Brasil: O desastre do presidente – Entrevista exclusiva com o deputado Paulo Pimenta

"Atuação de Jair Bolsonaro é a pior em todo o mundo", diz o parlamentar

A pandemia da Covid-19, de fato, causou repercussões não somente na área epidemiológica, mas produziu impactos sociais, econômicos e políticos na vida de brasileiros e brasileiras. O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), um dos principais líderes do bloco de oposição a Jair Bolsonaro, faz uma análise crítica sobre o cenário trágico em que o país se encontra.

Conter a proliferação do vírus, através da vacinação, é nossa principal urgência. A inércia do governo em executar estas ações implica diretamente na violação dos Direitos Humanos.

Pergunta: Deputado Paulo Pimenta, como é a sua avaliação sobre a gestão desempenhada por Bolsonaro?

Paulo Pimenta: A atuação de Jair Bolsonaro na Presidência do Brasil, desde seu primeiro ano de mandato em 2019, sempre foi polêmica, baseada em achismos e oportunismos. Em 2020, as medidas institucionais adotadas pelo governo, com o surgimento da pandemia de Covid-19, se revelaram equivocadas.

O avanço do coronavírus somado ao não cumprimento das medidas sanitárias, recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), tornaram Bolsonaro o pior gestor do mundo.

Pergunta: As notícias apresentam que o governo de Bolsonaro é o mais incompetente da história do país. Na sua opinião, é somente a incompetência o fator principal?

Paulo Pimenta: Não, esta é apenas uma das características. Para a maioria da população, a gestão Bolsonarista é vista apenas como incompetente. Porém, estudos e pesquisas evidenciam que seria uma política de governo a propagação do vírus. Considerando que a atuação do presidente vai de encontro às percepções mundiais, estaria ele agindo criminosamente e não apenas cometendo erros. Ou seja, todas as ações executadas pelo governo são cuidadosamente planejadas e estão sob a liderança da presidência da República. O comportamento adotado por Bolsonaro, com suas atitudes e declarações absurdas, resulta na exposição de uma nação inteira ao vírus. O presidente se recusa a adotar as normas sanitárias e também a tomar as medidas que poderiam reduzir a contaminação.

Pergunta: Estudos apontam que o Brasil já se tornou um transmissor potencial do coronavírus. O país é visto como um ameaça devido a proliferação do vírus. Como que o deputado analisa o avanço da doença?

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Paulo Pimenta: Além da população servir de cobaia para um experimento mortal, Bolsonaro transforma o país num “laboratório a céu aberto”. Conforme descreve o  cientista Miguel Nicolelis, em entrevista ao jornal britânico The Guardian: “O Brasil é um laboratório a céu aberto para o vírus se proliferar e eventualmente criar mutações mais letais.”. Para compreender este contexto, basta relembrar de um termo recorrente na pandemia: a imunização de rebanho ou de grupo, que é aquela atingida quando a maioria da população cria defesas contra uma doença infecciosa. Isso acabaria por extinguir localmente o vírus ou a bactéria causadora da enfermidade por falta de organismos suscetíveis para infectar e se reproduzir. Porém, jamais a imunização de rebanho poderia ser uma estratégia, visto a capacidade de modificação do vírus, o que acelera a circulação de novas cepas. No Brasil, este experimento ocorreu na força-tarefa humanitária de amparo a refugiados venezuelanos, em Roraima, em que os militares que trabalham no local foram expostos, por ordem do general Antônio Manoel de Barros, comandante militar da operação Acolhida.

Pergunta: O Brasil faz uma série de tentativas e todas elas são frustradas e sem nenhuma comprovação científica. Estas medidas são um atentado à população?

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Paulo Pimenta Cada país adotou medidas no combate a proliferação do vírus, alguns adotaram a técnica de imunização de rebanho, como Reino Unido, porém após um surto de contaminados optaram pelo isolamento social.

Cabe aqui ressaltar que não há comprovação científica sobre a imunidade de rebanho, ao contrário, há muitas dúvidas sobre a doença. As pessoas que tiveram Covid–19 estão de fato completamente imunes a novas infecções pelo vírus, especialmente em relação às variantes?

É evidente que ao adotar a imunidade de rebanho a população brasileira enfrenta uma situação de caos, devido as altas taxas de hospitalização e necessidade de cuidados intensivos. Isso sobrecarrega os profissionais, a capacidade dos serviços de saúde e resulta no colapso do sistema.

Em fevereiro de 2021, quando o Brasil completou um ano do anúncio do seu primeiro infectado, o país ultrapassou a marca de 250mil mortes por coronavírus. Infelizmente, a vacina ainda é uma realidade distante para a maioria dos brasileiros e brasileiras. Outro fator preocupante é que devido a circulação do vírus pelo mundo, surgem novas variantes fazendo com que as vacinas testadas e aprovadas tenham eficácia reduzida. No Brasil, já há variantes mais contagiosas, o que torna a imunização em massa ainda mais urgente.  

Pergunta: O SUS é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, sendo o Brasil o único país com mais de 100 milhões de habitantes a garantir assistência integral à saúde. Durante todos estes anos de existência ocorreram uma série de avanços na área. Como você avalia a situação atual do SUS diante da pandemia?

Paulo Pimenta: O Brasil é um país preparado devido à capilaridade e à experiência do Sistema Único de Saúde (SUS), isso é uma vantagem em relação a muitos países. Mas a realidade é que não são realizados investimentos consistentes em pesquisas, em insumos, em profissionais para agilizar a testagem em massa e até mesmo na fabricação de vacinas nacionais. O Brasil, mesmo com dificuldades, possui profissionais qualificados, pesquisa de ponta e laboratórios com reconhecimento internacional. Se temos um governo que nega todas estas possibilidades, vantagens e a capacidade que temos de amenizar o problema, temos um governo criminoso que faz escolhas conscientes contra a vida, e não equivocadas.

Pergunta: Dados da OMS mostram que no Brasil, de 3 de janeiro de 2020 até 14 de março de 2021, foram notificados à OMS 11.363.380 casos confirmados de Covid-19, com 275.105 óbitos. Até 5 de março de 2021, foram administradas 8.580.097 doses de vacina. Para evitar esta tragédia o que o país deve priorizar para amenizar este descontrole da pandemia?

Paulo Pimenta: O país precisa adotar um pacto nacional, para que as iniciativas de governadores, prefeituras, entidades empresariais e da sociedade civil sejam unificadas e coerentes no combate a proliferação do vírus. Porém, é evidente que Bolsonaro e seus aliados não estão dispostos a este acordo, e sim a cada vez mais a disseminar a Covid-19, prova disto está nas mais diversas manifestações feitas por ele: “mortes acontecem”, “um dia todos iremos morrer”. E assim continuará estimulando aglomerações, além de atacar o uso de máscaras.

A realidade é que o governo foge do compromisso de unificar as ferramentas e recursos que sejam a favor da vida. Assim ele cria estratégias para desarticular as políticas públicas e coloca nos governos estuais, municipais e nos cidadãos, todas as responsabilidades.

É preciso refletir, também, sobre quem são as pessoas mais afetadas por esta política da morte adotada por Bolsonaro. De fato, as pessoas em vulnerabilidade ou com dificuldades sociais são rapidamente atingidas e sofrem com as consequências por um longo período. Reverter estes cenários é sempre mais lento do que prevenir e amenizar. É função do governo trabalhar para o povo brasileiro e evitar o colapso.

Em síntese, o que percebemos é que, em uma crise sanitária, todas as situações se tornam mais delicadas. Em vez de estarmos amparados com normas federais, projetos e ações que protejam os brasileiros e brasileiras, e principalmente os mais vulneráveis, somos submetidos a ter que tomar nossas próprias decisões de como nos cuidar e zelar pelo o outro. Bolsonaro, ao “jogar” esta responsabilidade para cada um, multiplica as barreiras nas relações em sociedade e as desigualdades.

Pergunta: Com toda esta crise sanitária, o Ministério da Saúde, com a demissão do general Eduardo Pazuello,terá seu quarto ministro em pouco mais de 12 meses de pandemia. O Brasil se vê em meio a uma turbulência política na área da Saúde com este troca-troca dentro do Ministério. Podemos dizer que o governo de Bolsonaro utiliza de uma agenda da necropolítica?

Paulo Pimenta: Sim. O Brasil tem se destacado mundialmente por suas desastrosas ações governamentais, não há um plano nacional contra a doença. O que existe são problemas logísticos no plano de vacinação, negacionismo do governo e seus apoiadores, que colocam suas vidas e dos demais em risco, e outras tantas ações em favor das políticas econômicas neoliberais, afetando, principalmente, a população mais pobre e vulnerável, pois o pobre foi forçado e submetido a ter duas escolhas: passar fome, ou sair para trabalhar para sustentar a economia. Por inúmeras vezes, Bolsonaro relativizou o cenário que vivemos ao profetizar frases como: “Alguns vão morrer? Vão morrer, lamento, mas é a vida”. No momento em que o presidente, por deter de um poder político, define quem vai sobreviver ou morrer, é necropolítica.

E quanto ao ministro da Saúde, Pazuello, junto com os demais militares, só fazem o que Bolsonaro manda que façam. Todos são cúmplices deste sujeito e colaboram com todas as práticas vistas como inaceitáveis diante da pandemia.

Pergunta: A postura de Bolsonaro diante da crise em que vivemos vai na contramão das políticas adotadas por presidentes de outros países e também as indicações da OMS. Portanto, o governo é o inimigo dos brasileiros e brasileiras?

Paulo Pimenta: Sim, é o principal inimigo. A atitude de Bolsonaro, ao invocar o direito individual de não usar máscara e de não tomar vacina, de dizer que cada um decide o que faz, é um crime. Quando em seus pronunciamentos ele afirma que a Covid-19 é uma “gripezinha”, apenas para a população idosa e com comorbidades, é o mesmo que falar que parte do povo está apto a morrer. Quando afirmações deste nível são proferidas por um presidente, com certeza isto é um crime contra a população.

Esta postura pública é inaceitável e muito cruel em um cenário de pandemia, em que decisões sanitárias não podem depender da escolha de cada um. Ao contrário, precisa de unidade, de discursos coerentes e iniciativas que promovam a vida e reconheçam as diferentes realidades.

Fontes:

Site: The Intercept Brasil. Reportagem: General incentiva surto de coronavírus para ‘imunizar tropa’ em abrigo de refugiados, disponível em General incentiva surto de coronavírus para ‘imunizar tropa’ (theintercept.com).

Dados oficiais sobre COVID-19 pesquisados em : Brazil: WHO Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard | WHO Coronavirus Disease (COVID-19) Dashboard, acessado em 15 de março de 2021.

Site: Brasil 247. Reportagem: Miguel Nicolelis: Brasil vai se transformar no maior reservatório biológico do coronavírus no mundo, disponível em Miguel Nicolelis: Brasil vai se transformar no maior reservatório biológico do coronavírus no mundo – Brasil 247

*Entrevista encaminhada com exclusividade à Revista Fórum pelo mandato do deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS)

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Direto da Redação da Revista Fórum.

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