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11 de Maio de 2016, 14h05

Kika Castro: Torço apenas para que não haja retrocesso no Brasil

Impeachment é traumático. E não espero boas coisas de um governo de um sujeito como Michel Temer, com os aliados que ele tem

Por Kika Castro, em seu blog

É difícil arriscar qualquer cenário nesses dias de noticiário político surtado, mas o mais provável é que, nas próximas horas, Dilma Rousseff, reeleita por 54,5 milhões de brasileiros, seja afastada por seis meses de seu cargo e dê lugar ao presidente ~interino~ Michel Temer. No momento em que escrevo este post, o governo entrou com mandado de segurança no STF — sua última cartada, após manobras fracassadas no Congresso e vários protestos nas ruas. Mas acho improvável que o Supremo interfira no processo do Legislativo.

Enfim, mesmo que interfira, agora ou no futuro, ou ocorra um milagre e o Senado não aprove a continuidade do processo de impeachment, vamos ser realistas: o segundo mandato de Dilma, que nem pôde começar, porque não deixaram ela governar até hoje, já acabou. Se esse processo de impeachment não passar, qualquer que seja a razão, entrarão com outros. E assim farão até que Dilma caia ou renuncie. É isso: vitória da oposição na base do tapetão.

O Brasil vive e viverá ainda dias muito tensos, tanto política quanto economicamente quanto nas relações entre as pessoas, dada a polarização e o fanatismo em que se encontra a sociedade. Impeachment é traumático. E não espero boas coisas de um governo de um sujeito como Michel Temer, com os aliados que ele tem. Mas também: lá estava ele no governo Dilma, num dos cargos mais importantes da República. Então, paciência.

A esta altura não sei mais o que comentar sobre o impeachment, ou o golpe. Ou sobre o pior Congresso que este país já elegeu e agora conhece de perto. O que pude falar a respeito saiu aqui no blog no dia 15 de abril e em outros dias. De lá pra cá, a Câmara aprovou a continuidade do processo com um placar razoável para os pró-impeachment, o orquestrador do processo de impeachment, Eduardo Cunha, foi afastado (o STF esperou tudo chegar bonitinho ao Senado para fazer isso, repararam?), a Comissão de Impeachment do Senado aprovou de novo a continuidade do processo com um placar de 15 a 5, e o presidente ~interino~ da Câmara, Waldir Maranhão, fez uma pataquada ainda muito mal explicada, anulando o processo e revogando a anulação poucas horas depois. Uma novela de ficção, daquelas que, se passasse no cinema, ia ser chamada de inverossímil e absurda, digna no máximo de entrar na categoria dos pastelões.

Não adianta esse grito de “não passarão” a esta altura ou espalhar hashtag de #nãovaitergolpe. Mesmo que o governo prometa entrar com um processo judicial atrás do outro, apelar a cortes internacionais etc. Bom, pelo menos é o que eu acho. Acabou. E, se eu fosse a presidente Dilma, tiraria uns dias de férias e descansaria a cabeça dos ataques infames que ela vem sofrendo em alguma praia agradável, com seu netinho, de preferência fora do Brasil. (Se eu fosse mesmo a presidente Dilma, teria aproveitado os últimos dias no cargo para canetar várias coisas urgentes no Brasil, que ela não levou adiante por medo, como taxar as grandes fortunas — um tema que meu pai aborda bastante aqui no blog).

Como não sou a presidente Dilma, resta-me apenas uma coisa: torcer para que a nova onda de governos conservadores que deve chegar ao Brasil nos próximos anos (talvez décadas, e me parece ser um ciclo mundial) não avacalhe demais as conquistas sociais e trabalhistas já garantidas, com muito custo, até agora. Que não haja retrocesso. E que consigam provar que podem fazer algo de bom pelo meu país. Porque, a esta altura, é só isso que me importa: muito além de questões partidárias ou mesmo de escopo ideológico, o que me interessa — e vou torcer por isso — é que o Brasil não saia dessa crise piorado. Faz favor.


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