Governo. Uma das mais constantes era o negacionismo, que o governo não estava aceitando a verdadeira magnitude da crise. Mas durante o primeiro trimestre de 2019, o Governo de Maduro solicitou ajuda em remédios e insumos médicos a seus aliados na Rússia, China e Cuba, concretou um acordo com a Cruz Vermelha e fez mudanças na política cambial, eliminando na prática o controle de preços e as vendas de ouro têm-se convertido na principal fonte de divisas.

Parece que o apagão simplesmente consolidou esta mudança de curso. Mas, em que consiste?

Adeus hiperinflação?
Em agosto de 2018, no marco da reconversão monetária, o Governo, além de medidas como aumentos de salários e regulações de preços, também desvalorizou o dólar oficial estabelecendo-o ao mesmo valor que o mercado negro.

Em janeiro de 2019 foi ainda mais longe com essa política. O Banco Central de Venezuela aprovou no dia 28 de janeiro o uso de uma plataforma para o livre intercâmbio de divisas através da banca privada. Interbanex é o nome do sistema que conta com a aprovação do BCV e do Ministério de Economia e Finanças. Agora a taxa do mercado oficial é mais alta do que o mercado paralelo e, pela primeira vez em décadas, o preço do dólar tem-se estabilizado. Uma vitória que passou despercebida.

A inflação tem desacelerado e os preços começaram a estabilizar-se. Isso é produto da liberação do dólar e das medidas muito polêmicas como o aumento do encaixe bancário (o depósito compulsório dos bancos privados nas arcas do Banco Central). Isto tem diminuído os créditos e, por tanto, o fluxo de dinheiro contribuindo à estabilização dos preços.

País deprimido
Mas isso não quer dizer que as pessoas possam comprar o que precisam. Estamos entrando em outra fase da crise que, embora distinta, não é precisamente melhor.

Efetivamente, com um salário mínimo venezuelano de menos de 6 dólares mensais, é preciso quase um mês de salário para comprar uma caixa de 30 ovos que é o padrão na Venezuela.

E tem outra causa, ainda mais triste, para esta estabilização dos preços o consumo parece ter chegado a seus limites.

O apagão ocorrido no dia 7 de março, que coincidiu com esta desaceleração da inflação, parece marcar uma nova fase da crise, em que o problema dos preços passará a segundo plano, em comparação com outros problemas como o bloqueio financeiro e os problemas dos serviços públicos. Outros como o escasso poder de compra do salário e a baixa produtividade mantêm-se.

O que parecem ter em comum todos esses elementos é a depressão: tem reportes de que a produção petroleira está por debaixo do milhão de barris. A queda da geração elétrica tornou necessário o racionamento e a atividade industrial tem diminuído dramaticamente desde há vários anos.

The New Normal
O racionamento elétrico estabelecido na semana passada compreende vários bloqueios em horários. Diferentes municípios do país distribuem-se nestes bloqueios que são racionados por pelo menos três horas diárias. Porém, tem queixas nas redes sociais sobre o racionamento, as reclamações dizem que não se cumprem os horários estabelecidos e que os cortes de eletricidade são mais longos. “La Gran Caracas” tem sido excluída desse programa.

A pesar dos problemas financeiros, o Governo fez tudo o possível para repartir as caixas de comida do programa CLAP (Comitê Local de Abastecimento e Produção) nas últimas semanas. Neste programa, teoricamente, cada família do país receberia uma caixa ou sacolas de comida. A quantidade não muda, seja um casal sem filhos ou uma família de seis pessoas. As caixas tardam em chegar e não o fazem com regularidade. Nunca se sabe quantos produtos trarão.

Parece que o Governo tem escolhido o caminho da economia de guerra e racionam o pouco que tem. Claro que isto tem um custo político muito alto. Não só por tudo o que implica senão porque, na prática, nem sequer racionando o dinheiro, os alimentos ou a eletricidade alcançam para tudo mundo.

Parece que isto tem feito que o Governo tenha tomado uma nova atitude mais realista, mas também mais resignada.

Mais parecidos a outros
Neste ponto, a tendência parece ser que o governo está se resignando a governar para grupos cada vez mais reduzidos e, inversamente, que uma parte importante da população tem o risco de ser “sacrificada”.

Assim, o objeto da gestão do governo parece ser uma série de “nichos” ou grupos muito diferentes. Nos serviços públicos, a região capital tem enormes privilégios frente ao resto do país: enquanto Caracas não sofre racionamento elétrico, Maracaibo e Cabimas têm energia só 3 ou 4 horas ao dia. Não todas as comunidades recebem os produtos do CLAP com a mesma regularidade. A mensagem dos médios públicos vai dirigida aos chavistas “duros”, convencidos.

Esta combinação de racionamento com focalização em certos grupos parece ser a resposta ante uma crise que aparenta ser insuperável no curto prazo, mas que não tem conseguido tirar ao chavismo do poder.

O governo parece ter entendido que, se quer ficar no poder, tem que estabilizar a situação. Mas não está claro qual margem de ação existe neste novo período, que parece estar caraterizado pelo racionamento elétrico indefinido, o passo da hiperinflação à deflação e a transformação do ouro e outros minerais nas principais fontes de divisas de um  país desindustrializado.

De qualquer jeito, o governo, a oposição e o país tem saído mais débeis do último trimestre e sem dúvida que nos próximos meses se delineará uma situação, se não melhor, completamente diferente aos anos anteriores.

*Do supuestonegado.com


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