“Rio só vendo a vista”, novo álbum de Martinho da Vila é tão bom quanto seu título

A principal novidade do álbum é o fato do compositor nele voltar à sua origem, ou seja, o partido alto e o som dos terreiros

Não tivesse o Dia Nacional da Consciência Negra amanhecido com a triste noticia do assassinato de João Alberto por seguranças do Carrefour de Porto Alegre e haveria motivos para comemorar.

Entre eles, o cantor e compositor Martinho da Vila aproveitou a data para lançar, aos 82 anos, o lindo álbum “Rio só vendo a vista”, onde a principal novidade além do título pra lá de dúbio, é o fato do compositor nele voltar à sua origem, ou seja, o partido alto e o som dos terreiros.

Capa do álbum “Rio só vendo a vista

Com essa, são duas voltas ao começo de Martinho. A primeira o partido alto e a segunda, claro, é a homenagem à cidade do Rio de Janeiro, onde ele chegou aos quatro anos de idade, vindo de Duas Barras (RJ).

No álbum há apenas quatro sambas inéditos. As canções já gravadas, no entanto, foram garimpadas no seu próprio repertório, ou seja, no álbum não tem nenhum dos grandes sucessos do passado do artista.

Martinho na verdade volta para o gênero que, se não foi ele quem inventou, ao menos foi quem popularizou pelo Brasil e pelo mundo.

Chama a atenção de saída, o samba enredo de 1985, “Vila Isabel Anos 30”, parceria com Luiz Carlos da Vila. A ambiência musical lembra os primeiros discos de Martinho, onde tudo é feito pelos instrumentos tradicionais, ou seja, violão, cavaco, tamborim, repinique, agogô e surdo.

O coral do álbum é feito por sete de seus oito filhos. A produção impecável é compartilhada pelo próprio autor com Celso Filho.  A opção da sonoridade é claramente voltada ao samba, conforme dito acima, e foge de instrumentos eletroeletrônicos de apoio. Tudo é feito de maneira a soar natural.

Uma das boas lembranças do álbum e o samba “Você, eu e a Orgia”, em parceria com o lendário sambista Candeia, gravada por Beth Carvalho em seu álbum “De pé no chão”, de 1978.

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“Rio só vendo a vista” é mais um dos vários projetos que foram atrasados por conta da pandemia do Coronavírus. Martinho diz que começou a gravá-lo há cerca de dois anos, mas conseguiu terminar apenas agora.

O álbum traz uma grande variedade de assuntos entre eles a descendência afro-americana, a exclusão do povo negro, o Candomblé e a Umbanda, temas sempre explorados por Martinho, surgem com grande força.

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Com seu jeito devagarinho, entre o suingue e o carinho afetuoso, Martinho consegue dizer coisas que normalmente são espirradas aos gritos. Dois ótimos exemplos disso são as canções “O Caveira”, cantada em dueto com Verônica Sabino, e “Menina de Rua”. Esta última foi composta em parceria com Rildo Hora para um musical infantil, mas acabou ficando de fora por ser considerada muito pesada.

A regravação de Martinho com a filha Mart’nália é comovente e merece destaque no álbum.

“Rio só vendo a vista” vale por tudo. É tão bom quanto seu título, que aponta para inúmeras direções, todas repletas de amor pelo samba e pela cidade maravilhosa.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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