quinta-feira, 24 set 2020
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Zika e eugenia, o mito que precisa ser desfeito

O Estado que abandona é o mesmo que criminaliza.

Por Adriana Dias*

Peço a você que me lê: compaixão. Compaixão pela mulher que sofre ouvindo que seu filho terá uma doença incurável. Compaixão pela mulher que sofre, pobre, nordestina, com outros filhos, sem ajuda governamental, com bolsa família já cancelado. Estão cancelando aos milhares, e são os pobres que vem sua vida partida no cancelamento.

Peço compaixão pela mulher que sofre ao saber que seu filho terá com algo inexplicável e que ela não entende. Algo que a assusta, que a deixa com um choro sem fim, com um sufocamento sem fim. Compaixão pela mulher que sofre ao saber que perdeu a sanidade diante de um Estado que não cuida minimamente de seus filhos, e nunca lembra de suas filhas, nem grávidas, e se elas esperam por um filho tão doente e sofrem, apenas a abandonam de vez.

Peço a você que me lê compaixão. Compaixão pela mulher completamente abandonada pelo Estado e em sofrimento psíquico grave.

Esse é o primeiro fato. A mulher completamente abandonada pelo Estado e em sofrimento psíquico grave.

Vamos ao segundo fato: segundo a OMS “o nível de alarme é extremamente alto” para os riscos de má-formação no feto causada pelo zika. Há comprovações de alterações graves e gravíssimas em gestações afetadas pelo zika do primeiro ao quarto mês. E não falo de microcefalia. Falo da síndrome congênita do zika, nome verdadeiro da síndrome que acomete a criança gestada que para além da característica mais divulgada pode ter cegueira, surdez e uma infinidade de condições congênitas causadas pela doença transmitida pelo mosquito.

Esse é o segundo fato: a má-formação fetal pelo zika.

O primeiro fato é a mulher sofrendo ao ouvir do segundo fato.

Descriminalizar o aborto em caso de zika não é eugenia. Primeiro, porque não seria uma imposição estatal, seria uma escolha da mulher. Da mulher em sofrimento psíquico. Uma escolha dela.

Segundo, porque não é para melhorar a raça. É para salvar as mulheres, de um drama social imenso, do qual o Estado se ausenta.

Terceiro, porque é hipócrita criminalizar apenas as mulheres pobres, exigindo delas que sofram com seus filhos, enquanto o Estado cuida de enriquecer os ricos, e as mulheres da elite tem acesso ao aborto de forma completamente tranquila em clínicas refinadas.

Ouça as mulheres que sofrem. Tenha compaixão.

*Adriana Dias é  bacharel em Ciências Sociais em Antropologia,Mestre e Doutoranda em Antropologia Social – tudo pela UNICAMP. É coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia, e coordenadora de pesquisa tanto no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) quanto na ONG ESSAS MULHERES (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência).  É Membro da American Anthropological Association,e foi membro da Associação Brasileira de Cibercultura e da Latin American Jewish Studies Association.

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