questaodegenero

16 de junho de 2015, 11h31

No futebol, mulher só serve como musa

Na última segunda (15), a fala do coordenador de futebol feminino da CBF, Marco Aurélio Cunha, repercutiu nas redes por ser considerada machista. O dirigente afirmou que agora as “meninas” do futebol feminino brasileiro se vestem com shorts curtos, usam maquiagem e arrumam o cabelo. Segundo Cunha, antes as mulheres queriam copiar o futebol masculino, mas agora vão a campo de maneira elegante.

Mas o que seria, afinal “ir a campo de maneira elegante”? Será que em algum momento a CBF fez comentários similares a respeito dos jogadores homens? Pois certamente não parecem se importar se os homens vão jogar com o cabelo ajeitado, com a pele impecável ou com uniformes que valorizem seus corpos. Aliás, com os homens acontece justamente o contrário: quando entram em campo, o fato de serem vaidosos acaba sendo motivo de deboche. Muitos são alvos de comentários homofóbicos e, para o público, a vaidade pode ser até sinal de que as habilidades do jogador não são tão boas assim.

Mas quando as jogadoras são mulheres, de repente passa a fazer sentido que se use maquiagem e se “faça o cabelo”, mesmo que o futebol seja um esporte que exige muito preparo físico, desempenhado com corridas e quedas no chão. Aparentemente, as jogadoras não podem suar, não podem desarrumar o cabelo e ainda precisam ter atenção para que seus shorts curtos não percam, jamais, o apelo ao público. Para a CBF, a maior função de uma mulher no mundo é ser admirada e considerada bela.

Essa cultura das Musas é repugnante. Mesmo quando uma mulher é excelente na modalidade de esporte que pratica, os comentários são primeiramente direcionados a sua aparência física. São criadas sessões nos sites de notícias para exibir as “musas” do futebol, do vôlei, do atletismo e da torcida. No mundo dos esportes, a mulher não joga, não torce e não apita; aquelas que ousam adentrar esse universo, considerado tão masculino, são ignoradas pela mídia e pelos patrocinadores, tratadas como crianças que brincam com a bolinha na quadra da escola, sem o mínimo valor e seriedade. E além de toda a desvalorização social, ainda precisam lidar com a objetificação sexual e os comentários hostis lesbofóbicos e racistas, especialmente direcionado às mulheres que jogam.

Pouco importa se a seleção feminina é excelente ou se a jogadora Marta todos os anos ganha prêmios; nada que as mulheres do futebol façam é digno da atenção da mídia e da torcida brasileira. Em nosso país, apenas a seleção masculina é uma legítima seleção brasileira, como se somente os homens fossem aptos ao esporte. Tudo isso é fruto de uma cultura machista, misógina, que cultiva o ódio contra as mulheres e prega a superioridade dos homens.

A Copa do Mundo de 2015 está sendo disputada pela seleção feminina no Canadá. Classificadas para as oitavas de final, as jogadoras da seleção brasileira estão dando um show de habilidade e garra – e não somente porque sabem jogar, mas também porque saem vitoriosas mesmo precisando enfrentar o machismo, as dificuldades financeiras, o racismo, a lesbofobia e todos os outros obstáculos que exercem uma pressão absurda sobre elas.

A vergonha e a perda, no final das contas, são da torcida brasileira e da CBF – ambas envenenadas por seus preconceitos.

 

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Foto de capa: Reprodução / Facebook


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