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22 de abril de 2017, 12h22

Ivana Bentes: Os heróis chegam à glória só depois de degolados

Aula de História. "Os heróis chegam à glória só depois de degolados..." Cada época tem a Lava Jato que merece e e os "heróis possíveis" e sempre controversos!

Por Ivana Bentes*

Aula de História. “Os heróis chegam à glória só depois de degolados…” Cada época tem a Lava Jato que merece e os “heróis possíveis” e sempre controversos! Por coincidência neste feriado revi “Os Inconfidentes”, filme perturbador de Joaquim Pedro de Andrade, realizado no auge da ditadura militar, em 1972, com José Wilker, e no momento que as delações, a tortura e o exílio tornam-se praxe no regime militar. E está em cartaz o filme Joaquim, de Marcelo Gomes, que ainda não vi.

O filme de Joaquim Pedro de 72 é uma livre e inspirada leitura dos Romanceiros da Inconfidência de Cecília Meireles e nos “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, que há 225 anos condenaram Tiradentes, enforcado publicamente na que é hoje uma praça do centro do Rio, depois esquartejado, a cabeça decepada enviada para Minas Gerais, exposta pelo trajeto percorrido por Tiradentes e ao final exposta em um poste em frente a sede do governo em Vila Rica/Ouro Preto.

Mas o que seria um espetáculo de intimidação e uma demonstração de força da coroa portuguesa acabou contribuindo para a indignação popular e para a posterior transformação de Tiradentes, já na República, em herói nacional, tornando em positivo o que era “crime de lesa-majestade”, insurreição contra os impostos da coroa portuguesa, etc.

A nova historiografia sublinha que para além do apelo popular, os impostos extorsivos sobre o ouro das minas, a Inconfidência foi uma revolta da elite de Minas Gerais (proprietários rurais, intelectuais, igreja e militares) descontentes com o domínio da coroa portuguesa e com a ameaça de fim dos seus cargos e privilégios.

Em 1972, Joaquim Pedro põe na boca dos inconfidentes os horrores e dramas dos presos políticos que, sonhando em escapar da tortura, passavam a delação ou exílio:

“Fechar a janela, os escaninhos dos móveis, escrever cartas anônimas, apontar os amigos, queimar papéis, enterrar o ouro sonegado, fugir pra longe com falso nome.”

Os conjurados do século XVIII atualizam e expõem a fala e corpo lacerado das vítimas e cúmplices do regime militar. Joaquim Pedro faz uma arqueologia do terror, analisa cada reação dos poetas encarcerados: covardia, vileza, delírio, cinismo, resignação.

O filme, num tour de force admirável para a época, faz a crítica da ditadura e de suas vítimas. Mergulha numa auto-análise quase punitiva dos intelectuais dobrados pela tortura. Paulo César Pereio, debochado, na pele do poeta Alvarenga Peixoto transita nesse limite entre a lucidez e o pusilânime.

No diálogo com a esposa justifica a decisão de delatar os amigos:

– Que o remorso me persiga ou devo preferir a brasa, a roda, o repuxão dos cavalos? Eu sei como se castiga. Direi o quanto me ordenarem, o que sei e o que não sei. Depois, peço perdão, esqueço.

– E a tua glória será morrer escondido, podre de pavor e remorso, afundado neste mar de pavorosa inexistência.

– Os heróis chegam à glória só depois de degolados…

*Professora e pesquisadora da Escola de Comunicação da UFRJ. Ex-secretária de Cidadania e Diversidade Cultural, no Ministério da Cultura. 


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