Homofobia mata, inclusive quem não é LGBT

O suicídio do filho adolescente da cantora Walkyria Santos nos lembra que a propagada “nova masculinidade” não vai além do slogan

O filho da cantora Walkyria Santos, Lucas, que tinha apenas 16 anos, cometeu suicídio após se tornar vítima de comentários homofóbicos. A motivação do ódio? Um vídeo onde ele e um amigo simulam um beijo.

Após a onda de comentários odiosos, o adolescente ainda gravou um vídeo explicando que não era gay e que tudo não passava de uma brincadeira. Não houve conserto e o ódio prosseguiu, até que ele não aguentou a pressão e se matou.

De acordo com a mãe de Lucas, ele já apresentava “problemas psicológicos”, que ela vinha conversando muito com ele, mas tudo foi interrompido por conta de um singelo vídeo onde dois garotos trocam afetos.

A tragédia em torno de Lucas revela, ainda que dá pior maneira possível, que o discurso de ódio mata pessoas que são e também aquelas que não são LGBT.

O discurso de ódio opera a partir de estereótipos sobre determinados grupos sociais. No caso das pessoas LGBT, ele tem a sua principal estruturação no binarismo de gênero (Masculino x Feminino) que, a partir de uma ordem fantasiosa, porém, vigilante e normativa, impõe uma série de “regras” que os corpos são “obrigados” a viver.

A essa estrutura se dá o nome de Heteronormativadade, conjunto de normas que têm como prisma principal a heterossexualidade compulsória, a reprodução e a família nuclear.

Dentro deste conjunto de regras heteronormativos estão os papeis de gênero, que resulta na ideologia nociva que visa estabelecer o que é um homem e uma mulher “de verdade”.


Os garotos e as masculinidades


Quando dois adolescentes do gênero masculino compartilham um vídeo onde, sorridentes, trocam carinhos e simulam um beijo estão rompendo com as normas de gênero e a resposta é sempre violenta.

Mas a questão vai além: está em jogo a masculinidade normativa: Homens não choram, homens vestem azul, homens são os provedores, homens não podem amar uns aos outros.

Há sempre uma fronteira imposta entre as relações masculinas: até que ponto posso demonstrar afetos para o meu amigo? Por que toda relação masculina que não seja calcada na disputa reverbera em uma homossexualidade imaginária na mente de quem observa?

Notem que, antes de dar cabo à sua vida, Lucas gravou um vídeo explicando que não era gay. Prestou contas à sociedade diante do ódio recebido.

O fato é que ele era jovem demais para ter certezas. A sexualidade não é um fato monolítico, ou seja, passamos por transformações ao longo da vida e isso deveria ser algo a ser vivenciado sem dramas, mas, a norma vigilante sobre os corpos não permite que haja dúvidas ou experiências aleatórias fora da heterossexualidade.

“Novas masculinidades”

Nos últimos anos temos acompanhados acalorados debates sobre a existência de “novas masculinidades”, porém, o caso Lucas nos mostra que estamos muito longe de uma vivência masculina saudável e liberta.

Se há, de fato, a construção de “novas masculinidades”, por que o vídeo de um adolescente trocando um selinho com outro garoto gerou tanto ódio?

Outra questão: se há, de fato, o surgimento de uma outra masculinidade possível, por que tantas mulheres morrem diariamente pelas mãos de seus companheiros?

E porque, homens que “aparentam” serem LGBT são vítimas de campanhas de ódio?

A resposta – são várias na verdade – é que estamos muito longe de qualquer vivência sexual livre das violências impostas pelo binarismo de gênero.

Apesar do avanço nas produções culturais, de mandatos feministas e LGBT nos legislativos do Brasil, não conseguimos romper com a ordem normativas dos corpos e tudo piorou muito com a ascensão da extrema direita no Brasil.

Não esqueçamos que, ao tomar posse, a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, proclamou que se iniciava uma “nova era, onde meninos vestem azul e meninas vestem rosa”.

Violência e tecnologias de gênero

A violência produzida pelas tecnologias de gênero que vitimou Lucas e faz do Brasil um dos piores países para se ser LGBT. E pior: é também o país que, se você “aparentar” não ser heterossexual pode ser morto.

Essa é a história de Lucas e de tantos outros garotos que ainda são submetidos a um tipo de educação que enxerga o corpo masculino como uma máquina de guerra e de dominação, logo, produtora de violência.

Para que a história de Lucas não se repita, é preciso uma transformação constante de todas as estruturas brasileiras que para que deixemos para trás o discurso de ódio que reverbera em atos e atravessa toda a sociedade.

É preciso educar, desde a infância, para uma vida fora do binarismo de gênero, mas também é preciso interromper a eleição de presidentes e parlamentares que usam dinheiro público espalhar ódio em todo o território brasileiro.

Do contrário, só ficaremos no slogan e contando corpos.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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