domingo, 20 set 2020
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Da política da merda à política de merda

Após ler a História da merda do historiador francês Dominique Laporte, é muito difícil não lembrar da política adotada pelo governo Bolsonaro.

Durante o século XVI, o governo francês promoveu uma verdadeira política da merda lançando um edital que obrigava todos a guardarem os seus excrementos em casa, embrulha-los e em seguida colocá-los na porta para um carro, destinado a recolher o lixo, levá-lo para longe da cidade.

Até então, as fezes eram jogadas pela janela, dando a cidade um fedor repugnante. As pessoas tinham uma relação com suas fezes extremamente adversa se pensarmos nos padrões atuais. Não havia banheiro nas casas. As latrinas foram retiradas dos castelos no início do século XVI, por simbolizar algo baixo, “as necessidades humilhantes do corpo humano”.[1]

Louvava-se a liberdade de defecar, como mostra Jean-Claude Bologne que transcreve o relato de uma eleitora de Hanover do século XVI: “Temos a liberdade de cagar em qualquer sítio quando nos der vontade, não temos que respeitar ninguém; o prazer que se tem de cagar excita tanto que, sem olhar ao lugar em que se está, cagamos nas ruas, cagamos nas alamedas, cagamos nas praças públicas, cagamos à porta do alheio sem ligar a que achem bem ou não”.[2] O processo de contração anal começou no século XVI e só se consolida no século XIX quando reina uma grande pudibundaria na Europa “com singular violência sobre a defecação”.[3]

A política da merda está relacionada à divisão do direito burguês entre o público e o privado, no qual o Estado passa a ser o representante da nação tornando-se algo puro. O dinheiro que emana do Estado que visa promover o bem comum é puro e limpo, já o dinheiro proveniente do comércio, do negócio privado relacionado à acumulação primitiva, é sujo. Tudo se trata de um “jogo da língua, que quer que o privado seja oposto ao público virginal”. A merda deveria pertencer portanto ao privado e não ao público. “A cada um a sua merda, clama uma nova ética do ego”.[4] O Estado passa a obrigar todo o proprietário a construir um espaço em sua propriedade para depositar sua merda. Destina “a merda aos lugares onde se tratam os negócios”, isto é, ao espaço privado, explica Laporte.

A política de merda do governo Bolsonaro promove a inversão deste processo. Os empresários, os responsáveis pela acumulação primitiva, têm sua merda socializada. Aqui ocorre a metaforização da merda, mas a sujeira continua. A corrupção do âmbito privado, criada para o enriquecimento individual, contamina o Estado de modo que os trabalhadores tem que arcar com a crise das empresas, perdendo diversos direitos e tendo o dinheiro do Estado, dinheiro limpo, contido por meio dos cortes de gastos.

Só há espaço para o dinheiro sujo, dinheiro proveniente do mesmo local da merda, do âmbito privado, da privada.

A política da merda distanciava o privado do público. A política de merda aproxima os dois. Naquela, o Estado, por meio de carroças, levava a merda para longe da cidade, nesta o governo quer privatizar até o escoamento da merda com o projeto de entregar às empresas privadas o tratamento do esgoto, o que pode acarretar no aumento da conta de água e esgoto (um dos motivos para muitos países reestatizarem o setor). Ou seja, a merda privada que adentra o espaço público não é apenas metafórica, mas também conotativa.

O povo acaba por ser vítima dos trâmites privados, da especulação financeira, dos negócios escusos que são tratados nas sombras, nos espaços individuais que visam a riqueza concentrada. O Estado, o público, passa a ser demonizado, sendo de onde emana toda a corrupção. O neoliberalismo, portanto, é de fato a teoria econômica de uma política de merda.

Os negócios individuais dominam o público da mesma forma que, antes da política da merda, os excrementos dominavam as ruas. O poeta já dizia que a “burguesia fede” e se ele ainda estivesse vivo não se espantaria pelo fato do cheiro ter piorado, mas por muitas pessoas ainda não terem se incomodado.


[1] BOLOGNE, J. C. História do pudor. Rio de Janeiro: Elfos, 1990, p. 180.

[2] Id. P. 181.

[3] Id., p. 193.

[4] LAPORTE, D. História de la mierda. Madrid: Pré-texto, 1990, p. 55.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.