“Uberização é entregar o chicote na mão e dizer: se escraviza para mim”, afirma Paulo Galo

Integrante do movimento "Entregadores Antifascistas", ativista explica como funciona a lógica da prestação de serviços sem nenhuma segurança ou garantia. Veja vídeo

Integrante do movimento “Entregadores Antifascistas”, Paulo Roberto da Silva Lima, o Paulo Galo, mandou a real sobre a “uberização” durante participação no “Lança a Braba Podcast”. A entrevista foi feita no início de outubro, mas viralizou nesta semana nas redes sociais.

Ativista da categoria, ele é entregador da Uber Eats, iFood e Rappi e ficou preso durante 14 dias após participar do incêndio na estátua de Borba Gato. No podcast, Galo conta sua história como trabalhador de aplicativo e explica como funciona a lógica de prestar serviços sem quaisquer segurança ou garantias.

O entregador faz uma metáfora com Jay-Z, um dos homens negros mais ricos do mundo. “Só tem uma vaga para ser Jay-Z e tem um milhão de moleque preto querendo ser ele. Bater a chibata nas costas do trabalhador ficou demodê, fora de moda, faz perder dinheiro, não é bom para o marketing, não dá para ficar explorando os outros. Então, [o patrão pensa]: ‘Será que se eu entregar o chicote na mão desse cara, ele faz isso por mim? Porque ele quer vencer, ele quer tanto ser o Jay-Z, será que esse cara vai bater o chicote?'”, começa Galo.

“E aí o aplicativo fala: ‘Agora você é dono de si mesmo, agora você é patrão de si mesmo, empreendedor de si mesmo’. E a pessoa começa a trabalhar 12h, 13h, 14h. Essa é a minha história”, continua. “Uberização é entregar o chicote na sua mão e falar: ‘Você é dono de si mesmo, se escraviza pra mim’. Porque se eu entregar o chicote na sua mão e você falar assim: ‘Peraí, se eu bater mais forte, eu produzo mais, eu consigo chegar lá'”, diz.

Segundo ele, é uma falácia vender a ideia de que o trabalhador pode montar o seu próprio horário.

“Quem faz o meu horário é o Dia das Crianças, é o aluguel, é a água, isso que conta na vida do trabalhador. Esse relógio parece o fim do mundo. [A uberização] É isso, bate se você quiser, eu [patrão] não estou dizendo para você bater o chicote nas suas costas, bate se você quiser. Mas tem conta pra pagar”, finaliza Galo.

Assista a entrevista na íntegra:

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Carolina Fortes

Repórter colaborativa no site Emerge Mag e antiga editora-assistente no site da Jovem Pan. Ex-repórter no site Elástica. Formada em jornalismo e faz a segunda graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP). Acredita no jornalismo como forma de impacto social e defende maior inclusão e representatividade.

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