Negro e gay, Diogo da Paz ia ser enterrado como indigente

A vereadora eleita Erika Hilton encaminhou protocolo pedindo explicação à Secretaria de Segurança Pública e disse que se trata de "um caso assustador de violação dos Direitos Humanos”

Às 10h45 da manhã, do dia 13 de dezembro, foi dado entrada no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM) de Diogo da Paz, que havia sido socorrido pelo Corpo de Bombeiros depois de ser encontrado caído em uma rua do bairro Liberdade, centro de São Paulo.

Paz, antes de perder a consciência, conseguiu informar seu nome, endereço e os dados de sua mãe. O homem viria a falecer no mesmo dia em que deu entrada no hospital. Porém, algumas questões seguem sem explicações: se Diogo Paz conseguiu informar os seus dados ao hospital, por que ele quase foi enterrado como indigente?

A história só não teve um fim ainda mais trágico porque o amigo de Diogo Paz, o empresário Jared Baungartner, depois de quase uma semana a procura de Diogo, o encontrou no Instituto Médico Legal (IML).

“Achei que ele tivesse viajado, desligado o celular, mas quando liguei pra família e disseram que ele não estava lá, comecei a procurá-lo em hospitais”, diz o rapaz. “Foi quando a mãe de um amigo que trabalha no Hospital do Servidor descobriu que ele tinha dado entrada lá e que o corpo estava no IML”, disse Jared Baungartner ao UOL.

“Ele estava há 5 dias numa gaveta. O reconhecemos pelas tatuagens porque o rosto estava irreconhecível. Ele teria sido enterrado como indigente naquele mesmo dia se eu não tivesse encontrado ele na sexta (18)”, revelou Baungartner.

Em nota, o HSPM afirmou que Diogo Paz se declarou enquanto “branco”, que uma avaliação completa, seguindo protocolo de suporte avançado de vida no trauma, sem evidências de lesões focais, exceto por ferimento na face”.

A nota também informa que Paz “estava agitado, recusou-se a proceder à sutura do ferimento e retirou inadvertidamente a imobilização cervical”.

O hospital também informou que “o paciente foi submetido a exames laboratoriais e de imagens que não evidenciaram a necessidade de conduta cirúrgica de emergência. Permaneceu em observação por cerca de quatro de horas, quando o quadro evoluiu com para cardiorrespiratória em assistolia”.

A respeito de não ter entrado em contato com a família, o HSPM informou que tentou, mas, “infelizmente sem sucesso”.

Dona Dalva, a mãe de Diogo Paz, e Baungartner, desconfiam de racismo e homofobia, e consideram que, por se tratar de um “negro e gay” não foi dada a devida importância.

A vereadora Erika Hilton encaminhou ofício para a Secretaria de Segurança Pública exigindo explicações

A vereadora eleita Erika Hilton (PSOL) usou as redes sociais para comentar o caso e disse que vai exigir explicações da Secretaria de Segurança Pública sobre o caso.

Ao comentar sobre o caso nas redes, Hilton afirmou que “a nossa comunidade continua no alvo do ódio, na mira da violação dos Direitos Humanos. Eu fiquei sabendo do caso do menino gay que ficou desaparecido por 5 dias e que chegou com vida ao hospital e depois foi tratado como indigente. É um caso assustador de violação dos Direitos Humanos, nós vamos sim cobrar explicações e mandar ofícios ao secretário de Segurança Pública. É lamentável tudo isso que acontece com a nossa comunidade”, criticou a vereadora.

“Revoltante, lamentável, cruel, triste, mas sigamos, pois o nosso luto é verbo. Nós estamos em luta, essa história de genocídio, de violação dos nossos direitos não começa agora e nem vai terminar agora, é por isso que nós vamos nos manter de pé, sendo resistência, cobrando justiça, exigindo resposta e fazendo valer a nossa cidadania e a nossa humanidade”, disse Hilton.

Por fim, a parlamentar declarou que não irá mais aceitar “coisas horríveis como essa sejam tratadas com relatividade e eufemismo, que nossas vidas sejam tratadas como menos. Nossas vidas importam e nós vamos pra cima. Nós queremos esse quadro, essa estatística horrorosa”.



Além do caso de Diogo Paz, Erika Hilton também informou que vai pedir explicações sobre o caso de uma travesti assassinada no Centro de São Paulo.

Amigo de Diogo da Paz questiona motivo da morte e levanta a questão de homofobia institucional

Em seu perfil no Instagram, Jared Baungartner gravou uma série de vídeos apontando as dificuldades e contradições ao tentar obter informações sobre o amigo.



Uma dela é o porquê de o caso não estar sendo investigado pelo DHPP, ao que informaram para Baungartner que o caso não estava “sendo tratado como crime”.


Sobre as causas da morte, também há muita confusão. Baungartner relata que chegaram a levantar a hipótese de que uma doença poderia ter causado a morte de Diogo da Paz. Porém, a hipótese se torna um pouco absurda quando se leva em conta que Paz ficou 4h dentro do hospital, questiona Baungartner.


Todas essas questões levantam a desconfiança de uma homofobia institucional para tratar do caso.

O caso segue sendo investigado pela Polícia Civil, que deve escutar todas as pessoas envolvidas no atendimento a Diogo da Paz.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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