O que o brasileiro pensa?
19 de junho de 2020, 18h28

Após pressão bolsonarista, agência alemã encerra coluna de brasileiro que criticou presidente

Deutsche Welle acusa J.P. Cuenca de discurso de ódio depois que o escritor adaptou frase clássica do século 18 em seu perfil pessoal no Twitter

Foto: Reprodução/YouTube

A Deutsche Welle Brasil, filial brasileira da agência de notícias alemã que é uma das mais tradicionais do mundo, anunciou nesta sexta-feira (19) que deixará de publicar a coluna de João Paulo Cuenca, o J.P. Cuenca, e acusou o escritor brasileiro de “discurso de ódio e incitação à violência”.

Cuenca, que adaptou uma frase clássica do século XVIII para criticar a família Bolsonaro, em seu perfil pessoal no Twitter, repudia as acusações e vai processar a DW Brasil, que teria cedido a pressão de bolsonaristas.

“O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”, escreveu Cuenca, em seu perfil no Twitter. A mensagem despertou uma onda de ataques de bolsonaristas contra ele na rede social e, segundo o escritor, até ameaças de morte.

Após a repercussão, Cuenca esclareceu que, para fins de sátira crítica, adaptou a frase “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”, dita pelo sacerdote católico e filósofo francês Jean Meslier, em 1761. A mensagem é frequentemente atribuída ao iluminista Voltaire e já ganhou diferentes adaptações ao longo da história para refletir outros períodos de crise política.

O escritor também chegou a publicar na rede social que está acostumado com campanhas pela sua demissão feitas por alvos de suas críticas, o que teria ocorrido em todos os lugares para os quais colaborou, mas destacou que nunca viu um veículo de comunicação ceder “de forma tão rápida e assustada”.

Ele disse ainda que ofereceu para emitir uma nota sobre o caso e esclarecer as origens da frase em uma próxima coluna, mas não houve tempo. A DW Brasil atendeu os bolsonaristas e comunicou a decisão, também no Twitter.

“A Deutsche Welle comunica que deixa de publicar a coluna quinzenal Periscópio, de J.P. Cuenca, após o colunista ter escrito, em perfil privado nas redes sociais, mensagem que contraria os nossos valores”, escreveu a DW.

“A Deutsche Welle repudia, naturalmente, qualquer tipo de discurso de ódio e incitação à violência. O direito universal à liberdade de imprensa e de expressão continua sendo defendido, evidentemente, mas ele não se aplica no caso de tais declarações”, completou.

Cuenca se disse surpreso com o comunicado, que classificou como “mentiroso, covarde e difamatório”. “É desconcertante ver um veículo alemão caindo no jogo persecutório de elementos fascistas no Brasil e me perguntar se ele teria feito a mesma coisa em outros momentos da história da Alemanha”, escreveu.

“Não aceito ser e caluniado e difamado, de forma alguma, pela imprensa supostamente livre e democrática que deveria me apoiar contra um linchamento virtual de origem fascista que contou com dezenas de ameaças de morte recebidas via inbox nas últimas 72 horas O meu tweet em questão não contém discurso ‘de ódio e incitação à violência’ e qualquer um com o mínimo de leitura é capaz de perceber isso”, completou o escritor, afirmando ainda que tomará as “medidas cabíveis” e levará o caso “às últimas consequências”, continuou o escritor

“Agindo dessa forma covarde, a DW Brasil manda o pior tipo de recado a essas milícias fascistas: que elas podem empreender coação e censura no Brasil – e, pior, contar com o apoio da imprensa pública alemã para isso”, destacou Cuenca, em outro trecho de sua resposta ao caso.

A decisão da DW Brasil de suspender a coluna foi comemorada por bolsonaristas nas redes sociais e caso foi compartilhado com entusiasmo pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). “Cuenca desrespeita presidente e é demitido da DW Brasil”, escreveu Eduardo, no Facebook.

Além das ameaças de apoiadores do presidente, Cuenca também recebeu dezenas de manifestações de solidariedade de jornalistas e intelectuais, que condenaram a postura da DW Brasil.

“Leitura superficial, pressão externa, falta de referências… Nada vejo que justifique o brusco , e público, rompimento da @dw_brasil com @jpcuenca que, num post, parafraseou citação inúmeras vezes parafraseada”, escreveu o jornalista Marcelo Lins.

“Absurda interpretação e pior ainda a decisão da @dw_brasil com o escritor @jpcuenca”, disse o escritor Xico Sá. “Todo apoio e solidariedade ao autor”, completou.

“Demitir jornalistas ou colunistas sob os urros da turba bolsonara sempre será fazer o jogo do fascismo”, resumiu o jornalista Paulo Werneck.

J.P. Cuenca desrespeita presidente e é demitido daDW Brasill. Há esperança de um trabalho ético em determinados segmentos da imprensa👏J. P. Cuenca segue trabalhando para o The Intercept.

Publicado por Eduardo Bolsonaro em Sexta-feira, 19 de junho de 2020

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