segunda-feira, 28 set 2020
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Meninas estão sendo espancadas dentro da Fundação Casa, dizem familiares

Elas teriam sido acordadas pelos funcionários ao som de barras de ferro raspando nas grades das celas, puxadas pelos cabelos, jogadas no chão, despidas e depois agredidas com chutes e socos

Por Victor Labaki

Familiares de garotas que estão cumprindo medida socioeducativa na Unidade de Taipas, em São Paulo, da Fundação Casa, junto com o Coletivo Autônomo Herzer, que atua na luta contra o encarceramento juvenil, fizeram denúncias de que as adolescentes estão sendo espancadas e torturadas pelos funcionários da unidade, que fica localizada na zona norte da capital paulista.

Eles contam que na manhã do última sexta-feira (11) elas foram acordadas pelos funcionários ao som e barras de ferro raspando nas grades das celas, puxadas pelos cabelos, jogadas no chão, deixadas nuas e depois agredidas com chutes e socos. Depois as meninas teriam sido deixadas em uma cela de castigo sem acesso a banho de sol e contato com outras garotas.

Janete Ferreira, mãe de uma das meninas, contou que ouviu os relatos no dia seguinte quando foi visitar sua filha: “Começaram a bater nas meninas de todas as formas. Algemadas, as meninas pediram para ir ao banheiro e não deixaram. São meninas de 13, 14, 15 e 16 anos”, afirmou.

Ela também disse à mãe que as meninas que não recebem visitas foram as que mais sofreram agressões.

“Essas meninas apanharam muito na costela. Uma delas aparentemente está com a costela quebrada. A menina grita, não consegue ficar de pé e mal consegue se locomover. De sexta para sábado as meninas não dormiram porque essa menina gritava pedindo socorro. Tem uma que está com olho roxo e uma outra que está com os dois ouvidos pretos de tanta porrada que levou”, contou à Fórum.

Janete disse que sua filha, por ser uma das que recebe visita, foi agredida em locais do corpo que não deixam marcas aparentes: levou chutes nos seios, tapas na cara e puxões de cabelo.

O motivo da agressão, segundo as próprias garotas, foi por conta de uma conversa que elas tiveram dois dias antes, quarta-feira (9), em que comentaram sobre passar as festas de final de ano em casa. Um funcionário que ouviu interpretou que havia uma intenção de fuga por parte das meninas e comunicou seus colegas.

Depois das denúncias feitas por Janete e outros pais, o caso passou a ser acompanhado por organizações de defesa dos direitos humanos e um relatório com os depoimentos das agressões foi encaminhado nesta sexta-feira (18) ao presidente da Fundação Casa.

“Encaminhamos hoje também para a presidente da Fundação Casa, Berenice Giannella, um relatório com as denúncias de maus tratos e agressões e um termo de depoimento de uma das mães das adolescentes”, disse Ariel de Castro Alves, coordenador da Comissão da Criança e do Adolescente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana).

A corregedoria da Fundação ouviu o depoimento de mais de 20 adolescentes e está apurando se houve algum tipo de excesso por parte dos funcionários. As investigações ainda não foram concluídas.

Segunda a Fundação Casa, as meninas que se queixaram de agressões passaram por exames de corpo de delito.

Histórico de violações

A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República publicou um relatório ano passado denunciando a unidade de Taipas por práticas de torturas recorrentes e alto número de funcionários homens dentro de uma unidade feminina. O documento mostra fotos de garotas machucadas nas pernas e nos braços.

Foto: Reprodução/Google Street View

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