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24 de setembro de 2018, 15h26

Daniel Trevisan Samways: “Bolsonaro e o antipetismo”

É imprescindível denunciar o fascismo da candidatura de Bolsonaro. É urgente defender todos aqueles que são ameaçados por esse discurso. É preciso se colocar ao lado da democracia e da liberdade

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Por Daniel Trevisan Samways*

Alguns analistas afirmam que essa eleição será marcada pelo antipetismo contra o petismo. Discordo. Bolsonaro não cresceu apenas por conta de seu antipetismo, mas por se colocar como o candidato do antissistema ou do anti-establishment, e por apresentar propostas reacionárias. O antipetismo explica algumas coisas, mas não tudo. O crescimento de Bolsonaro é o sinal que uma parte do eleitorado foi contaminada pelas suas propostas, que, diga-se de passagem, não são apenas contra o PT, mas contra conquistas históricas do mundo democrático. Seus eleitores se sentem ameaçados pelo empoderamento das mulheres, dos mais pobres, dos negros e da comunidade LGBTQI. Também se incomodam com o fato de que parte desse empoderamento possa acontecer nas escolas, por isso a perseguição a professores e a crítica a disciplinas como Filosofia e Sociologia, bem como a defesa do abjeto projeto Escola Sem Partido. Os eleitores de Bolsonaro se preocupam com a violência, mas querem uma solução com mais violência, baseada na ordem e na porrada, talvez porque agem assim na sua vida cotidiana. Acreditam que, magicamente, Bolsonaro vai desburocratizar a economia e ela será mais fácil e melhor, mesmo que isso signifique o fim de diversas políticas públicas, já anunciadas pelo candidato.

Alguns discursos afirmam que esses eleitores são “cidadãos de bem”, preocupados ou desamparados pelo atual sistema. Mas isso não os torna menos responsáveis pelo avanço do autoritarismo, como se seu sofrimento fosse uma carta branca para colocar um ditador em potencial no poder. Se acreditarmos nisso, sempre veremos a sociedade como massa de manobra, passiva, sem nenhum potencial e sempre inocente. Se Bolsonaro chegou a esse ponto, liderando as pesquisas, é porque parte do eleitorado pensa como ele, ou pelo menos tolera suas posições. Não dá pra dizer que não sabem de suas propostas, sendo que elas são públicas e dão o tom de sua campanha.

Por isso julgo um erro atribuir uma polarização do petismo contra o antipetismo. Não, não é. É a polarização entre a barbárie e a democracia. Entre o fascismo e a liberdade. Caso Ciro vá ao segundo turno – e ele tem potencial para isso – sua campanha será bombardeada pelo pânico moral dos bolsonaristas, que trarão, da mesma forma, valores como família, religião, sexualidade, drogas e todo o velho discurso. Será assim com qualquer candidato do campo progressista que for ao segundo turno, não apenas com Haddad.

A candidatura de Bolsonaro representa, em certa medida, a tentativa de volta a um passado idealizado, no qual as coisas eram, segundo seus eleitores, mais definidas e com mais ordem. Isso não é uma novidade. Em diferentes momentos da história, “cidadãos de bem” se sentiram ameaçados e apoiaram líderes autoritários, e precisam ser responsabilizados por isso, como devem ser agora. Alguns podem argumentar que isso é queimar pontes, mas os bolsonaristas já as queimaram faz muito tempo.

Por isso é imprescindível denunciar o fascismo da candidatura de Bolsonaro.

É urgente defender todos aqueles que são ameaçados por esse discurso. É preciso se colocar ao lado da democracia e da liberdade.

*Daniel Trevisan Samways é doutor em História e professor no Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM)


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