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11 de agosto de 2014, 18h09

Como Israel usa seus civis de “escudos humanos”

Com bases militares em campi universitários e bairros superpovoados, além de treinamentos militares em comunidades próximas à Faixa de Gaza, o exército de Israel – seguindo sua lógica de ataque – também usa seus civis como “escudos humanos”

Por Max Blumenthal, em Alternet | Tradução: Vinicius Gomes

Ao longo dos contínuos ataques à Faixa de Gaza, provavelmente a frase mais usada pela propaganda israelense foi sobre “escudos humanos”. Repetida de maneira retumbante e insistente pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e apoiada pesadamente por um exército de relações públicas, a frase foi impiedosamente empregada para proteger Israel da responsabilidade do banho de sangue que tem causado em Gaza. Israel já matou mais de 1.800 civis em questão de semanas, incluindo 430 crianças, mas foi o Hamas que os forçou a isso.

Assim como muitas acusações de sionistas contra a sociedade palestina (“eles só entendem a força”, “eles ensinam suas crianças a odiar”, “eles nunca perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade”), a acusação dos escudos humanos é uma ilusão. Israel é a sociedade mais militarizada do mundo, com soldados e instalações militares intricados por entre a sociedade civil. Com o serviço militar obrigatório para todos homens e mulheres e situação de reservista para todos os judeus até a idade de 40 anos, os israelenses judeus alternam constantemente entre o papel de civil e soldado, obscurecendo a linha divisória entre os dois.

Dentro de um dos bairros mais povoados de Tel Aviv, se encontra o Ha´Kirya, o quartel general do exército. Um gigantesco complexo de prédios monolíticos que abrigam os escritórios de onde os ataques em Gaza são planejados. Os oficiais não-uniformizados e os soldados que trabalham ali dentro, almoçam em cafés e fazem compras nos shopping centers ao redor de seus escritórios, se incorporando entre a população civil. Outra base militar está encravada no meio de um campus da Universidade de Haifa, enquanto as Universidades Hebrew e de Tel Aviv oferecem aos oficiais militares mensalidades de graça, encorajando assim suas matrículas e permitindo-os a carregar armas dentro dos campi. É difícil de encontrar algum lugar em Israel sem qualquer presença militar.

Um editorial do jornal israelense, Yedioth Aharonot, o veterano conselheiro militar Giora Eiland, argumentou a favor da punição coletiva à população civil em Gaza: “Para que se garantam nossos interesses, ao invés das demandas do outro lado, nós devemos evitar a artificial, errônea e perigosa distinção entre o pessoal do Hamas, que são os “malvados”, e os residentes em Gaza, que supostamente seriam os “mocinhos”.

Naturalmente, Eiland falhou em considerar as terríveis implicações em se eliminar a distinção entre civis e as facções armadas que se movimentam entre eles. Se a sua lógica fosse invertida e aplicada à sociedade israelense, onde civis são soldados e soldados são civis, praticamente todo cidadão israelense judeu poderiam ser considerados alvos legítimos.

Os mais vulneráveis entre a população israelense judia residem nas comunidades ao redor da Faixa de Gaza. Muitos dessas cidades de classe média e kibbutzim foram plantadas durante a década de 1950, no lugar onde os palestinos haviam acabado de serem forçados a ir embora. Em al-Majdal Asqalan, hoje conhecida como Ashkelon, os imigrantes judeus do Oriente Médio foram literalmente inseridos ali para substituir os palestinos que foram mantidos em enclaves cercados de arame farpado antes de serem exilados em Gaza. Atualmente, essas comunidades negligenciadas formam uma muralha humana contra a ameaça demográfica entalada por trás de um cordão sanitário que o estado high-tech de Israel mantém ao sul do país.

Não apenas as comunidades israelenses no sul existem sob a ameaça de misses e ataques de morteiro vindo daqueles a quem eles expulsaram, mas também são usados rotineiramente como abrigos e bases temporárias para o exército israelense.

Renan Raz, um garçom de 26 anos e ativista contra a ocupação, que vive em Tel Aviv, se lembra da angústia vivida quando o exército chegou a Dorot, o kibbutz ao sul onde ele nasceu e cresceu. Ali foi o ápice da Operação Cast Lead, o ataque israelense que deixou 1.400 palestinos de Gaza mortos entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. A maioria eram civis.

 “Na maioria dos dias, os soldados estavam lutando na Faixa de Gaza durante a manhã e ao entardecer eles voltavam para o nosso kibbutz – trazendo suas armas, dormindo ali e às vezes praticando treinamentos militares nos campos, no kibbutz. Eles se escondiam e faziam planos ali”, disse Raz. “Da maneira como eu via, eles nos usavam como escudos humanos”.

Raz relembrou: “Nós estávamos bem ali na fronteira com a Faixa de Gaza e eles praticavam tiros – com armas ou veículos armados – nos nossos campos. Eu podia ouvir as explosões enquanto praticavam ou até mesmo atiravam em direção à Gaza”.

 “Nós somos uma sociedade militar doente”, ele continuou. “Você não pode dizer que o Hamas está usando civis como escudos humanos, quanto de maneira óbvia o nosso exército usa a todos nós como escudos humanos e, aqueles entre nós vivendo próximo à Gaza, são definitivamente os maiores escudos”.

Já tendo recusado o serviço militar em desafio a essência militarista do país, Raz é completamente contrário ao ataque em Gaza: “Toda vez que soava o alarme contra os mísseis [do Hamas], todas as pessoas ao meu redor gritavam ‘morte aos esquerdistas, morte aos árabes!’ E eu só queria que todos tivessem uma boa vida. Eu não quero ser intimidado por mísseis, mas eu também não quero que as pessoas em Gaza sejam bombardeadas e massacradas por nenhuma razão. Eu percebi que existem os oprimidos e os opressores – não é por autodefesa”.

Durante o atual ataque à Gaza, as forças israelenses retornaram a essas comunidades próximas a Gaza e de lá lançarem seus ataques. Todavia, o medo dos “túneis do terror” e dos mísseis, fez com que muitos residentes locais fugissem, deixando verdadeiras cidades fantasmas em sua esteira.

Em uma mensagem gravada e transmitida em 29 de julho pelo canal televisivo al-Aqsa, o general das Brigadas Izzedin al-Qassam, Mohammad Daif, declarou que os combatentes em Gaza deveriam alvejar apenas os militares israelenses e evitar ataques à civis. Até agora, as Brigadas Qassam mataram 65 soldados de Israel, dois civis, um trabalhador tailandês e feriram uma coruja em um kibbutz


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