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19 de novembro de 2019, 18h24

Um partido para chamar de seu e a ascensão do fascismo tupiniquim, por Daniel Samways

Jair Bolsonaro anunciou sua saída do Partido Social Liberal (PSL) para fundar a Aliança Pelo Brasil, um partido de extrema direita, fascista e reacionário. Esses são os termos corretos

Foto: Agência Brasil

Por Daniel Trevisan Samways*

Ao longo da história contemporânea, diversos movimentos e partidos foram criados, com diferentes bandeiras e ideologias, alguns se apresentando como a novidade, a renovação, a nova política ou mesmo como um partido sem ideologia, “nem esquerda e nem direita”.

Outros, contudo, se apresentaram desde o início como um movimento revolucionário que visava radicalizar a política, defender determinados valores e implementá-los para toda a sociedade. A política como uma guerra, a destruição do inimigo e a imposição de um ideal para os sobreviventes. Não há diálogo, não há consenso. Existe apenas a disputa, o conflito e a tensão constante. Existem amigos e aliados de um lado, inimigos e opositores de outro.

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Esse foi o ideal dos movimentos fascistas surgidos no século XX, muitos deles desdobramentos de pequenas agremiações. Os mais conhecidos, por certo, são o Partido Nacional Fascista, na Itália, e o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, que em pouco tempo chegaram ao poder em seus países, tornando-se a única força política permitida. Afinal, os partidos representavam uma divisão da sociedade, e movimentos fascistas não toleravam a pluralidade, apenas a unidade. Movimentos fascistas ainda tiveram destaque em outros países no início do século XX, como Espanha, Portugal, Inglaterra, França, Estados Unidos e também no Brasil.

Se após a Segunda Guerra Mundial o discurso fascista perdeu sua força, dando lugar a partidos e movimentos de uma direita supostamente liberal, a qual não hesitou em se aliar a ditaduras em diferentes países, as recentes crises espalhadas pelo mundo deram impulso a movimentos radicais de extrema direita.

O discurso ultranacionalista, base de movimentos fascistas, vem ganhando cada vez mais força em meio a crises migratórias em diferentes regiões. O medo do “outro”, do imigrante, do terrorista, do estranho, impulsiona não só o fechamento de fronteiras, mas também a perseguição, a deportação e mesmo a eliminação de pessoas. Mas o ultranacionalismo não se baseia apenas na perseguição a imigrantes, mas também àqueles que representam, dentro do país, uma ameaça aos “verdadeiros valores nacionais”.

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro anunciou sua saída do Partido Social Liberal (PSL) para fundar a Aliança Pelo Brasil, um partido de extrema direita, fascista e reacionário. Esses são os termos corretos para denominar o movimento capitaneado pelo clã Bolsonaro que pretende conseguir seu registro para a eleição municipal de 2020. Não será tarefa fácil, mas, como vimos na última eleição, não podemos apostar todas as nossas fichas que a empreitada fracassará. Com o apoio das igrejas evangélicas e setores conservadores de movimentos católicos, a Aliança Pelo Brasil pode conseguir seu registro, mas também se consolidar como o núcleo de forças reacionárias no país.

Muitos analistas tendem a minimizar a construção de um novo partido liderado por Bolsonaro, afirmando que não passará de uma galhofa ou de um mero movimento de WhatsApp. Pode ser. Mas jogar com a possibilidade de que movimentos nos quais Bolsonaro coloque a mão sejam fadados ao fracasso, não me parece uma estratégia muito prudente. Quando Bolsonaro anunciou sua intenção de disputar as eleições presidenciais, os mesmos analistas afirmavam que ele seria engolido pelo sistema e que não chegaria nem ao segundo turno. Deu no que deu.

Talvez se Bolsonaro fosse efetivamente combatido quando anunciava suas pretensões presidenciais, a história seria outra. Como analistas, não trabalhamos com o “se”. Precisamos, agora, nos concentrar no presente e em como as peças estão se movendo no tabuleiro. Acreditar que o caos do atual governo seja um mero desvio de rota é ignorar suas reais intenções. A gestão Bolsonaro é marcada pela tensão e dela retira sua força, mobilizando sua base mais fiel.

Bolsonaro foi eleito por um partido tradicional do atual sistema político e passou por uma série de outros ao longo de sua carreira de quase 30 anos. Mesmo sendo parte da política, ele conseguiu se vender como externo a ela, um outsider, antiestablishment, zoeiro, mas, antes de tudo, um “mito”. Não é pouca coisa, com os poucos segundos de propaganda eleitoral que dispunha. Contudo, ele se valeu de outras redes e conseguiu uma capilaridade monstruosa através de diferentes canais de comunicação com a população.

Talvez o grande erro do campo progressista tenha sido negar a potência dessas redes. Como podemos garantir que essas mesmas redes não serão colocadas em movimento outra vez para impulsionar a Aliança? Na verdade, essa máquina continua a todo vapor. A bandeira de um novo partido pode se transformar rapidamente na luta por uma causa, na qual “uma nova e verdadeira atitude de aliados que almejam livrar o país dos larápios, dos ‘espertos’, dos demagogos e dos traidores que enganam os pobres e os ignorantes que eles mesmo mantêm, para se fartar”.

O linguajar do manifesto é de uma clareza fascista sem precedente em nossa história recente. Ele aborda “referências éticas e morais” e a lealdade ao líder, em um “sonho e a inspiração de pessoas leais ao Presidente Jair Bolsonaro, de unirmos o país com aliados em ideais e intenções patrióticas”.

Como já afirmaram Rosana Pinheiro-Machado e Isabela Kalil, o bolsonarismo é muito maior do que o próprio Bolsonaro, demonstrando que uma parcela da sociedade é simpática a ações autoritárias em uma verdadeira cruzada moral.

Talvez seja um enorme perigo acreditar que essas pessoas não possam ser mobilizadas para um partido-movimento de viés fascista. Fechar os olhos, na esperança que nada de ruim acontecerá, pode resultar em um verdadeiro desastre. O momento exige não apenas atenção, mas a luta constante contra o fascismo tupiniquim que ganha força por aqui.

*Daniel Trevisan Samways é doutor em História e professor no Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM)

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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