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18 de setembro de 2012, 14h04

O filme sobre Maomé e a sociedade digital em xeque

A Google e outras empresas na internet têm feito uso da retórica da liberdade de expressão na internet, mas o episódio do malfadado filme mostrou a complexidade da questão do livre fluxo de informações no mundo digital

A Google e outras empresas na internet têm feito uso da retórica da liberdade de expressão na internet, mas o episódio do malfadado filme mostrou a complexidade da questão do livre fluxo de informações no mundo digital

Por Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa

O episódio do filme sobre o profeta Maomé que desatou uma onda de protestos no mundo árabe mostrou a intensidade latente de ressentimentos culturais, mas também a gravidade de uma questão tecnológica que pode afetar o planeta inteiro.

A empresa Google, controladora do site YouTube onde foi postado um trailer do polêmico filme, decidiu banir a sua exibição em vários países árabes para evitar o agravamento dos protestos.

A preocupação com a violência é mais do que justificável e compreensível, mas o fato de uma empresa com sede nos Estados Unidos ter o poder de decidir o que outros países podem ou não ter acesso é da maior relevância para todos nós.

A tão decantada autonomia e independência da internet ficou seriamente abalada, e num momento em que a rede mundial de computadores passa a influenciar a vida de cada vez mais pessoas, empresas e governos. Todo o arcabouço da nova sociedade digital foi colocado em questão.

Cena do trailer do filme Innocence of Muslins

Isto nos preocupa — e muito — porque ficou claro o poder de uma empresa em influenciar eventos noutros países. A autodeterminação nacional, uma das bases da existência das Nações Unidas, pode estar ameaçada na medida em que nosso futuro não está mais dependente de fronteiras, mas do fluxo transnacional de informações.

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O jornal norte-americano The Washington Post, num artigo publicado na sexta-feira (14/9), afirmou que o episódio mostra como algumas empresas norte-americanas podem se transformar em “árbitros da liberdade de expressão no resto do mundo” , ao substituir tribunais e foros internacionais.

A Google e outras empresas com grande poder na internet têm feito uso intensivo da retórica da liberdade de expressão na rede mundial de computadores, mas o episódio do malfadado filme sobre o profeta Maomé mostrou a complexidade da questão do livre fluxo de informações no mundo digital.

O filme foi um caso grosseiro, e ainda não plenamente esclarecido, de manipulação intencional de preconceitos culturais e religiosos. Por isso, a suspensão de sua exibição não provocou protestos imediatos dos defensores da liberdade de expressão na Web, como é o caso de organizações como a Electronic Frontier Foundation, dos Estados Unidos.

Mas a brecha foi aberta e mostrou uma fissura na arquitetura jurídica do mundo digital, capaz de gerar gravíssimos problemas políticos no futuro. A questão é complexa e a discussão não será fácil, mas é inevitável, porque nossas vidas estão cada vez mais condicionadas pela internet.

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