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06 de junho de 2007, 19h51

Pesquisador diz que PT e PSDB vivem

Para o cientista político Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco, nem sempre PT e PSDB estiveram em campos opostos. Segundo ele, O “namoro” entre petistas e tucanos teve início antes mesmo da fundação do PSDB.

Para o cientista político Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco, nem sempre PT e PSDB estiveram em campos opostos. Segundo ele, O “namoro” entre petistas e tucanos teve início antes mesmo da fundação do PSDB. “A aproximação aconteceu na Assembléia Nacional Constituinte de 1988”, diz. Barreto afirma ainda que é no campo das idéias econômicas que o “namoro” é mais firme. Porém, na opinião do cientista político, é inimaginável um acordo eleitoral entre os dois partidos, por uma série de razões. “A primeira delas, porque ambas as legendas tomaram gosto pelo poder e hoje só pensam nas questões eleitorais, o que acirra as diferenças”, afirma Barreto.

Na terça-feira da semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva surpreendeu muita gente ao revelar publicamente – em entrevista – o que apenas alguns aliados e articuladores políticos sabiam: em 1994, o PT poderia ter tido um representante do PSDB como candidato a vice-presidente, o que talvez garantisse já ali uma vitória na disputa presidencial. O que atrapalhou as negociações, segundo Lula, foi o lançamento do Plano Real. E desde então, as duas legendas se tornariam adversárias. Mas a proximidade, tanto programática quanto “comportamental”, entre petistas e tucanos se mantém, assim como um “namoro velado”, que levou o presidente, na mesma entrevista, a deixar no ar a possibilidade das siglas estarem aliadas em 2010.

De fato, nem sempre PT e PSDB estiveram em campos opostos. Logo no nascedouro, a sigla tucana buscou uma aproximação, de olho num patrimônio que os petistas detinham: a inserção nos movimentos sociais. “O PSDB é um partido artificial, criado de forma cartorial por parlamentares peemedebistas que representavam a elite intelectual do País e que descobriram que o PMDB, encerrado o período da ditadura militar, não servia mais aos seus interesses”, explica o cientista político Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco.

O “namoro” entre petistas e tucanos teve início antes mesmo da fundação do PSDB. A aproximação aconteceu na Assembléia Nacional Constituinte de 1988, quando setores progressistas do PMDB procuraram o PT e representantes das demais forças de esquerda com o objetivo de costurar uma aliança alternativa para enfrentar o rolo-compressor das legendas conservadoras – unificadas no bloco batizado de “Centrão” –, que queriam evitar maiores avanços na Carta Magna. O bloco reunia desde a “direita” do PMDB até o PFL, o PP e remanescentes do PDS, ainda em atividade. E precisava ser combatido.

“Em quase todo partido há uma direita, mais flexível, um centro e uma esquerda, mais radical. Isso não tem a ver com ideologias”, explica Túlio, acrescentando que, ao contrário da ala do PMDB que se uniu ao “Centrão”, a “esquerda” do PMDB defendia mudanças profundas na Constituição nos aspectos político, econômico e, sobretudo, social. Interesses similares aos da “direita” do PT, liderada por Lula, José Dirceu e José Genoino.

O grupo de peemedebistas dissidentes – a maioria integrante do chamado “PMDB Autêntico” – decidiu fundar um partido que se declarava adepto da social-democracia, em voga na Europa. Nascia o PSDB, tendo à frente figuras como Mário Covas, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Pimenta da Veiga, José Richa e Euclides Scalco. Além dos pernambucanos Egídio Ferreira Lima e Cristina Tavares.

Faltava à legenda, porém, um lastro junto aos movimentos sociais. “Isso era algo essencial nos partidos social-democratas europeus, e que o PT tinha de sobra”, diz o cientista político. Segundo ele, se alguém no Brasil pode se intitular social-democrata, são os petistas. Teóricos do PT e do PSDB acreditavam que a união das legendas criaria algo próximo do modelo europeu. Intelectuais progressistas montados numa base social.

“Não deu certo, e sem as bases o PSDB nada mais fez que aprofundar o modelo neoliberal que Fernando Collor havia preconizado a partir do Consenso de Washington, mas que terminou distorcido e transformado numa desgraça para o Brasil”, afirma Túlio, citando as teses neoliberais do Estado mínimo, das privatizações aceleradas, dos contratos internacionais e da abertura das fronteiras comerciais, entre outros pontos, como ações encampadas pelo governo FHC.

Pensamento econômico une petistas e tucanos

Se petistas e tucanos aparentemente trilham caminhos distintos na política, no campo econômico o “namoro” é firme. E não se trata apenas da adoção, pelo governo Lula, da política econômica implantada na gestão do PSDB. Hoje, representantes dos dois partidos convivem lado a lado no mercado financeiro. Enquanto os tucanos concentram suas atividades na área dos bancos internacionais e nas bolsas de valores, os petistas têm influência forte na administração dos fundos de pensão, alguns dos maiores investidores das bolsas. “Juntos, petistas e tucanos formam uma nova casta econômica”, afirma Túlio Velho Barreto.

Hoje, porém, o “namoro” entre petistas e tucanos extrapola os limites do mercado financeiro e ganha as páginas dos jornais. Ao tomar conhecimento da entrevista de Lula, o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), confirmou a versão, e disse que o presidente só errou o ano. Ele admitiu que seria o nome para a vice, e que manteve encontros até semanais com Lula a partir de 1992. “PSDB e PT estavam afinados na CPI que investigou as denúncias de corrupção do governo Collor. Começou a nascer a possibilidade de uma aliança natural, já que estávamos trabalhando juntos na CPI. Tínhamos pontos em comum”, revela Tasso, acrescentando, porém, que o insucesso das articulações foi provocado pelo “radicalismo” do PT.

Na opinião de Túlio Velho Barreto, é inimaginável um acordo eleitoral entre os dois partidos. Segundo ele, por uma série de razões. A primeira delas, porque ambas as legendas tomaram gosto pelo poder e hoje só pensam nas questões eleitorais, o que acirra as diferenças. Depois, pelo passado recente dos tucanos, que se uniram ao PFL para chegar à Presidência da República, assumindo a adversidade histórica entre petistas e pefelistas. O terceiro e mais sério obstáculo para uma aliança entre PT e PSDB: as duas siglas são basicamente paulistas, e travam uma disputa acirradíssima pelos votos daquele Estado, o mais populoso do País.

 

Vermelho

 


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