domingo, 20 set 2020
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Caso das praticantes de ioga evidencia como o homem se sente dono do corpo da mulher

CYNARA MENEZES

Duas moças estavam praticando ioga tranquilamente na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, como costumam fazer todos os fins de semana. Nem imaginavam que estavam sendo filmadas de longe por um homem, em idade já avançada, que se achou no direito de publicar o vídeo em seu instagram, fazendo comentários obscenos diante da cena.

O empresário Ricardo Roriz, que apareceu na convenção do PSL em julho de 2018 ostentando uma tatuagem de Jair Bolsonaro na perna, possui uma loja de artigos militares no Rio com mais de 200 mil seguidores no facebook. Na época, ele foi retratado na Folha de S. Paulo pelo escritor de extrema direita Leandro Narloch como a personificação do eleitor “desiludido com o PT”.

Como uma das moças filmadas sem consentimento é advogada e deu queixa à polícia, Roriz colocou o rabo entre as pernas e pediu desculpas afirmando ter sido uma publicação “infeliz” –mas só após a Polícia Civil abrir uma investigação sobre o caso.

“Eu virei um filme pornô do dia para a noite, para as pessoas usarem quando elas quiserem. Isso é muito bizarro. Eu não sou isso, não optei por isso. Eu nunca mais vou fazer minha prática de ioga, porque eu nunca mais vou voltar a pensar que minhas pernas estão para o ar num movimento bonito, vou pensar num idiota qualquer se masturbando. É muito triste que as pessoas façam isso com outras sem nenhum tipo de pudor ou remorso”, disse Mariana Maduro ao G1.

“Quando eu cliquei, só comecei a vomitar, não conseguia parar de vomitar. Eu não consigo parar de ouvir a voz desses dois, o riso, o ‘blau blau blau’, não consigo tirar esse momento da minha cabeça e pensar ‘quantos vídeos ele tem meu?’. Porque eu estou ali todo fim de semana. Meu Deus do céu. Quantas vezes o meu corpo já não foi usado para essa coisa nojenta? Eu me sinto suja.”

https://www.instagram.com/p/CDXE9Hpg1Lv/

Nesta terça-feira, a advogada postou um vídeo no instagram onde denuncia que Ricardo Roriz, ao contrário do que diz em sua nota de esclarecimento, já havia feito outras imagens dela e de seu grupo de ioga, dando zoom nos corpos das mulheres e com seu parceiro comentando: “Ninguém aqui quer ver ioga, queremos ver alcatra abrindo”. “Somos todas alcatra”, Mariana lamenta. “Hashtag somos todas alcatra. Somos um pedaço de carne.”

Foi a segunda denúncia de uso indevido de imagem de mulheres nas redes em menos de duas semanas. No final de julho, a modelo plus size Bia Gremion decidiu processar o “humorista” Leo Lins (também bolsonarista, claro) por pegar uma foto em seu instagram e republicá-la no perfil dele com o objetivo de zombar de sua aparência. Lins ainda por cima utilizou a foto de Bia com o namorado, um homem trans, para fazer propaganda de seu show de stand up.

O que estas histórias têm em comum? Elas evidenciam como o homem se sente dono do corpo das mulheres, como acha que pode dispor do corpo até de mulheres que não conhece. Esta é a origem de todos os crimes de estupro desde o princípio dos tempos, e das desculpas que os homens dão para a violência sexual contra a mulher: aquele corpo estava ali exposto, portanto estava “pedindo” para ser “usado”.

Isso se reflete nos julgamentos sobre o nosso corpo –se ele é atraente ou não, se está acima ou abaixo do peso–, nossa aparência e inclusive sobre as roupas que usamos, cuja “adequação” é o homem que quer decidir. Com as redes sociais, ele se sente no direito ainda de proferir sua opinião em público e, como se vê, chega a invadir perfis alheios para acessar fotos de corpos. Sente-se proprietário inclusive de corpos de mulheres desconhecidas em fotografias na internet.

É como se nosso próprio corpo não nos pertencesse, e sim ao homem. Daí o sentimento de posse, os ciúmes, a violência. Como é “dele”, o homem acha que pode fazer o que quiser com nosso corpo sem pedir permissão: expor nas redes sociais, apalpar em espaços públicos e até nos matar, como tem acontecido cada vez mais no Brasil de Bolsonaro. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os casos de feminicídio cresceram 22,2% entre março e abril deste ano em 12 estados do país em comparação ao ano passado.

Como é “dele”, o homem acha que pode fazer o que quiser com nossos corpos sem pedir permissão: expor nas redes sociais, apalpar em espaços públicos e até nos matar, como tem acontecido cada vez mais no Brasil de Bolsonaro

Só no mês de agosto já houve casos como o da jovem Raiane Miranda, de 20 anos, morta a facadas pelo ex-namorado no Amapá; o de Pollyana Moura, de 34 anos, enfermeira que trabalhava no combate à violência contra mulheres e crianças no Distrito Federal e foi assassinada pelo namorado, também a facadas; o da diarista Marcia Cardoso, de 39 anos, enforcada pelo companheiro após uma festa em Colombo, no Paraná; e o de Gisele Ramos, de 24 anos, encontrada morta com um tiro na cabeça ao lado da filhinha de 4 anos em Xaxim, Santa Catarina.

Para enfrentar a violência contra a mulher não basta aumentar a pena para o feminicídio. A mudança tem que vir na formação, em casa e na escola. É preciso uma mudança de mentalidade. Enquanto os homens acharem que são proprietários de nossos corpos, continuaremos a ser expostas, assediadas, violentadas e mortas.

Socialista Morena
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Uma nova forma de fazer jornalismo. Cultura, política, feminismo, direitos humanos, mídia e trabalho. Editora: Cynara Menezes