O que o brasileiro pensa?
16 de março de 2014, 11h21

Maidan e a revolução ucraniana

A esquerda não deve repetir a propaganda de Putin que diz que os fascistas ocuparam Maidan, defende Vasyl Cherepanin, dirigente do centro de investigação “Cultura Visual” de Kiev. “Eu sei que para alguns, à esquerda, é impossível participar num movimento se a extrema-direita estiver igualmente presente. Mas a realidade não é tão pura quanto a teoria política”

Entrevista realizada por Nicola Bullard e Christophe Aguiton, publicada em Esquerda.net e originalmente em Europe Solidaire Sans Frontières. Foto Ivan Bandura

Para começar, o que fazia durante o movimento Maidan?

O centro de investigação Cultura Visual participou no Maidan desde dezembro de 2013. Ajudamos a organizar um programa de educação no âmbito da universidade aberta de Maidan para as pessoas acampadas na praça, chamado “Protestos globais”, que tentou situar a insurreição ucraniana num contexto mais alargado, o das insurreições da Primavera árabe, do movimento Occupy e Indignados e dos diversos movimentos sociais que o mundo conheceu em 2013. Participamos também na rede de proteção aos militantes feridos que foram hospitalizados e corriam o risco de ser levados pela polícia.

Os grupos de esquerda e os ativistas participaram em inúmeras atividades, particularmente no “SOS Maidan” uma espécie de meio de comunicação alternativo e apoio jurídico para o movimento Maidan.

Muitos dos comentários insistiam no peso dos fascistas e dos neo-nazis na Praça Maiden e na insurreição que pôs fim ao poder de Viktor Ianukovitch, o que pensas disso?

Penso que há, no ocidente, uma cegueira sobre o que é a realidade do movimento na Ucrânia. Claro que a extrema-direita participava da mobilização, mas era uma verdadeira revolução e numa verdadeira revolução todas as forças de oposição estavam presentes. Toda a gente lá estava, salvo é claro, os oligarcas e a pequena elite dos super ricos.

Para contextualizar o papel da extrema-direita, é importante lembrar a sequência dos acontecimentos. O chamado “Euro-Maidan”começou a 24 de novembro de 2013. O pretexto para a mobilização foi a recusa do presidente da república em assinar o acordo comercial com a União Europeia, e nos primeiros dias o movimento foi formado por jornalistas e estudantes, assim como pela extrema-direita que se juntou a eles num espírito de parasitismo. O partido neonazi Svoboda foi o primeiro partido parlamentar a aderir ao movimento, o que lhe deu uma certa visibilidade. Depois, a 29 de novembro, houve a intervenção das forças da ordem na praça. Isso alargou o movimento e a partir daí todos os setores sociais e todas as forces políticas de oposição lá estiveram. A partir desse momento, a EuroMaidantransformou-se em Maidan e quanto mais o movimento crescia mais o papel e a influência da extrema-direita diminuía.

Eu sei que para alguns, à esquerda, é impossível participar num movimento se a extrema-direita estiver igualmente presente. Mas a realidade não é tão pura quanto a teoria política e, na minha opinião, o papel da esquerda é o de se comprometer e participar no movimento. Um último detalhe a propósito da extrema-direita: há hoje uma luta entre o partido Svoboda e o “Setor de Direita”, um novo grupo político formado por organizações nacionalistas e uma parte dos hoolligans do mundo do futebol.

O aspecto mais importante é que o motor do Maidan foi o povo e não os partidos ou as organizações políticas: gente comum que veio até à praça e que aí se manteve até à vitória. Alguns pagaram com a própria vida.

Uma outra crítica vinda de certas organizações de esquerda na Europa foi a interdição do Partido Comunista na Ucrânia?

O Partido Comunista não foi proibido. Houve uma iniciativa para interditar ao mesmo tempo o Partido das Regiões, o partido de Viktor Ianukovich, e o Partido Comunista, quando votaram juntos, a 16 de janeiro deste ano, a lei que proibia as manifestações e pretendia controlar as ONGs e os meios de comunicação independentes. Mas deve saber que o Partido Comunista só é comunista de nome: o seu único programa é a nostalgia do estado providência do tempo da União Soviética, não há mais nada de comunista para além disso.

E qual foi o papel dos sindicatos?

A federação sindical oficial estava ao lado das autoridades, mas a federação sindical independente estava com o movimento. A direção da federação sindical estava no conselho de Maidan. Houve um apelo à greve geral, mas ela não se realizou: as fábricas e as indústrias estão na mão dos oligarcas, e eles conseguiram fazer fracassar todas as tentativas de organização de greves. Houve, no entanto, algumas no oeste e no centro da Ucrânia, principalmente no setor dos serviços. Penso que se tivéssemos conseguido organizar uma greve geral, o movimento de massas teria sido ainda maior e menos violento.

A situação na Ucrânia tem sido analisada como a divisão do país em dois, os pró-europeus e os pró-russos. Neste contexto, as propostas de transformar o país em federação e a recente decisão do parlamento de não reconhecer o russo como língua oficial deram a impressão de um país profundamente dividido…

A decisão tomada pelo parlamento de tornar o russo uma língua oficial era de fato inconstitucional, dizendo a constituição explicitamente, como diz, que a língua oficial é o ucraniano. No entanto, mesmo que a decisão de 2012 fosse inconstitucional, penso que a recente decisão do parlamento foi um erro, e o parlamento já está, aliás, pensando em voltar atrás em relação a esta questão. Mas é importante recordar que mais de 50% dos participantes de Maidan são falantes de russo.

Dito de uma maneira geral, o discurso sobre as “duas Ucrânias”esteve em voga nos anos 1990, logo depois da independência, quando os intelectuais teorizavam sobre a divisão histórica da Ucrânia, o Oeste no império austro-húngaro e o Leste no império russo. No entanto, desde os anos 2000, esta ideia não passou no teste da realidade: a Ucrânia manteve-se unida e Maidan provou-o.

Maidan aconteceu por todo o país, não apenas em Kiev, também em Odessa, Kharkov, Donest e mesmo em Sebastopol, na Crimeia. Em janeiro tivemos atos de ocupação de edifícios públicos administrativos em toda a Ucrânia. A leste, onde o partido de Ianukovich, o Partido das Regiões, controla todas as instituições estatais, a repressão foi feroz: os militantes foram atacados pelas forças especiais e houve raptos, tortura e tiroteio.

Penso que o regime avançou com a ideia da federação quando perdeu o controle da situação: isso foi uma tentativa desesperada de conservar o poder. A realidade é que o povo ucraniano está mais preocupado com as questões sociais e econômicas do que com os mitos culturais que foram instrumento de propaganda contra a nossa união.

E como vês a situação na Crimeia?

A história da Crimeia é específica. A Crimeia tem um estatuto de república autônoma na Ucrânia e tem um imenso valor estratégico para a Rússia. Durante anos, a Rússia financiou organizações pró-russas, algumas que se autoproclamam de extrema-esquerda e utilizam, na sua propaganda, um discurso radical.

Mas basicamente, a ocupação militar da Crimeia é um ataque invasor: uma contra-revolução contra o movimento. O que aconteceu na Ucrânia é o pior dos pesadelos para Putin: tem necessidade de recorrer a todos os meios –da propaganda à intervenção armada – para desacreditar a alternativa política na Ucrânia, incluindo a alternativa de esquerda (e por extensão desacreditá-la também dentro da própria Rússia). Mas a realidade é que a situação na Ucrânia está atualmente fora do controle da Rússia.

O que é que a esquerda, na Europa e noutros pontos do país, deveria fazer agora?

Como sempre, a União Europeia e o Ocidente reagiram demasiado tarde. Tinha havido necessidade de aplicação de sanções em dezembro, mas mais vale tarde do que nunca. E a esquerda foi igualmente lenta a reagir. Esperávamos manifestações internacionais de apoio a Maidan, para pressionar a União Europeia e os Estados Unidos a agirem de foram mais determinada, mas isso não aconteceu. Não houve solidariedade internacional.

Mas o que podemos ver é que Maidan inquietou também a União Europeia. Maidan era a favor duma Europa alternativa e encontramos a via para nos batermos pelos nossos direitos de forma radical e democrática. Talvez também seja por isso que a União Europeia foi tão lenta a reagir. A esquerda tem de estar melhor informada e mais ativa. A esquerda não deve repetir a propaganda de Putin que diz que os fascistas ocupam Maidan. A esquerda deve prestar mais atenção ao contexto e compreender que Maidan foi um verdadeiro movimento social e que a Ucrânia fez uma verdadeira revolução.

E o que se passa com esquerda na Ucrânia?

Há hoje um novo espaço político onde a esquerda pode ser mais visível e mais influente.

Antes, a vida política estava monopolizada pelos neonazis e pelos oligarcas. Isso mudou, em parte.

Agora a força ativa é o povo ucraniano. Maidan foi a prova de que as massas foram o verdadeiro motor do progresso e da revolução. A esquerda não pode continuar como era: elitista e sectária. Devemos doravante ser mais inclusivos e trabalhar com as massas alargadas. Temos de abrir as nossas perspetivas, adequando-as à realidade, e nos envolvermos em todas as questões sociais possíveis. Mais do que o conteúdo, a forma da nossa atividade é verdadeiramente importante.

Devemos, é claro, construir novas plataformas como centros sociais, e institucionalizar algumas iniciativas saídas de Maidan. Mas, mais do que tudo, a esquerda deve sair à rua e escutar o povo. Qualquer derrota da esquerda será uma vitória para a extrema-direita. Devemos escutar o que quer o povo e não apenas prestar atenção aos ídolos do passado. A ausência de prática política pode criar alucinações teóricas…

Vasyl Cherepanin dirige o centro de investigação “Cultura Visual” de Kiev e é editor da versão ucraniana da revista Krytika politiczna(Críticas Políticas). Foi um dos organizadores da conferência promovida pelo “Post Globalization” em Kiev em junho de 2013 como preparação do contra-G20 de São Petersburgo e participou em 2 de março de 2014 nos debates com os militantes “Indignados” de Madri.


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