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21 de janeiro de 2014, 10h39

A cor da fé – relações estreitas entre intolerância, raça e religiões de matriz africana

Casos de intolerância religiosa registrados no país subiram de 15 para 109 entre os anos de 2011 a 2012

Casos de intolerância religiosa registrados no país subiram de 15 para 109 entre os anos de 2011 a 2012

Por Guilherme Lemos, no Medium.com

Quando escuto notícias do tipo “Evangélicos tentam invadir terreiro em Olinda” ou “Traficante evangélico proíbe terreiros no Morro do Dendê”, me pergunto se os lideres religiosos estão realmente passando a mensagem escrita na bíblia ou se as pessoas se cegam diante de intolerâncias medíocres construídas outrora. Cresci num lar protestante e, mesmo me identificando hoje com religiões de matriz africana, faço questão de guardar mensagens para refletir episódios diversos na vida.

Lembro que o princípio teológico regente do cristianismo é a salvação pela fé, numa operação feita pelo Espírito Santo “… pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós é dom de Deus” (Ef 2:8). Diante disso, pergunto a alguns que se dizem cristãos: por que tomam o lugar de Deus tentando converter os outros a suas verdades se o próprio livro sagrado que seguem não lhes permite convencer ninguém? Não seria mais interessante exercer amor ao invés de perseguirem outras crenças? Parece-me que alguns estão muito ocupados com seu próprio umbigo, tão ocupados que só pensam na própria “prosperidade”. A ironia e a cegueira são tantas que destruir um templo umbandista e mantê-lo de portas fechadas é plausível ou ignorável, mas se torna um absurdo a forma como alguns países tratam os cristãos. Não percebem os fanáticos que incorrem no mesmo erro.

Líderes religiosos estão passando a mensagem escrita na bíblia ou se cegam diante de intolerâncias? (Toluaye/Wikimedia Commons)

Os casos de intolerância religiosa registrados no país pelo “Disque 100” – ouvidoria vinculada à Secretaria de Direitos Humanos – subiram de 15 para 109 entre os anos de 2011 a 2012, sendo os representantes de religiões de matriz africana os mais atingidos. O motivo não poderia ser mais óbvio, em momentos anteriores da história, homens e mulheres africanos foram demonizados por teorias em voga no medievo, consequentemente suas crenças e cultura não escaparam desse olhar disforme que se propaga até os nossos dias. Vários documentos medievais referentes à África reforçam a ideia de que era uma terra corrompida, a terra onde “Satã se enfiou após a queda”, e para completar, interpretaram seus habitantes como os descendestes de Can – o filho de Noé amaldiçoado a servir eternamente seus irmãos (OLIVA,2008). Se você, leitor, se lembrou de Marco Feliciano não foi por acaso, é exatamente essa exegese medieval utilizada pelo indivíduo para justificar a “maldição” da pele negra. Ao fecharmos essa conta o resultado não é somente a moralização da cor da pele, é também a hierarquização das crenças de acordo com suas origens.

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Impossível não dizer, por exemplo, que a destruição da imagem de Yemanjá em João Pessoa e em outras cidades não seja consequência da propagação dessas interpretações errôneas sobre as tradições africanas. Afinal, por que os kardecistas não sofrem tanto com a intolerância se comparados aos os umbandistas e candomblecistas? Por que não têm seus espaços invadidos e destruídos? Simples, por mais que ambas partam do princípio da existência de seres encarnados e desencarnados o kardecismo tem origem europeia, tem um “cânone”, um “código de ética”.

Minha esperança é que nesse dia 21 de janeiro (Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa) nossa dívida uns para com os outros não seja a destruição dos símbolos que importam a cada um em suas crenças, mas sim “o amor que não pratica o mal contra o próximo” (Rm 13:10).

“Axé pra quem é de axé
Saravá pra quem é de saravá
Aleluia pra quem é de aleluia
Amém pra quem é de amém
Shalom
Namastê geral
Ai!”

 

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Guilherme Lemos – sou negro historiador. Raça, identidade e sociedade são meus interesses 


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