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24 de outubro de 2014, 12h17

Mauro Werkema: porque voto em Dilma

Um dos jornalistas mais importantes de Minas Gerais tornou público seu voto em Dilma Rouseff. Com a visão de duas candidaturas e dois diferentes modelos políticos vão às urnas

Por Mauro Werkema*

As eleições deste ano deixam para os analistas políticos muitas questões para o debate sobre a evolução da sociedade brasileira, suas questões e desafios e a interpretação das diferentes  opiniões sobre o processo histórico, econômico e social brasileiro.  A lição principal, que o debate eleitoral expressou, é a  divisão bastante nítida  entre dois modos ou modelos de pensamento e que parecem separar, ainda mais, o que pensam as classes mais abastadas  e os mais pobres. A diferenciação fica clara na campanha, nas propostas de candidatos e nas manifestações do eleitorado quanto à defesa ou crítica dos seus escolhidos. Nas mídias sociais, nas discussões, nas peças de campanha, nos programas,  estão nítidos estes dois modelos mentais ou de crenças, às vezes de maneira mais estruturadas em discursos ideológicos ou em simples avaliações pessoais decorrentes da vida de cada um, sua vinculação tribal/classista ou  suas aspirações mais próximas. Estes dois modelos  radicalizaram a campanha e demonstraram, ao final, que definem as escolhas políticas pelo modo  de avaliar a economia, as instituições, as políticas de governo e, ao final, partidos e  candidatos. De resto, trata-se inequivocamente de evolução política na medida em que o eleitorado discute, se informa, avança na consciência política e  posiciona-se,  deixando de ser mera massa inconsciente e alienada das questões nacionais.

É fundamental compreender bem as diferenças: de um lado, Dilma Rousseff situa o seu modelo político na inclusão social, nas políticas públicas mais direcionadas às camadas mais pobres da população, com programas de redução das desigualdades pessoais e regionais de renda, com a adoção de programas como Minha Casa Minha Vida, Farmácia Popular,  Bolsa Família, Pronatec, Prouni,  cotas para negros nas universidades públicas e o Enem  um vestibular mais justo para os que estudaram nas escolas públicas. Todas medidas  de nítido cunho inclusivo e distributivista. Com estas políticas, entre outras, desde o Governo Lula, criador do Fome Zero,  cerca de 40 milhões de brasileiros melhoraram suas condições de vida, com mais acesso aos bens de  consumo, à educação, à casa própria. Compraram automóveis, eletrodomésticos. E o desemprego se manteve em torno de 6%, índice comparável ao “pleno emprego” pela teoria econômica. Dilma promete continuar nesta linha, que podemos chamar de “esquerda”, ou progressista, ao contrário das posições mais conservadoras ou de direita, classificações históricas. É neste caminho que o País tem obtido a redução das desigualdades e a redução da pobreza.

A outra posição parece seguir o modelo chamado neoliberal,  conservador,  prega o estado-mínimo, com rigoroso controle dos gastos públicos,  redução das taxas de inflação do Banco Central livre,  de controle do déficit público, do livre comércio,  a redução do Estado através das privatizações, posições mais próximas do receituário do Fundo Monetário Internacional, de que o Brasil já ficou livre após anos de dependência. Enfatiza o crescimento econômico, promete também proteger o  emprego e a distribuição de renda mas com limites de  um equilíbrio macro-econômico, que não prioriza o distributivismo. Este modelo critica o papel dos bancos públicos brasileiros, especialmente o BNDES e a Caixa, que se tornaram agentes financeiros e gestores de programas sociais, sem perder sua sustentabilidade financeira.  Esta visão do processo econômico pode levar o País a um crescimento mais veloz, do tipo “milagre econômico” adotado pelo regime militar mas reduz, conforme históricas análises, a distribuição de renda ou o processo de inclusão social. Ocorre que nos últimos anos, a sociedade brasileira, com a inclusão e a melhoria de vida de amplas camadas, ampliou a crença de que o governo tem responsabilidades sociais maiores para com os menos favorecidos e tem a obrigação de promover o bem estar social de todos, mas especialmente dos mais pobres, que precisam de proteção social. Apoiam, portanto, o modelo distributivista e inclusivo.  Esta é uma aspiração que domina hoje amplamente o discurso da classe média e os mais pobres, ambos com aspirações de melhoria de vida. Mas a discordância existe. Hoje, a população não aceita políticas que recuem a inclusão social, vista como a principal questão a ser enfrentada.

Encontramos na História  Econômica, de forma bem clara,  os dois modos ou modelos diferentes  de pensar a Economia Política:  Adam Smith (1722/1790, escocês), pai do capitalismo e do liberalismo econômico,  no seu clássico “A Riqueza das Nações”, no final do Século XVIII,  pregava a economia de livre mercado, em que a lei natural da “oferta e da procura”, como uma “mão invisível” capaz de mover a economia, iria promover  a justiça social ou a sociedade mais igualitária. Mas a realidade mostrou que é preciso ter a “mão visível” da Responsabilidade Social, com programas e ações objetivas de redução dos desníveis regionais e pessoais de renda.  Já John Maynard Keynes (1883/1946),  no seu “Teoria Geral do Emprego”,  com a defesa do  “Pleno Emprego”, e que ajudou os Estados Unidos a superar a crise de 1929, oferece outro modo de pensar. Afirma ele que o emprego, gerando salário e renda, é que fortalece o poder aquisitivo da  massa consumidora e fortalece a economia,  aumenta a demanda no consumo e estimula a produção industrial.  A formação de poupança, essencial ao investimento, tem outros caminhos. Este é o modelo inclusivo. Estas duas visões, ou ideologias, são antagônicas. Numa sociedade mais avançada podem ser convergentes mas, no Brasil atual, o modelo inclusivo é mais justo, mais necessário, mais urgente. É claro que hoje eles já não cabem na classificação de direita ou esquerda e se sofisticaram na Teoria Econômica Contemporânea e na nova realidade mundial.

Mas a questão básica continua a mesma: um pensamento contempla o mercado, onde os mais capazes, porque tiveram  acesso à melhor educação,  com melhor posição econômica, dispondo de  mais recursos e meio social com mais alternativas, vão se sair melhor e, de outro, o chamado “Estado do bem estar social”, em que o poder público ainda deve ser o provedor de emprego, saúde, educação, habitação, através de políticas sociais distributivas ou compensatórias.  Hoje, este modelo já não contempla o Estado total mas apenas como provedor de serviços públicos essenciais ou estratégicos.  O primeiro modelo prega que a distribuição de renda só pode ocorrer após o fortalecimento do “bolo econômico”, pelo capital acumulado,  com a redução das despesas  públicas e menos impostos para beneficiar o capital. E,  o outro, acha que o pleno emprego é que cria poupança, salários e renda,  promove a inclusão pela melhoria do poder aquisitivo dos mais pobres e realiza  a  justiça social. O primeiro é o modelo neoliberal, aplicado por Margareth Thatcher na Inglaterra e Ronald Reagan nos Estados Unidos, na década de 80, ambos exemplos extremos do conservadorismo e que não deu certo. Hoje é rejeitado em todo o mundo.  Estes dois modelos ajudam a explicar as duas candidaturas à Presidência do Brasil e  a divisão do eleitorado entre os candidatos Dilma e Aécio.

Os partidos políticos brasileiros terão que ser refundados. Estão defasados na doutrina e na prática política e partidária. Não refletem as aspirações nacionais, que as urnas vão expressar.  Temos hoje 37 partidos registrados no TSE. Em sua totalidade, meros agrupamentos de interesses e negócios, ou de aluguel,  sem base ideológica ou doutrinária. Governo e partidos terão que avançar muito em propostas que possam promover   a igualdade econômica e social, o desenvolvimento econômico, o combate à inflação, a oferta igualitária de saúde, educação e segurança pública,  a expansão da infra-estrutura econômica, um maior equilíbrio da carga tributária e, sobretudo, e de maneira radical,  a  restauração da ética e da moralidade na vida pública. A campanha deixou clara as diferenças entre os candidatos e a absoluta necessidade da realização de reformas na vida política. Os  debates foram intensos, sobretudo nas mídias eletrônicas. A Internet  superou a mídia, sobretudo a  conservadora, que se transformou em partido político, incrível  difusor de notícias de interesse, entre fantasiosas e adulteradas, de maneira nunca vista no Brasil. Esta imprensa também tem que repensar seu papel e sua missão para recuperar alguma credibilidade. Precisa reencontrar-se com as aspirações nacionais e propugnar pela evolução política e econômica do Brasil. Não sou petista e faço severas críticas a este partido, como aos outros. Faço também  críticas à gestão de Dilma Rousseff. Mas vejo nela atributos pessoais, além da orientação política e programática, por sua vida pessoal, austera e corajosa e combativa,  muito superiores ao adversário que, nós mineiros, bem conhecemos. Dilma adquiriu expressão política própria e poderá, esperamos, ampliar a evolução brasileira.

* Mauro Werkema é jornalista e historiador

 


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