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08 de fevereiro de 2012, 19h13

Esquerda em El Salvador: entre dólares e os colones, a antiga moeda nacional

Um comerciante grita num canto da rua: “a libra de uva custa 1 dólar”. O vendedor é ambulante. A moeda, estadunidense. Eis a realidade em El Salvador. O papel cunhado por autoridades dos Estados Unidos é o dinheiro vigente no menor país da América Central. No ano 2000, o partido do governo, Arena, com a desculpa de criar o bimonetarismo, quando circulariam dólares e colones (antiga moeda salvadorenha), gradualmente tirou do mercado o dinheiro nacional e proibiu o Banco Central de fabricá-lo.

Nem por isso El Salvador virou um país mais rico. A burguesia escolheu o caminho fácil: o de sócio menor dos capitais estadunidenses. Antes, a elite salvadorenha investia na produção agrícola e industrial. Mas a dolarização facilitou a vida deles. A dependência é menos arriscada e lucrativa: acenaram para a importação. O governo da Arena dedicou-se a importar insumos para a agricultura, cobrando elevados preços dos camponeses. Com facilidades, passaram a comprar os produtos no exterior, como milho e arroz estadunidense subsidiado, e vender no próprio solo. A produção camponesa foi destruída e a migração se acentuou.

A economia do país sustentou-se na superexploração das fábricas maquiladoras e na dependência das remessas dos migrantes que trabalham no EUA. As chamadas “maquilas”, uma das apostas da década de 1990, hoje têm como resultado demissões em massa. A conta corrente do país é pressionada pelas importações das maquiladoras e de alimentos: as “fábricas” importam tudo o que compram e exportam suas vendas.

Eleições
É a partir dessa linha histórica que o candidato de esquerda, da histórica Frente de Libertação Nacional Farabundo Martí (FMLN), tem reais possibilidades de vitória nas eleições do dia 15. O comunicador Maurício Funes apresenta um discurso de mudança segura, com a pauta de fábricas maquiladoras mais humanas e a manutenção dos Tratados de Livre Comércio (TLCs) entre a América Central e os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, em sua plataforma, declara-se defensor de maior intervenção estatal e da construção de um mercado interno centro-americano.

A vitória da Frente demarcaria um ciclo que coincide com a experiência da Frente Sandinista, na Nicarágua, e do Partido dos Trabalhadores, no Brasil: partidos combativos nos anos 1970 ou 1980, sínteses da classe trabalhadora, com amplo apoio das massas, que chegam ao governo quando a estratégia volta-se para a gestão do capital, em meio ao refluxo das lutas sociais. Em El Salvador, no contexto atual, há uma grande imobilidade dos movimentos sociais, o que se reflete na pouca movimentação nas ruas que aponta para além do período eleitoral.

A campanha de Funes esteve centrada em transmitir confiança a empresários e investidores estadunidenses. Antiga frente guerrilheira, a FMLN aposta na tática de derrotar a direita com um discurso semelhante, para diferenciar-se na prática. A partir da assinatura dos Acordos de Paz, em 1992, o Partido Comunista (uma das organizações históricas em El Salvador) divide-se. O campo que permanece dentro da FMLN consegue, em 2004, lançar o nome do militante histórico Jorge Shaffic Handal para a Presidência. Já neste ano, ao contrário, o nome de Funes, jornalista não orgânico à esquerda, revela uma hegemonia do núcleo conservador do partido.

Partido da ditadura
Rodrigo Avila, candidato da Arena, é um antigo comando do exército paramilitar da época da guerra civil, os conhecidos “esquadrões da morte”. Seu discurso conflui para a criminalização agressiva da esquerda. Desde o ano 2000, o país teve aprovada a lei “anti-terrorista”. Organizações como a Tendência Revolucionária (TR), ligada a movimentos sociais de luta contra barragens e mineradoras, defendem que a vitória da FMLN tem dois aspectos: o primeiro, derrotar o partido histórico da ditadura. O outro, ver a estratégia da Frente à prova.

São 70 anos de ditadura de um mesmo grupo político e exploração em El Salvador. Mas os estragos causados ao país aprofundaram-se na década de 1990. A renda média do trabalhador salvadorenho não alcança o preço da cesta básica. O salário em maquiladoras foi a 167,1 dólares em dezembro de 2008, 9,37% mais baixo do que a cesta básica do mesmo período, que esteve em 176,47 dólares.

Os dados da cesta básica ampliada (saúde, educação e água) fazem do discurso de progresso da Arena um texto de realismo fantástico. Neste ano, o preço está em 758,02 dólares.

Brasil de Fato


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