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16 de janeiro de 2020, 23h47

Apoio estadunidense a regimes da América Central já produziu sete caravanas de imigrantes, todas reprimidas na fronteira

Honduras e Guatemala são responsáveis por mais de dois terços dos participantes das marchas, provocadas pela precarização da vida, que é o resultado produzido pelos governos que a Casa Branca respalda na região

Reprodução/La Jornada

O discurso anti imigração promovido por Donald Trump nos Estados Unidos se alimenta das próprias políticas do governo que ele encabeça. Prova disso é o que acontece especialmente na América Central, de onde, nos últimos dois anos, saíram as caravanas de imigrantes em direção ao sonho americano, e são fortemente reprimidas na fronteira estadunidense, ou até mesmo antes.

Nesta semana, surgiu a informação de que se formou na cidade de San Pedro Sula, no interior de Honduras, a primeira caravana de imigrantes de 2020, e que o governo dos Estados Unidos pressionou a Guatemala a não deixar que ela sequer entrasse em seu território.

Desde 2018, esta já é a sétima caravana massiva de imigrantes. É curioso que essa tendência tenha ganhado mais força justamente durante o governo de Trump, que é, neste século, o que mais tem tomado medidas para restringir e reprimir o acesso dos imigrantes ao país.

A primeira caravana aconteceu em 2018. Saiu de Honduras com 1,6 mil pessoas, e chegou com quase 7 mil na fronteira entre o México e os Estados Unidos – e envolveu muito mais gente, se considerados os que foram sendo capturados no caminho, ou que desistiram por motivos diversos.

Depois dela, houve outras cinco caravanas, duas delas saindo da Guatemala, as outras todas em Honduras. Se estima que o total de pessoas mobilizadas em todas as caravanas até agora supera a casa das 130 mil pessoas. Segundo o Programa de Proteção de Migrantes (PMM) dos Estados Unidos (PMM), entre 2018 e 2019, mais de 56 mil pessoas capturadas em ações repressivas na fronteira foram devolvidas ao lado mexicano.

Contudo, o que chama mais a atenção é que todas essas caravanas se originam e têm a maior parte dos seus integrantes vindos de países cujos governos são apoiados pelos Estados Unidos.

Donald Trump afirma que o Partido Democrata e Barack Obama são os responsáveis por estimular as caravanas de imigrantes em direção ao seu país, o que em parte, talvez seja certo, mas não como ele defende em sua teoria conspiratória – dizendo que os opositores liberais estão por trás dos grupos que convocam as marchas.

A maior contribuição dos governos estadunidenses, de Obama e Trump, é com o apoio que entregam aos regimes semi-ditatoriais de Honduras e da Guatemala. As marchas são convocadas nesses dois países desde o ano de 2010, época em que reuniam entre 140 e 500 pessoas. Só a partir de 2018 passaram a ser mais massivas, graças à vida nesses países que vem se tornando ainda mais precarizada.

Em Honduras, quando Hillary Clinton liderava o Departamento de Estado, a Casa Branca apoiou o golpe de Estado civil-militar contra o então presidente Manuel Zelaya, em 2009. Desde então, também sustentou os governos de diferentes políticos de direita, incluindo o atual, de Juan Orlando Hernández, reeleito em 2018 com uma escancarada fraude eleitoral, mas que foi reconhecida sem nenhum receio pelos Estados Unidos, apesar de todos os observadores internacionais terem questionado o processo.

Desde o golpe de Estado, os governos de direita elevaram a pobreza em Honduras a mais de 60%, segundo dados da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), apesar de uma taxa de crescimento de 2,7% em média por ano, considerada exemplar pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), que não questiona o destino e a distribuição dessa renda. Enquanto isso, a organização Human Rights Watch diz que o país tem uma das maiores taxas de homicídios do mundo, com 62 para cada 100 mil habitantes. Todas essas razões fazem com que Honduras seja o país com mais pessoas participando das caravanas (cerca de 73%) e de onde saiu a maioria delas (5 de 7).

A Guatemala é outro país que mantém índices sociais extremamente alarmantes, resultado de governos sustentados em um sistema democrático também questionável, mas igualmente sustentado pelo apoio estadunidense.

Desde o fim do último governo de centro no país (Álvaro Colom), a pobreza aumentou em 12,1%, e alcançou os 64%, segundo dados da CEPAL, ou seja, o que já era ruim ficou ainda pior. Também tem uma taxa de homicídios considerada alta (31 a cada 100 mil habitantes), embora menor que o da sua vizinha do sul.

Também há participantes das caravanas provenientes de El Salvador, país que foi governado pela esquerda durante 10 anos, entre 2009 e 2019 (Mauricio Funes e Salvador Sánchez Cerén, do partido FMLN). Apesar de ter diminuído os índices de pobreza em até 4%, o país continuou sendo um dos mais pobres da região. Também é verdade que o apoio estadunidense ao país só veio a partir da chegada da direita ao poder, com Nayib Bukele. Juntos, os cidadãos dos três países conformam mais de 90% das caravanas de imigrantes.


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