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08 de junho de 2016, 19h52

EUA: A eleição como sintoma do declínio

Crescimento de candidatos anti-establishment marca o fim de um período. Além de influência global, país perde coesão interna. E a “era de ouro” não voltará

Por Immanuel Wallerstein / Tradução de Inês Castilho, no Outras Palavras

Estamos acostumados a pensar em instabilidade de Estados localizados principalmente no Sul global. É sobre essas regiões que eruditos e políticos do Norte global falam de “Estados falidos” nos quais há “guerras civis”. A vida é muito insegura para os habitantes dessas regiões. Há deslocamentos massivos das populações e esforços para escapar dessas regiões para partes “mais seguras” do mundo. Nelas há, supostamente, mais empregos e padrões de vida mais altos.

Os Estados Unidos, em particular, têm sido vistos como o destino de migração de grande percentual da população mundial. Isso foi amplamente verdadeiro durante certo tempo. No período que se estendeu aproximadamente entre 1945 e 1970, os Estados Unidos eram o poder hegemônico do sistema-mundo. A vida era de fato melhor para seus habitantes, economica e socialmente.

E embora as fronteiras não estivessem exatamente abertas para os imigrantes, aqueles que conseguiam chegar de um modo ou de outro ficavam amplamente satisfeitos com o que consideravam sua boa sorte. E mais gente, nos países de origem dos imigrantes bem sucedidos, tentava seguir seus passos. Nesse período, havia muito pouca emigração dos Estados Unidos, a não ser em bases temporárias, para assumir empregos bem pagos em postos econômicos, políticos ou de mercenários militares.

Esta era de dominação dos EUA sobre o sistema-mundo começou a se desfazer por volta de 1970 e vem sendo desmantelada desde então, de forma crescente. Quais os sinais disso? Há muitos: alguns, dentro dos próprios Estados Unidos; outros, nas atitudes mutantes do resto do mundo em relação aos EUA.

Estamos agora vivendo uma campanha presidencial considerada por quase todo mundo como pouco usual e transformadora. Há um grande número de eleitores que foram mobilizados contra o “establishment”, muitos dos quais estão entrando no sistema eleitoral pela primeira vez. Nas primárias do Partido Republicano, Donald J. Trump buscou a indicação surfando precisamente a onda desse descontentamento — na verdade, insuflando-o. Ele parece ter tido sucesso, a despeito de todos os esforços dos que podem ser vistos como republicanos “tradicionais”.

No Partido Democrata, a história é semelhante mas não idêntica. Um senador antes obscuro, Bernie Sanders, foi capaz de pegar carona num descontentamento verbalizado numa retórica mais à esquerda e vem conduzindo uma campanha muito impressionante contra a candidatura de Hillary Clinton, antes supostamente inabalável. Embora não pareça que conseguirá a indicação, ele forçou Hillary (e o Partido Democrata) muito mais à esquerda do que parecia possível poucos meses atrás. E Sanders fez isso sem jamais ter concorrido a uma eleição antes como democrata.

Porém, pode-se pensar, tudo isso passará, assim que a eleição presidencial estiver decidida, e as visões políticas “normais” de centro prevaleçam novamente. Muitos preveem isso. Mas qual será, então, a reação daqueles que apoiaram muito ferozmente seus candidatos precisamente por que eles não defendendem políticas de centro “normais”? E se eles se desiludirem com seus líderes atuais?

Precisamos observar outras mudanças dos Estados Unidos. O New York Times publicou um longo artigo de primeira página, em 23 de maio, sobre violência armada, que o jornal denominou “interminável mas invisível”. O artigo não era sobre os ataques armados, muito bem documentados, que chamamos de massacres e consideramos chocantes. Investigava, ao contrário, tiroteios que a polícia tende a considerar “incidentes” e nunca vão parar nos jornais. Descreve um desses incidentes em detalhes, e o chama de “uma foto instantânea de uma fonte diferente de violência em massa – aquela que irrompe com regularidade anestésica, de tal forma que torna-se quase invisível, a não ser para as vítimas, negras em sua maioria, os sobreviventes e os agressores.” E os números estão crescendo.

À medida em que aumentam essas “intermináveis porém invisíveis” mortes por violência, a possibilidade de que elas se espalhem dos guetos negros para zonas não negras, nas quais muitos dos desiludidos estão localizados, não é muito exagerada. Afinal, os desiludidos estão certos sobre uma coisa. A vida nos Estados Unidos não é tão boa como foi. Trump usou como slogan “torne a América grande novamente”. O “novamente” refere-se à era de ouro. E Sanders também parece referir-se a uma era de ouro prévia, na qual os empregos não eram exportados para o Sul global. Até mesmo Hillary  parece agora olhar para alguma coisa perdida no passado.

E tudo isso não permite esquecer uma espécie de violência ainda mais feroz – aquela propagada por uma faixa ainda muito pequena de milícias anti-Estado, que se autodenominam Cidadãos pela Liberdade Constitucional (CCF, na sigla em inglês). Eles são aqueles que vêm desafiando o impedimento, pelo governo, de algumas áreas para criação de gado. Os integrantes do CCF dizem que o governo não tem direito e está agindo inconstitucionalmente.

O problema é que tanto o governo federal como os locais não estão certos do que fazer. Eles “negociam”, temendo que afirmar sua autoridade não seja um ato popular. Mas quando as negociações falham, o governo finalmente usa a força. Essa versão mais extrema de ação pode logo espalhar-se. Não é uma questão de mover-se para a direita, mas de mover-se em direção a protestos mais violentos, a uma guerra civil.

Há décadas, os Estados Unidos estão perdendo sua autoridade diante do resto do mundo. Eles não são mais hegemônicos. Aqueles que protestam, e seus candidatos, percebem isso, mas consideram que é um processo reversível. Não é verdade. Os Estados Unidos são agora considerados um parceiro global fraco e inseguro.

Essa não é a visão apenas dos Estados que se opõem fortemente, desde o passado, às políticas norte-americanas, tais como Rússia, China e Irã. Isso é agora verdade para aliados presumivelmente próximos, tais como Israel, Arábia Saudita, Grã Bretanha e Canadá. Numa escala mundial, o sentimento sobre a “confiabilidade” dos EUA na arena geopolítica mudou de próximo de 100%, na “era de ouro”, para alguma coisa muito, muitíssimo inferior. E a queda acentua-se a cada dia.

À medida em que se torna menos “seguro” viver nos Estados Unidos, há um aumento constante na emigração. Não que outras partes do mundo sejam seguras – são apenas mais seguras. Não que o padrão de vida em outros lugares seja tão alto, mas tornou-se agora mais alto em várias partes do Norte global.

Claro que nem todo mundo pode emigrar. Há problemas de custo e de acessibilidade a outros países. O primeiro grupo que pode engrossar a emigração são os mais privilegiados. Mas, quando isso for percebido, as raivas dos “desiludidos”, mais classe média, irão crescer. E crescendo, sua reação pode tornar-se mais violenta. Esse rumo mais violento irá retroalimentar-se, intensificando as raivas.

Nada poderá alterar as atitudes quanto à transformação dos Estados Unidos? Se os norte-americanos abandonassem a ideia de “tornar a América grande outra vez”, e começassem a tentar fazer do mundo um lugar melhor para, poderiam ser parte do movimento por “um outro mundo”. Mudar o mundo inteiro transformaria verdadeiramente os próprios Estados Unidos. Mas para isso seria preciso parar de desejar a volta à “era de ouro” — que, aliás, não era tão dourada para a maior parte do mundo.


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