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16 de julho de 2018, 10h02

Isso pode Arnaldo?

Monica Benício: “O futebol que une e aproxima precisa acontecer de fato. E para isso, precisa ter lésbica, gay, trans jogando, ocupando os estádios, narrando, comentando. Precisa que as mulheres possam participar destes espaços sem serem assediadas”

(Mônica e Marielle - Arquivo Pessoal)

Por Monica Benicio*

Chega ao fim a Copa do Mundo de futebol de 2018 e o que se destacou mundo a fora não foram lances inesquecíveis, gols que entraram para história, jogadas de craque ou qualquer feito dentro dos gramados, mas as cenas de machismo, misoginia, LGBTfobia e preconceitos protagonizados por torcedores, por jornalistas, por autoridades, por homens em geral presentes ao evento.

Um vídeo em especial, envolvendo torcedores brasileiros e uma cidadã russa, circulou pelas redes sociais e logo viralizou. Foram inúmeros textos, vídeos, postagens e posicionamentos de figuras públicas cobrando que este episódio não ficasse no campo da “brincadeira” de mau gosto. E como este vídeo, infelizmente, muitos outros foram compartilhados. Passamos a acompanhar uma série de matérias falando sobre o tema. Legislação e dados sobre machismo e LGBTfobia na Rússia ganharam destaque nos veículos de comunicação do Brasil.

A Rússia, quando parte da União Soviética, instituiu em 1918 o casamento civil em substituição ao religioso, estabeleceu o divórcio a pedido de qualquer um dos cônjuges, encorajou as mulheres a assumirem os mesmos postos de trabalho que os homens pelos mesmos salários e tornou-se o primeiro país do mundo a garantir às mulheres o direito ao aborto legal. Hoje, cem anos depois, o país possui inúmeras leis que perseguem a população LGBT e que perpetuam o machismo, figurando entre os mais conservadores do mundo.

Em 2013, por exemplo, sob a justificativa de “proteger os menores de idade”, o governo proibiu a promoção de “relações não tradicionais”: na prática, manifestações públicas de afeto entre um casal gay, podendo render multas e no caso de estrangeiros o risco de deportação. No ano seguinte, nos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, o presidente Vladimir Putin anunciou publicamente: “Mesmo se vocês forem homossexuais venham”. Nada acontecerá com vocês, garantiu, sempre que deixem as crianças “em paz”, associando explicitamente gays com pedofilia.

Em 2017, um projeto de lei que despenaliza as violências domésticas em nome da “tradição familiar” foi sancionado. Segundo a nova lei, as agressões que causam dor física, mas não lesões, e deixam hematomas, arranhões e ferimentos superficiais na vítima NÃO serão consideradas um crime, mas uma falta administrativa. Só quando a pessoa voltar a agredir o mesmo familiar no prazo de um ano poderá ser processado pela via penal e punido com prisão. Vale lembrar que, segundo dados divulgados pelo próprio Ministério do Interior do país em 2008, entre 12 e 14 mil mulheres morrem todos os anos agredidas por seus companheiros na Rússia. Outras fontes falam que uma mulher morre a cada 40 minutos vítima da violência de gênero no país.

Na Rússia as mulheres ocupam pouco mais de 10% das cadeiras parlamentares e não contam com legislação ou políticas para garantir a presença feminina nos espaços institucionais e políticos. Esses são apenas alguns exemplos que apontam para a dura realidade experimentada pelas mulheres e pela população LGBT na Rússia. Realidade essa que nos indigna, que execramos e que lutamos contra. Mas será ela tão diferente da que vivenciamos em nosso país?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que fez uma pesquisa com 83 países sobre o assassinato de mulheres, o Brasil ocupa a 5.ª posição, com uma taxa de 4,8 homicídios de mulheres a cada 100 mil (Mapa da Violência, 2015). Esse mesmo Mapa aponta que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de ser mulher, sendo as mulheres negras ainda mais violentadas. Em 2016, 4.606 mulheres foram vítimas de homicídio, portanto, 12 mulheres foram assassinadas a cada duas horas. Além disso, o Relógio da Violência do Instituto Maria da Penha aponta que a cada 2 segundos, uma mulher é vítima de violência física ou verbal no Brasil.

Outro dado alarmante para o nosso país diz respeito à população LGBT. Segundo levantamento realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) em 2017, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) foram mortos em crimes motivados por homofobia. O número representa uma vítima a cada 19 horas. Dessas 445 mortes registradas, 194 eram gays, 191 eram pessoas trans, 43 eram lésbicas e cinco eram bissexuais. Quanto ao local, 56% dos episódios ocorreram em vias públicas e 37% dentro da casa da vítima.

Temos outros dados que nos aproximam da realidade Russa. De um total de 192 países, o Brasil ocupa a 152ª posição no ranking de representatividade feminina na Câmara dos Deputados. Por aqui, de acordo com o IBGE e o Inter-Parliamentary Union,
as mulheres compõem apenas 10,5% do conjunto de deputados federais.

Não se trata de dizer que o Brasil é pior ou melhor que a Rússia em termos de LGBTfobia e de machismo.  Queremos é trazer para a discussão um elemento que consideramos central: o fato de que as desigualdades de gênero e a discriminação por orientação sexual são estruturantes de um sistema político, econômico e social. Não se trata apenas da esfera cultural. Ou seja, é preciso considerar as especificidades da formação histórica de cada país, a conjuntura e a realidade política de cada um, mas não podemos perder de vista que a misognia, o machismo e a LGBTfobia são parte de um sistema e que para exigirmos nosso reconhecimento, respeito, igualdade e uma vida sem violência temos que fazer isso de forma associada à luta por uma outra sociedade.

Com isso, também apontamos para a importância de percebermos que os casos violentos de machismo e de LGBTfobia, que estão todos os dias sendo relatados e exibidos na Copa, não são eventos isolados que dizem respeito a um “país preconceituoso” ou a torcedores brasileiros que não “sabem se comportar”.

A eliminação do Brasil da copa e os ataques racistas e homofóbicos nas redes a alguns jogadores da seleção também não podem ser minimizados, colocados nesse campo de comportamentos isolados, de uma parcela de brasileiros que “não sabe criticar”. Racismo, machismo e LGBTfobia a gente vê por aqui.

Estes episódios só revelam a dura realidade que nós mulheres e LGBT estamos submetidos, na Rússia ou aqui. Reforçam o quanto estamos retrocedendo e a urgência de nossa organização e atuação coletiva em todo o mundo.

Atuação essa que deve contar com diferentes frentes de batalha, desde os movimentos sociais, da sociedade civil, dos partidos políticos, dos veículos de comunicação, das torcidas, dos jogadores, dos times de futebol, das seleções! E isso pode Arnaldo? Misturar política e futebol? Não só pode como deve. Um esporte e um evento que mobiliza gente no mundo todo, que é uma arte, e como tal dialoga de diferentes formas com as pessoas, que sensibiliza e emociona, deve assumir sua potência transformadora.

O futebol que une e aproxima as pessoas (todas) precisa acontecer de fato. E para isso, precisa ter lésbica, gay, trans jogando, ocupando os estádios, narrando, comentando. Precisa que as mulheres possam participar destes espaços sem serem assediadas. Precisa que jogadores, equipes, seleções, que todos se indignem e repudiem com veemência qualquer ato de discriminação. Por isso, atos como o das feministas que invadiram o gramado no encerramento do evento para denunciar o governo russo devem ser reverenciados e não silenciados ou minimizados pela imprensa em geral. Só assim teremos o futebol arte e o futebol que une. Teremos copa e teremos resistência. Hoje e sempre.

*Monica Benicio é arquiteta e militante pelos direitos humanos 


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