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20 de novembro de 2016, 16h23

“33 revoluções e cinco contos”: Lançado mundialmente livro de Canek Guevara, neto de Che

A obra reúne uma novela e cinco contos inéditos deixados por Canek Sanchez Guevara, militante de extrema-esquerda morto em 2015. As histórias ficcionais revelam o dia a dia de Cuba e trazem uma crítica à própria esquerda. Leia trechos

Por Redação

Foi lançado recentemente, pelo selo Tusquets, “33 revoluções e cinco contos”, de Canek Sanchez Guevara. A obra reúne uma novela e cinco contos inéditos deixados por Canek, morto em 2015 após uma cirurgia no coração.

As histórias ficcionais presentes no livro revelam o dia a dia de Cuba nos dias atuais e seus problemas mais peculiares, como uma critica à esquerda ao próprio regime de esquerda instaurado no país após a revolução que teve como um dos principais líderes seu avô, Ernesto Che Guevara.

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Reprodução

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O principal texto, que dá nome à obra, conta o dia a dia de um rapaz, um cubano negro, filho de militantes, assim como o autor. Desmotivado, ele vive em uma ilha caribenha onde nada parece funcionar. “A vida toda é um disco riscado e imundo. Repetição atrás de repetição do disco riscado do tempo e da imundície”, descreve.

Militante de extrema-esquerda, Canek foi fotógrafo, escritor, artista gráfico e músico.

Confira abaixo alguns trechos do livro.

“O vento atravessa as frestas, o encanamento assobia, o prédio é um órgão multifamiliar. Nada se parece à música do ciclone; ela é única, inconfundível, linda. No pequeno apartamento, as paredes pintadas de qualquer cor, sem enfeites nem imagens, combinam com os poucos móveis, a televisão de madeira, a vitrola russa, o rádio velho, a câmera pendurada num prego. O telefone fora do gancho e os discos no chão. A água escorre pelas janelas, as paredes lacrimejam e poças se formam no piso. Lodo. Imundície e mais imundície. Um disco riscado e imundo. Milhões de discos riscados e imundos. A vida toda é um disco riscado e imundo. Repetição atrás de repetição do disco riscado do tempo e da imundície.

Na cozinha, duas latas de leite condensado, uma de tamale, um pacote de biscoitos. Do lado, um ovo, um pedaço de pão, uma garrafa de rum. Algumas comidas pesadas, com mofo. A batedeira num canto da mesinha; a frigideira em cima do fogão (a gordura na parede) e a geladeira dos anos 1950, vazia e desligada, com a porta aberta. No quarto, a cama fica no meio. O banheiro é minúsculo, escuro, sem água. O chuveiro mal se usa: o balde e a jarra o substituem. O tubo de pasta de dentes, o desodorante, a lâmina de barbear: o espelho trincado pinta uma cicatriz no reflexo.

Sai à sacada e é atingido por uma rajada de vento. Anônimo na imensidade da tormenta, abandonado à própria sorte e repetindo o disco riscado da vida e da morte, acende um cigarro diante daquele cartão-postal do fim do mundo. Uma e outra vez, como um disco riscado, se pergunta por que tudo parece imutável, apesar dos arrebatamentos de cada mutação. O prédio resiste, sim, mas todo o resto afunda entre as algas e as coisas mortas deixadas pela maré. Por último, sorri: com o passar dos dias o mar curará sua doença tropical, e o ciclo repetitivo da rotina voltará, como um disco riscado, ao encontro da normalidade.”

 

“O disco riscado no trabalho. O escritório, a foto do governante, a escrivaninha metálica, a cadeira de suas hemorroidas, a máquina de escrever velha e gorda, a caneta de um lado, os papéis amarelados, os carimbos, o telefone. O administrador aparece. Ondeia a papelada, alisa com um gesto a guayabera* branca e limpa a garganta antes de falar. Quando recebe ordens, sua voz lembra uma flauta; quando dá ordens, lembra um trombone. Como agora. Ao sair do escritório, deixa o eco da batida da porta, e o outro fica, enfim, sozinho em sua sala, mais negro, mais magro e mais nervoso do que de costume. Um pouco mais subordinado também.

Toca o telefone, e o negro magro e nervoso atende sem muita firmeza. Só ouve um ruído por trás dos fios – muito atrás, como um disco riscado – e desliga. Vai em direção à janela e acende um cigarro Popular. A vida para diante de seus olhos e não o assombra. Pensa que no fundo sempre foi assim, um repouso disfarçado de dynamis**. Dá uma olhada no relógio automático e soviético: dez da manhã e já não suporta o trabalho. É claro que nunca amou o trabalho, mas agora está farto de verdade (em seguida, entre parênteses, se pergunta quando começou esse “agora”). Tarde após tarde chega a seu apartamento solitário, e manhã após manhã o abandona em solidão. Os vizinhos? Um bando de discos riscados despojados de interesse. O comitê? Basta cumprir em silêncio, emendar algum “viva!”, e todos ficam em paz.

Na realidade, ninguém se importa com ninguém.”

“Fim da jornada. Oito horas revisando documentos, assinando circulares, carimbando, redigindo relatórios, fazendo cópias, suportando o chefe e mais um pouco. Oito horas tão intermináveis quanto o verão ou a solidão. Oito horas de entrega a nada. Mas hoje é dia de pagamento, e isso parece dotar de sentido o niilismo cotidiano, a farsa da contribuição, o delírio do serviço.

Cheira o envelope de cartolina amarela com seu nome escrito a mão e conta as notas coloridas cujo valor, sabe bem, é tão relativo quanto a nossa realidade. Não quer voltar para casa e, em vez disso, pensa num sorvete; caminha sem pressa, vendo os discos riscados que passam com seu sorriso de fim de mês, inchados de orgulho salarial. Não há silêncio na cidade: todos falam ao mesmo tempo, mais que de costume, replicando o zumbido do zangão – e elas, o da abelha-rainha. Todas se acham rainhas aqui. Chega, enfim, à sorveteria, e a fila lhe anula a vontade. Passa reto (entrar no cinema? Esqueça). Pega para San Lázaro, se afunda numa rua e naufraga num bar de esquina, escuro e aromatizado com urinas masculinas: balcão comprido, mesas sujas, rum barato, nada mais. Ninguém sorri, ninguém cumprimenta. Cada um na sua.

Num canto, quatro caras jogam dominó, como todos os dias do ano e todos os anos do tempo. Nunca varia o desfile de peças brancas, pontos pretos, duplos noves, gritos e blasfêmias. Junto de cada jogador, o sempiterno copo de rum; no centro, o cinzeiro cheio de pontas. É esse, pensa, o disco riscado da cultura nacional. Em outro canto, uma mulher taciturna, vestida com roupas sintéticas e policromáticas, fala sozinha enquanto folheia o jornal de ontem. Quatro páginas, todas iguais, com o mesmo tom, a mesma lábia, a mesma trova, verbo e raiva.

A mulher resmunga algo.

Ele se senta ao balcão, pede um rum, acende um cigarro e divaga consigo: o universo é um disco riscado sem relatividade nem quântica nenhuma, cheio de ranhuras, onde transcorre a vida de poeira cósmica, gordura industrial e asfalto cotidiano, pensa. Dá um grande gole, faz um barulho com a garganta e inclina a cabeça, com asco e gratidão.

O rum é a esperança do povo, pensa.

*Camisa masculina com pregas verticais, comum em diversos países da Amé- rica Latina. (N.T.)
** Dynamis, termo grego para força, poder, que está na origem da palavra “dinamismo”. (N.E.)”

 

Ficha técnica

33 Revoluções

Nº de páginas: 128

Preço de capa: R$ 31,90

Selo: Tusquets

Sobre o autor:

Canek Sanchez Guevara nasceu em Havana, em 1974. Neto de Che Guevara e filho de militantes da extrema esquerda foi escritor, músico, fotógrafo, artista gráfico e anarquista. Teve artigos publicados em revistas mexicanas como Letras Libres e Proceso, além de crônicas na revista Milenio Dominical. Morreu na Cidade do México em janeiro de 2015, aos 40 anos, depois de uma operação de coração. 33 Revoluções é seu primeiro e único romance, que permaneceu inédito em sua vida.

 


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