Fórumcast #20
15 de dezembro de 2017, 20h57

Quando a transexualidade encontra a religião

A reportagem ouviu quatro pessoas que mantinham contato com religião quando passaram pela transição de gênero. Conversou também com quatro líderes católicos, evangélicos, espíritas e candomblecistas para saber como lidam com a transexualidade. Leia os relatos

Por Hélen Freitas

Em janeiro de 2015, o papa Francisco recebeu no Vaticano Diego Neria Lejárraga, um homem trans que foi excluído da paróquia que frequentava, no município espanhol de Plasencia, após assumir publicamente seu gênero masculino. A reunião foi privada, mas simbólica: o líder da Igreja Católica abençoou Lejárraga.

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No início de junho de 2017, a Igreja Metodista Unida do Norte de Illinois, nos Estados Unidos, apresentou M Barclay como o primeiro sacerdote transexual não binário (que não é 100% masculino ou 100% feminino). A igreja é a terceira maior denominação do país, somente atrás das igrejas Católica e Batista.

Os dois casos representam uma nova abertura das igrejas diante do fortalecimento das lutas identitárias e da representatividade dos movimentos LGBT pelo mundo. Isso num contexto em que as questões ligadas a homossexualidade e transexualidade são um tabu em boa parte das grandes religiões, quando não condenadas abertamente.

A reportagem conversou com pessoas trans e travestis brasileiros que mantêm (ou já mantiveram) ligações com religiões a fim de ouvir suas experiências, sua espiritualidade, sua relação com a família e a comunidade. E também com líderes de quatro crenças diferentes.

Uma mudança de visão

Alessandra Tavares, 20 anos

Estudante de jornalismo e modelo, Alessandra Tavares, 20 anos, frequenta desde pequena a paróquia Nossa Senhora do Retiro, em São Paulo, com sua família. Contudo, apesar de ter feito catequese, crisma e gostar de frequentar a igreja, não participa mais das missas como antes. Nos últimos dois anos, mesma época que iniciou sua transição de gênero, foi a paróquia somente em duas ocasiões: nas missas de sétimo dia e um mês do avô.

“Eu sou de tempos. Este ano [2017] e o passado [2016], eu dei uma parada [de ir à igreja], mas pode ser que ano que vem [2018] eu volte e não pare mais. Eu gosto de ir, me sinto muito bem e a presença do padre me faz bem. A gente conversa. Acho que [a relação] não é nem de padre para cristão, mas sim de amigo.

O último padre [da paróquia] é o que eu tenho mais proximidade. Ele me viu em fases distintas e poderia abrir até uma feição diferente ao me ver, mas não, continuou igual. E eu fico super feliz com isso. Não só ele, até o pessoal da igreja. Não digo todo mundo, mas para o pessoal da comunidade que me conhece há anos [a transição de gênero] foi normal.

Nunca perguntei para o padre o que ele acha sobre o meu gênero. Tenho medo de constranger o padre, de ele não saber o que responder, então prefiro não perguntar. Tenho medo de ele falar algo e me magoar sem ele querer. Eu sei que na Bíblia está escrito que [a transexualidade] é condenável, mas eu sinto que eles [os padres] não perguntam por respeito.

Eu já cheguei a pensar que Deus não me amava e fiquei muito mal com isso. Achava que eu era um nada e que ele [Deus] me fez para sofrer, mas depois eu vi que não era bem isso. Deus vai te amar como você é. Então eu sei que Deus me ama. Por algum motivo, pode estar escrito na Bíblia que não é certo ser uma trans ou um homossexual, mas independente de tudo ele me ama. É só isso que eu sei. É isso que me conforta”.

Lam Matos, 34 anos

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Nascido em uma família evangélica, o empresário brasiliense não entra em uma igreja há 10 anos. Nesse tempo, mudou para São Paulo, frequentou o budismo, a Umbanda e, agora, diz ter se encontrado no Candomblé, uma religião acolhedora para ele.

“Nunca sofri preconceito dentro do Candomblé. Acho que as religiões de terreiro são mais acolhedoras, desapegadas da sua aparência, com quem anda, o que faz. Só querem saber quem você é lá dentro. Diferente das igrejas evangélicas.

Quando eu falo que não vou mais à igreja, as pessoas tendem a confundir as coisas. Eu deixei de ir, não deixei de acreditar em Deus, não deixei de acreditar em várias coisas que aprendi na Bíblia. Hoje, eu tenho uma outra interpretação dessa religião. Acredito que o que se vive hoje dentro das igrejas não está certo. Hoje em dia virou aquela história: pequenas igrejas, grandes negócios. Foi a primeira coisa que me decepcionou.

Além disso, comecei a interpretar a Bíblia de forma diferente. Se eu uso saia, calça, vestido, batom, maquiagem, tatuagem, qualquer coisa, isso para Deus pouco importa. Eu acho que ele quer uma vida íntegra e o que você veste ou come não quer dizer sobre a sua integridade dentro de uma sociedade. E, na igreja evangélica, eu não podia ser quem eu era.

Já me puni muito. Achava que era um pecado, que ia para o inferno. Mas comecei a pensar que, se eu não posso ser transexual ou gay porque na Bíblia diz que um homem não se deitará com outro homem como se fosse uma mulher e que mulheres não vestirão vestimentas masculinas, então a gente também tem que entender que para um homem também é pecado tirar a barba, porque na Bíblia fala que um homem jamais passará em seu rosto a navalha. Que lei é essa que eles querem pôr para cima de mim e eles não seguem?

Eu gostaria muito de ir ou saber que outras pessoas trans ou travestis foram numa igreja e foram acolhidas e ninguém pediu que essa travesti usasse vestido ou eu usasse terno. Se alguma vai mudar ou pode mudar a partir do momento que essa pessoa vai naquela igreja, tem que mudar dela. Tem que ser de dentro para fora, não de fora pra dentro”.

Giulianna Nonato, 23 anos

A fotógrafa paulista Giu deixou de frequentar o centro espírita com sua família quando tinha 13 anos. Foi nessa idade que procurou a Umbanda para ter uma relação mais próxima com sua espiritualidade. Dez anos depois, passou a frequentar uma casa de Candomblé, religião que sempre quis ter uma aproximação.

“Nunca me identifiquei muito com o espiritismo. Apesar de ser uma religião espiritualista, é uma religião cristã, com questões morais, éticas que não batiam com aquilo que eu sentia para mim. A minha aproximação com a Umbanda foi natural, devido a várias questões de identificação, mas também com a dinâmica da religião e por ser menos elitizada. Mas eu sempre quis me aproximar do Candomblé. Só estava procurando um local em que em sentisse bem e principalmente acolhesse pessoas trans.

Quando eu iniciei minha transição [de gênero], em 2015, me afastei de tudo e de todos. Queria me entender. Minha família tomou um choque muito grande, por medo de eu sofrer preconceito. E tinha também uma influência da religião. Os lugares que minha mãe frequenta falam que uma travesti ou um homem gay, o que para eles é quase a mesma coisa, seria um espírito que encarnou no corpo de um homem, mas ainda está preso em uma vida que viveu como mulher. O que é uma visão super transfóbica. Era a visão que minha mãe tinha. Eu nunca cobrei nada dela [da mãe], e fui percebendo que, aos poucos, para me manter perto, ela foi tentando entender as coisa do jeito dela.

Para mim, o Candomblé acabou sendo, primeiramente, uma questão de sobrevivência. Eu acho que eu sobrevivi a muita coisa graças ao apoio da minha família de santo. E é uma forma de eu me empoderar. É uma forma de eu me relacionar também de uma maneira sagrada com o universo da masculinidade e da feminilidade, que vai me ajudando a construir a minha própria identidade de gênero.

Apesar dos terreiros em geral terem muitas pessoas LGBT, existem ainda muito LGBTfobia. E apesar da transfobia acontecer, e vai acontecer, eu sei que tenho suporte. Eu não estou sozinha”.

Thaís Azevedo, 68 anos

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Mineira, a orientadora socioeducativa do CRD (Centro de Referência da Diversidade), Thaís já morou em outros países, como Itália e França. Acredita que o conhecimento é a chave de tudo, e diz que a religião a ajudou a ser assim.

“O Kardecismo te traz a necessidade da descoberta, do conhecimento e te induz a buscar as suas respostas. Ele não tem a simbologia que a igreja católica tem, é muito mais uma questão de ler e estudar. Não precisa que alguém passe a palavra, mas sim que as pessoas busquem respostas por si só.

Eu adquiri o hábito de falar que sou kardecista, porque papai e mamãe são kardecistas, e tem o ritual deles com a mesa branca, as orações e essas coisas, e eu já não tenho isso. Eu participei, trabalhei, fiz trabalho de toda ordem lá dentro e às vezes quando eu posso eu vou [na Federação Espírita do Estado de São Paulo], porque o kardecismo meu deu inclusive essa liberdade. Eu não preciso de um templo, de um lugar para exercer minha visão de mundo e do outro. Eu preciso ter consciência de mim e procurar me engrandecer.

Meu ser transgênero não foi nenhum conflito para mim, agora nunca vai ser mais. As questões biológicas são muito importantes pras pessoas que estão muito voltadas para os órgãos reprodutores e eu sempre estive muito mais voltada para o meu cérebro, porque ele que comanda todas essas coisas e, é claro, eu enquanto uma pessoa transgênero, o que a pessoa está pensando ao meu respeito é muito pequeno para mim. Eu olho para essas pessoas e vejo uma limitação, porque eu não posso ser representada pelo meu órgão sexual, e as pessoas se representam pelos seus pênis, suas vaginas, e isso é muito lamentável.

Na federação também é possível encontrar pessoas com uma visão simplória da transexualidade, da homossexualidade, da sexualidade. São poucas as pessoas que procuram uma religião porque querem crescer e ter uma capacidade intelectual.

O Kardecismo não finge nenhum discurso, nem dá nenhuma resposta. Ele dá perguntas. E a minha construção como ser está nesses três pilares: meu pai, minha mãe e o Kardecismo”.

O que pensam os líderes religiosos

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Henrique Vieira é pastor da Igreja Batista do Caminho de Niterói, no Rio de Janeiro, e acolhe transexuais. “Ouço muito que eu sou uma fraude, que eu não prego o evangelho da forma correta. Por outro lado, mais pessoas tem me procurado para se reaproximar de Cristo, dizendo que acreditam em um Deus que não condena, mas ama”.

Vieira diz que houve um aprimoramento dentro da sua igreja para construir um local plural, em que as pessoas passaram a entender que a Bíblia reflete um momento histórico e não devem usar partes do livro para justificar preconceitos. “Deus ama todas as pessoas, mas ele se revela preferencial nos corpos oprimidos ao longo da história. Por isso, ele se manifesta prioritariamente nos corpos, por exemplo, de transexuais e travestis”.

O coordenador de pastoral da Arquidiocese de São Paulo, padre Tarcisio Mesquita, também acredita que se deve acolher em vez de julgar os fiéis. “Jesus ensinou que a gente não deve discriminar ninguém. Todas as pessoas têm que ser tratadas com carinho, atenção, e se entrar uma pessoa transexual no nosso convívio, tem que ser cuidada da mesma forma”.

Para o padre, ainda há alguns assuntos indiscutíveis, como o casamento religioso. Segundo ele, a igreja entende que a união é um pacto entre duas pessoas heterossexuais. Sendo assim, transexuais e homossexuais deveriam ser castos – não poderiam estabelecer relações sexuais e amorosas. “A gente respeita as relações das outras pessoas, mas não é casamento”, conclui.

Fátima Giro, diretora da área de ensino da Federação Espírita do Estado de São Paulo, diz que a instituição não proíbe, nem tem preconceitos com transexuais. Porém, afirma que para fazer parte de algumas atividades do local, essas pessoas precisam se entender e deixar de vestir roupas que não foram designadas para o seu corpo. “Eles são acolhidos amorosamente [na federação], podem estudar, mas para ser expositor tem que entender a doutrina, e nós aprendemos que só existe dois sexos”, afirma.

A mãe-de-santo Claudinha Rosa, do Ilê Asé Ojú Oyá, diz que as religiões de matriz africana, em especial o Candomblé, sempre foram acolhedoras para as questões LGBTs.

“O que a pessoa é da porta pra fora só interessa a ela, o que interessa é o respeito a nossa ancestralidade, a nossas raízes, aos nossos costumes dentro da casa de axé. A partir do momento que a pessoa vem para cultivar a religião, seu orixá e adquirir fé e bons fluidos, indefere a sexualidade e identidade de cada um”, diz.

A ialorixá (denominação dada a mães-de-santo dentro do Candomblé) admite que é possível sim ocorrer preconceito dentro dos terreiros, mas diz que a transexualidade se tornou um assunto mais aberto dentro da religião.

Rosa termina afirmando que a transexualidade é a natureza da pessoa. “A transexualidade não é uma transição, uma tecla que você aperta e desaperta. É isso, não tem como mudar, e tentar fazer que a pessoa transexual não coloque esse espírito para fora, eu acho que é uma violência muito grande”.


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