sexta-feira, 18 set 2020
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Você mataria seu ex-marido se ele tentasse te matar? J., policial, matou

Longe de mim ser o Datena do feminismo ou reverberar discurso de bolsominia que acha que vai resolver problemas carregando uma arminha na bolsa, mas olha só: J., de 46 anos, uma major da Polícia Militar, estava chegando em sua casa e foi surpreendida pelo ex-marido; ele a esperava com uma faca e ameaçou matá-la. Ela sacou a arma, atirou. Ele acabou morrendo na Santa Casa de Campo Grande.

A policial tinha medida protetiva contra o ex e o caso está sendo investigado pela Polícia Civil.

No perfil do ex-marido em redes sociais, muita dor de corno, sertanejo sofrência, fotos de cerveja, amigos dizendo “só não vai ficar me ligando bêbado”, indicações que ele não lidava bem com o fim do relacionamento.

O que aconteceria com J. se ela não estivesse armada? Provavelmente seria mais uma vítima de feminicídio. “Ele não aceitava o fim do relacionamento”. Quantas mais?

Agora vamos tentar entrar na cabecinha da lógica bolsonarista. Suponhamos que todas as mulheres se armassem e tivessem aval para atirar em legítima defesa. Ia resolver o problema da violência? Ou ia rolar uma onda de mortes?

Ia morrer homem pra caramba, hein. Se a cada tentativa de estupro ou violência rolasse tiro, o pipoco ia comer solto – isso, claro, na situação hipotética na qual todas as mulheres estivessem armadas. Iam culpar quem, as feministas? A gente nem defende essa ideia, sai pra lá.

O que causa esse tipo de violência é a noção de que a mulher é posse do homem. Há casos em que mulheres fazem isso? Há. Mas não é uma questão estrutural.

No brasil, a cada duas horas, acontece um feminicídio. Ou seja uma mulher é morta por ser mulher. Muitas delas têm boletim de ocorrência, medida protetiva, saíram de casa, e estão tentando cuidar das suas vidas.

J. conseguiu se defender. Mas ela não tinha que precisar disso. A violência de gênero não vai acabar dando tiro em homem, vai acabar quando a sociedade cessar de normalizar a violência contra a mulher, seja verbal, moral, psicológica, patrimonial ou, finalmente, física. Não há B.O. ou medida protetiva que resolvam.

A normalização da violência contra a mulher acontece todos os dias. Acontece quando o presidente ofende uma jornalista. Acontece quando o machismo é tolerado e exaltado em espaços de poder. Acontece quando nossas vidas são julgadas por nossa conduta na intimidade, pela roupa que estamos usando ou a música que escutamos. Acontece quando tentam usar nossa imagem para nos atacar – uma mulher que não seja uma boneca dentro dos padrões ou “uma senhora de respeito” não merece espaço. E mesmo aquelas que andam na linha estipulada pelos machistas delirantes conservadores defensores da biologização de comportamentos sociais e que adoram tanto decidir que posição devemos ocupar na sociedade quanto arrumar desculpas para assediadores e estupradores baseado na “falta de controle” causada pelo instinto.

A quem interessa que não se discuta gênero? Apenas aos conservadores terroristas que têm medo de bagunçar o que consideram a ordem natural das coisas. Olha só: não existe essa ordem natural. Existe uma ordem estabelecida. E nós estamos aqui para mudar essas regras.

Clara Averbuck
Clara Averbuck
Escritora e jornalista, autora de 9 livros.