Ruth Venceremos: drag criada nas fileiras do MST quer ocupar a Câmara dos Deputados

Uma das fundadoras do Coletivo LGBT Sem Terra, a militante afirma que a desqualificação dos debates sobre sexualidade é uma produção capitalista e que a emancipação só poder pensada de maneira totalizante

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) é um dos maiores da América Latina e, para as eleições de 2022, articula o lançamento de candidaturas ao redor do Brasil à Câmara dos Deputados.

Entre as candidaturas anunciadas pelo MST está a drag Ruth Venceremos, que foi literalmente criada nas fileiras do Movimento, visto que está nele desde os 13 anos de idade. A artista e militante LGBT vai disputar uma vaga à Câmara dos Deputados pelo PT do Distrito Federal.

Em entrevista à Fórum, Ruth Venceremos diz que se sente “honrada” em estar no projeto do MST de disputar o poder institucional. No entanto, ela afirma que o seu projeto político não é uma “representatividade pela representatividade” e afirma que a luta pela terra e a questão da sexualidade caminham juntas.

“O Movimento percebeu que não dá para a gente fazer a dicotomia entre amar e lutar, entre o direito e o dever de existir… não são movimentos de oposição. A emancipação tem que ser totalizante e isso passa por romper com valores da sociedade burguesa que nos vê como desvio”, analisa Ruth.

A construção de uma educação emancipadora também está presente no projeto político de Ruth Venceremos, que é coordenadora educacional do MST. Pedagoga de formação (UFRN), ela critica o movimento Escola Sem Partido e afirma que a escola tem “função social”.

“Esses ataques, principalmente do Escola Sem Partido, que é um movimento ideológico, esses ataques acabam reduzindo a função social da escola. E a escola é um espaço que deve ser democrático, espaço para a construção do debate, o espaço das noções de ciência e das artes e isso passa por questões como a da diversidade, o tema das mulheres… sabemos que há uma violência contra as mulheres que persiste na sociedade brasileira e a escola não pode estar indiferente a essas coisas”, afirma Ruth Venceremos.

Vivendo em Brasília, Ruth Venceremos também coordena o Distrito Drag, coletivo de artistas dragas do DF.

Fórum – Quem é Ruth Venceremos?

Ruth Venceremos – A Ruth Venceremos é uma drag queen, negra, ativista LGBT, sem-terra, que tem buscado fazer e aproximar o debate da arte, da estética drag. Ruth Venceremos é uma comunicadora popular que se utiliza da política para falar sobre as coisas que acontecem no mundo.

Fórum – Você faz parte da coordenação pedagógica do MST e nos últimos anos nós temos visto um ataque fundamentalista contra a educação voltada para as diferenças dentro da sala de aula. Como você analisa esse processo histórico pelo qual o Brasil passa e quais caminhos são necessários para uma educação libertadora?

Ruth Venceremos – Primeiro é preciso pontuar que, a educação como um direito social e universal, ele é muito recente na nossa história. E há uma desigualdade acentuada no país que se traduz no abismo educacional. Nós estamos muito distantes de universalizar o ensino superior, principalmente nesse momento de retrocessos, pós-golpe, de ataques a conquistas importantes, como a entrada do povo preto na universidade e outros elementos, por outro lado você também tem, de fato, o avanço de pautas conservadoras que tentam na prática reduzir a função social da escola.

Esses ataques, principalmente do Escola Sem Partido, que é um movimento ideológico, esses ataques acabam reduzindo a função social da escola. E a escola é um espaço que deve ser democrático, espaço para a construção do debate, o espaço das noções de ciência e das artes e isso passa por questões como a da diversidade, o tema das mulheres… sabemos que há uma violência contra as mulheres que persiste na sociedade brasileira e a escola não pode estar indiferente a essas coisas. E, a meu ver, a escola também tem de dar noções de coletividade, a escola e um espaço público e deve ser diverso.

Também deve ser um espaço de conhecimento científico, não é só a gente se apropriar dos conteúdos, a escola também tem a ver com as relações. A escola tem que ser espaço, por excelência, para cultivar o respeito à diversidade.

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Fórum – Em 2018 o MST oficializou o coletivo LGBT e você é uma das fundadoras. Como está hoje o debate sobre as sexualidades no âmbito do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra?

Ruth Venceremos – Eu tenho muito orgulho de fazer desse movimento que foi quem formou a minha personalidade, o meu caráter, desde os meus 13 anos eu integro o MST. A grande lição que eu tiro é que o MST tem uma práxis transformadora e que identifica os seus limites e partir do movimento, faz avançar. O MST é um dos maiores movimento social da América Latina, é um movimento de camponeses e no geral há uma visão estereotipada de que o camponês é muito conservador, mas de que camponês nós estamos falando? Nós estamos falando de pessoas que constroem uma luta coletiva e política.

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Nós LGBT, que estamos desde o início do MST, estamos nas fileiras das lutas. Muitas vezes a gente era alvo de brincadeiras, piadinhas, brincadeiras e piadinhas que também são uma forma de violência.

Nós, as LGBT Sem Terra somos um movimento importante, fomos nos encontrando, nos reconhecendo e propondo esse debate dentro do MST. Nós fomos ocupando o movimento com esse debate, e de que maneira? Desde ações de formação dos trabalhadores de base nos assentamentos, passando pela introdução do respeito à diversidade nas marchas do MST. Fomos introduzindo esse discurso e debate na formação política.

O Movimento percebeu que não dá pra gente fazer a dicotomia entre amar e lutar, entre o direito e o dever de existir… não são movimentos de oposição. A emancipação tem que ser totalizante e isso passa por romper com valores da sociedade burguesa que nos vê como desvio.

Esse amadurecimento do MST é muito importante por quê. Eu tenho dito que o tema da diversidade sexual é um tema da classe trabalhadora como um movimento importante. Mas nós, enquanto esquerda, fomos negligenciando esse debate e o colocando à parte, de maneira que a direita liberal se apropriou desse debate, mas se apropriou para fins de mercado.

O que nós propomos, quando falamos da liberdade sexual, é que seja uma pauta coletiva.

Fórum – O MST anunciou a sua estratégia de lançar uma série de candidaturas para disputar uma vaga na Câmara. Com você se sente tendo o seu nome nesse projeto do MST?

Ruth Venceremos – Eu me sinto honrada. Nós estamos falando de um movimento popular e me lançar junto com outras forças políticas… estou até hoje entendendo o significado político. Não é só uma drag queen: preta, nordestina e LGBT. Então, para mim tem uma força muito importante do ponto de vista que, a esquerda precisa renovar os seus quadros políticos e nesse processo de retomada é preciso que a gente coloque as nossas caras, mas não pode ser representatividade por representatividade. Tem que ser uma representatividade ancorada por um projeto político de transformação do país.

Não queremos que seja uma drag porque ela é LGBT, nós queremos que seja uma drag porque está vinculada a um projeto de transformação social do país, de retomada do processo democrático, de lutar contra o fascismo em curso.

O MST foi sábio por entender que a disputa institucional é fundamental para fazer avançar a luta pela reforma agrária popular. Mas nós não podemos fazer a disputa política e abandonar a organização do trabalho popular.
É um desafio, não é fácil o processo eleitoral, mas a gente aprende que é a luta do povo que faz a gente avançar. Então eu me coloco à disposição e, neste sentido, o PT, olhando a estratégia do MST, me fez o convite para disputar pelo Distrito Federal e agora estamos no processo de discussões para que venha aí uma candidatura Ruth Venceremos.

Fórum – Você toca em um ponto muito importante: o debate da liberdade sexual já foi muito importante para o campo da esquerda, mas foi sendo abandonado e hoje, infelizmente, alguns setores da esquerda reproduzem discursos conservadores. Neste sentido, a sua candidatura pode ser muito pedagógica.

Ruth Venceremos – Sem dúvidas. Eu tenho dito… algumas pessoas falam “ah, porque é pauta comportamental e identitária”, é a pauta da vida! Nós estamos vivendo em um país que legitimou a violência contra esses corpos: contra os corpos negros, os corpos LGBT, contra as mulheres, então, como alguém pode achar isso que é secundário?

Eu não tenho como realizar um trabalho se eu não estiver viva. Então, nós estamos falando da vida das pessoas. As nossas lutas são anti-patriarcais e antirracistas.

Em um país como o nosso, com o racismo estrutural e de tanta violência contra as LGBT é fundamental que a gente reafirme essas pautas, não tem essa de deixar para depois… A vida das pessoas, é a vida da classe trabalhadora. E quem é a classe trabalhadora? É formada de maioria preta e pobre.

Fórum – Essa é uma falsa dicotomia: a vida sexual e a vida econômica. Tudo está conectado.

Ruth Venceremos – É isso. Acham que é possível ver o ser humano como fragmento, mas foi o capitalismo que fragmentou a nossa vida em vários aspectos… é uma falsa fragmentação e muitas vezes a esquerda adere a esse discurso. É preciso ver o ser humano na sua totalidade, por inteiro e não pela metade.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).