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23 de fevereiro de 2013, 14h08

Movimento 5 estrelas revoluciona a política italiana

Criado por um cômico, movimento propõe a democracia direta e participativa e será o boom nas eleições deste final de semana

Criado por um cômico, movimento propõe a democracia direta e participativa e será o boom nas eleições deste final de semana

Por Janaína Cesar, especial da Itália

“Abriremos o Parlamento como se abre uma caixa de atum”, enfatiza Beppe Grillo, representante do Movimento 5 Estrelas, em um dos seus inúmeros comícios pelas praças italianas. “Eles (os políticos) devem entender que com nossa ida ao parlamento não poderão mais trocar favores, presentes, amantes. Acabou a festa! O parlamento será transparente, de vidro, palpável ao cidadão. Não poderão mais roubar. Mudaremos o país”. Palavras do cômico responsável pelo nascimento do Movimento 5 Estrelas, um movimento democrático e participativo, que começou na rede virtual com os Meet Ups e se transformou em algo concreto, tão concreto que hoje representa a segunda força política do país.

Domingo e segunda, os italianos irão às urnas para votarem para a câmara e senado e, segundo as últimas pesquisas eleitorais realizadas em dezembro passado, o Movimento 5 Estrelas chegará aos 25%. Em números isso representa cerca de 150 pessoas eleitas pelo Movimento. Será um boom revolucionário para o país e para e Europa. Sim, a Europa está muito preocupada com uma possível vitória do Movimento porque um dos itens do programa é a realização de um referendo para a saída ou não do euro. “Decidirão os cidadãos, não bancas e classe política”, diz Grillo.

Os políticos de profissão temem o movimento, tentaram a todo custo deslegitimá-lo, mas não foram ouvidos. Os cidadãos, cansados de promessas não cumpridas, de verem e reverem, por anos, roubalheira e impunidade no congresso, viram no movimento uma esperança de mudança porque propõe coisas concretas, como ficha limpa (para participar das eleições todos tiveram que apresentar ficha policial), máximo duas legislaturas; redução dos salários de deputados e senadores para algo como 2.500 e 5000 euros, respectivamente; fim do financiamento público aos partidos políticos e aos jornais; fim do reembolso eleitoral (os grillini nos últimos 3 anos restituíram aos cofres públicos cerca de 800 mil euros); introdução do quórum zero e a introdução de um politômetro, isto é, uma verifica na situação fiscal de todos os políticos do primeiro ao último mandato e por aí vai.

Na última eleição regional da Sicília, o movimento foi a força política que obteve mais votos, só não ganhou as eleições porque o partido do atual governador se aliou com outros partidos menores, formando a coalizão que hoje governa a região. O resultado dessa eleição foi significativa para entender o que aconteceria meses depois. Ali, no sul do país, berço do Berlusconismo, o movimento elegeu 15 deputados que já nos primeiros dias de atuação política, instalaram webcans no palácio do governo para democratizar o acesso às sessões plenárias e votações. Restituíram parte de seus salários e o reembolso eleitoral, e com a verba criaram um programa de micro-crédito para pequenas e médias empresas.

E pra quem pensa que o cômico tem interesse pessoal e pretende se candidatar a algum cargo político se engana. “Não sou candidato e nunca serei. Sou o porta-voz do movimento, uso minha imagem pública para fazer publicidade, sou uma espécie de garantia para que tudo caminhe pela estrada justa.”

O movimento que, oficialmente, nasceu em 2009 seguindo a onda do famoso dia de protesto organizado por Grillo contra o sistema político chamado V-Day ou Vaffanculo Day (Dia do Foda-se), hoje se vê apoiado por intelectuais e artistas de peso como o dramaturgo Dario Fo, os cantores Adriano Celentano, Franco Battiato e Mina, a economista Loretta Napoleoni entre outros. O avanço irreversível no deserto deixado pela política italiana esta fazendo tremer os prédios do poder de Roma.

*Janaína Cesar é jornalista, vive na Itália há 8 anos e colabora com diversas revistas brasileiras. Janna_cesar@libero.it


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