União Interparlamentar exige que o caso de Jean Wyllys seja investigado pelo Congresso Nacional

“Recebo com muita esperança”, diz Jean Wyllys; em entrevista à Fórum, ex-deputado também comenta sobre o atual cenário do Brasil

Em janeiro de 2019 Jean Wyllys anunciava que não retornaria ao Brasil e que abriria mão de seu terceiro mandato, conquistado em uma campanha marcada por ataques de ódio e ameaças de morte.

Antes de se tornar o primeiro exilado político desde a ditadura, Wyllys já vivia sob escolta policial desde o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ). Porém, quando as ameaças se aproximaram de seus familiares, o ex-deputado decidiu que não era mais seguro permanecer no Brasil.

Hoje, Jean Wyllys vive na Europa, onde atualmente é doutorando em Ciência Política na Universidade de Barcelona e pesquisador no ALARI at Hutchins Center de Harvard. Na entrevista que você confere a seguir, Wyllys comenta sobre o documento emitido pela União Interparlamentar (IPU), onde o órgão exige saber porque as ações necessárias de proteção não foram tomadas em torno das ameaças contra Jean.

Além disso, a União Inter Parlamentar cobra dos poderes brasileiros que “investiguem o caso de Jean Wyllys e que também possam garantir a segurança de outros parlamentares que vivem sob ameaças e risco de vida”.

No documento, A União Interparlamentar “lamenta a falta de resposta das autoridades brasileiras frente ao caso de Jean Wyllys” e insta “o Congresso Nacional a fazer todo o possível para ajudar a garantir que os responsáveis pelas ameaças contra o Sr. Wyllys sejam responsabilizados”.

À Fórum, Jean Wyllys revelou que foi com muita esperança que recebeu o documento da IPU.

“Recebei com muita esperança e com a certeza de que não estou tão sozinho; de que o mundo democrático se importa. A IPU é uma instituição séria, que não toma uma posição sem analisar as provas e as circunstâncias, sem levar em conta os fatos. Ela defende a democracia representativa, a pluralidade de representação e o exercício parlamentar comprometido com os valores democráticos”, disse.

Confira a seguir a entrevista na integra.

Fórum – Como você recebe esse documento da União Interparlamentar?
Jean Wyllys
– Recebo com esperança, muita esperança. E com a certeza de que não estou tão sozinho; de que o mundo democrático se importa. A IPU é uma instituição séria, que não toma uma posição sem analisar as provas e as circunstâncias, sem levar em conta os fatos. Ela defende a democracia representativa, a pluralidade de representação e o exercício parlamentar comprometido com os valores democráticos. Condena as violências que parlamentares sofrem em todo mundo por governos autoritários e organizações criminosas. Então, esse documento é importante por significar o reconhecimento da minha situação pela comunidade política internacional e, logo, reconhecimento da situação grave e de violência política em que se encontra o Brasil.

Fórum – Hoje, quando você lê as notícias sobre o Brasil, o que pensa sobre?
Jean Wyllys –
Nem tenho palavras para expressar… Não há palavra que traduza o sentimento de indignação e o tamanho da compaixão com as vítimas. Mas eu não posso dizer que estou surpreso. Eu me exilei justamente porque sabia o que viria, já que fui, durante meus dois mandatos, vítima frequente desses criminosos, especialmente das máfias neopentecostais e da família do agora presidente; e tudo isso com a cumplicidade da homofobia social e institucionalizada. Eu lamento, sigo lutando contra esse mal, mas não estou surpresa. A única surpresa nessa história é a COVID-19 e sua instrumentalização para o genocídio em marcha.

Fórum – Nas eleições de 2020 tivemos inúmeras vereadores travestis e feministas negras eleitas, porém, uma série delas tem recebido ameaças de morte e pouco ou quase nada é feito por parte dos poderes. O Estado brasileiro é parte do ódio às LGBT, mulheres e pessoas negras?
Jean Wyllys
– A homofobia e a transfobia, assim como o racismo, têm sua expressão nas instituições e na maneira como estas consideram algumas vidas humanas mais válidas que outras. Aliás, os próprios partidos a que pertencemos não tratam a questão com a devida atenção e deixa à cargo do indivíduo se proteger sozinho. Vejo a injustiça que foi cometida comigo se repetindo, lamentavelmente.

Fórum – Acredita numa derrota do bolsonarismo em 2022?
Jean Wyllys – Se os egos forem deixados de lado e o bem comum colocado em primeiro plano, sim. Do contrário, a ditadura será implantada de vez.

Fórum – São dois anos de exílio, como você está hoje, no sentido espiritual. E como definiria viver no exílio.
Jean Wyllys – O exílio é o difícil entre-lugar. Mas estou de pé, com vida e resistindo com beleza e arte, porque é um dever ético.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).