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01 de março de 2013, 17h16

Os meninos que não amam as mulheres

Blogues, fóruns e grupos em redes sociais reúnem jovens com discurso misógino e extremista

Blogues, fóruns e grupos em redes sociais reúnem jovens com discurso misógino e extremista

Por Camilla Feltrin 

A lenda em torno do nome de Nessahan Alita diz que o rapaz era professor de Geografia da rede pública de ensino e também especialista em orientação junguiana, mas que hoje, após passar em um concurso da Funai, estuda a vida de índios. Essa é a lenda, não há nada comprovado. O que existe de real é uma dezena de livros publicados sob esse pseudônimo.

Influenciados pela literatura de Alita, homens e meninos se reúnem em grupos, fóruns e comunidades nas redes sociais para discutir os tais ensinamentos e variações dele. Dois dos principais livros do enigmático escritor são O Lado Obscuro das Mulheres e o Profano Feminino. Em suma, as publicações ensinam que as mulheres não podem ser muito bem tratadas e quanto mais são ignoradas, mais se interessam por um pretendente.

Os seguidores dos livros condenam o uso de violência e ameaças praticadas pelos Sanctos, grupo mais extremista, mas também não deixam de ter pensamentos amedrontadores e chocantes. Com – ou sem – licença poética do filme dos irmãos Wachowski, os jovens dizem que é preciso enxergar a verdade e a manipulação feita pelas mulheres e sair da vida “matrixiana” para poder viver feliz na Real, um suposto estado de consciência capaz de enxergar essa realidade questionável em que as mulheres são monstros e manipuladoras.

A preferência política dos participantes oscila entre direita e extrema direita. Os termos usados são diversos e humilhantes para as mulheres: ‘merdalheres’, ‘feminazis’, ‘m$ol’ (para mães solteiras), ’bucetocard’ (em referência às gentilezas que mulheres bonitas, ou não, conseguem), entre outros do nível.

“Em vez desses homens se adaptarem a um mundo com maior igualdade, eles querem retroceder aos anos 1950, aliás, ao tempo das cavernas, em que o homem honrado precisava caçar. Eles sabem que esse retrocesso não vai acontecer, e por isso gastam seu tempo odiando mulheres e qualquer outro grupo historicamente oprimido que luta por mudanças. Nada disso é novo, mas, com a internet, esses homens frustrados, tristes, desesperados, podem se reunir em blogs, fóruns e páginas no Facebook”, comenta a professora universitária da UFC (Universidade Federal do Ceará) Lola Aronovich, que costuma escrever sobre o movimento em seu blogue (www.escrevalolaescreva.blogspot.com).

Jovens e nerds, esses internautas citam trechos de livros do Nessahan Alita como se fosse uma bíblia e mesmo aparentando serem novos e sem muita experiência de vida (leia-se amorosa e sexual), falam com propriedade que nenhuma mulher presta e estão prontas para enganar os homens com armadilhas naturais de dissimulação. A viagem é endossada por Schopenhauer e trechos da Bíblia e do Alcorão em que os homens são exaltados e as mulheres humilhadas.

Lola acredita que esse tipo de conversa pode gerar vários danos para a sociedade. “Eu creio que os masculinistas devam ser considerados um grupo de ódio. Um discurso desses pode servir de combustível para ações mais concretas como atentados, espancamentos e até assassinatos”, diz. Nos fóruns, é possível encontrar diversos materiais de estudo para a ideologia e debater assuntos pertinentes, desde como aumentar os adeptos do masculinismo no Brasil, sobre o modus operandi das mulheres (como se fossem uma organização ou militância) e a suposta inconstitucionalidade da lei Maria da Penha. Os ensinamentos e dicas são duvidosos e até risíveis. Um dos usuários, por exemplo, discorre sobre a necessidade de alterar sexo entre garotas de programa e ‘civis’ (sic). Um ponto apoiado em todos os grupos é de que as mulheres não gostam de sexo, apenas o fazem como forma de seduzir e controlar o homem.

O jornalista Olavo de Carvalho, o blogueiro Julio Severo e o deputado Jair Bolsonaro são admirados nesses tipos de blogue e tidos como referência. Na ficção, o assassino Max (Marcelo Novaes), da novela Avenida Brasil, Coronel Jesuíno (José Wilker), de Gabriela, com o bordão “Deite que vou lhe usar” são citados como exemplos de macho alfa que não se deixam ser comandados por mulheres.

Ódio na rede

A pregação desse tipo de ódio na internet tem diversos adeptos e é algo tão amplo que pode se transpor para a vida real. No triste caso das crianças mortas por Wellington Menezes de Oliveira em Realengo (RJ), em abril de 2011, surgiu a hipótese de que o atirador participasse de fóruns pautados na superioridade do sexo masculino e de que as mulheres são seres oportunistas. Nada foi comprovado ainda, mas das 12 vítimas fatais, 10 eram meninas.

Durante a Operação Intolerância, deflagrada em março de 2012, a Policia Federal prendeu Emerson Eduardo Rodrigues e Marcello Valle Silveira Mello em Curitiba (PR). Eles eram responsáveis pelo site SilvioKoerich.org. O blogue continha diversas mensagens de ódio contra mulheres, negros, nordestinos, gays e imagens de pedofilia, corpos mutilados e zoofilia. Na época, policias disseram que a relação entre os dois com o assassino carioca seria investigada.

O Anonymous BR foi responsável por descobrir os nomes, endereço e CPF da dupla e entregar voluntariamente para a Polícia Federal. Segundo a usuária @anonim4isback, os dois também têm participação no ataque da rave no Distrito Federal em que 12 jovens ficaram feridos.

A dupla também planejava um ataque a UnB (Universidade de Brasília), semelhante ao de Realengo. No atentado frustrado pela PF, os alvos seriam estudantes do curso de Ciências Sociais da faculdade. O motivo? Pensamentos esquerdistas são repudiados por esse tipo de internauta. Emerson e Marcello são classificados como sanctos, a variação extremista da ideologia masculinista. Metade da capa do Correio Braziliense, em 23 de março de 2012, foi dedicada à operação da PF.

A origem

O termo dos fóruns de homens que discutem A Real surgiu no Orkut, especificamente na comunidades Mulher Gosta é de Homem Babaca e O Lado Obscuro das Mulheres no começo do ano 2000. À época, Nessahan Alita, autor dos livros, participava ativamente das discussões.


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