No rastro do óleo do Nordeste
03 de outubro de 2018, 20h23

Luiza Coppieters: “Organizar-se para um novo tempo”

Um povo faminto se levanta, mas, desorganizado, é facilmente reprimido e massacrado. E não nos esqueçamos que as PMs vêm sendo há décadas brutalmente militarizadas e bem treinadas desde as jornadas de junho de 2013

Foto: Nelson Jr./ASICS/TSE

Por Luiza Coppieters*

É bonito ver como as eleições mobilizam as pessoas. Este momento da democracia é um estímulo à participação. Num país de parca democracia como o nosso, em que a concentração dos meios de comunicação, a desigualdade social, a educação precária e estrutura política, entre outras coisas, são os grandes impeditivos da democracia de fato, o fato de se ter eleições propicia o posicionamento, o debate, a movimentação.

Por outro lado, é uma pena que vemos graves indícios de que o pouco que dela resta está para acabar. Fortes indícios, inclusive por agentes que participam do processo eleitoral. Um candidato a vice dizendo que uma Constituição não precisa de participação ou de representantes do povo. Um candidato já se antecipando e dizendo que haverá fraude. Nunca é tarde lembrar que todo o caos em que nos mergulhamos se deveu, em boa parte, a um candidato que perdeu e não aceitou o resultado e alegou que a vencedora fraudou as eleições, contestando a chapa vencedora.

Militares se manifestando através de redes sociais. Jornalistas – parece que ainda são nomeados assim – abertamente defendendo Constituição sem povo, golpes ou golpistas. Um professor de História de universidade pública, em rede pública de televisão, dizendo que “Estado Democrático de Direito é para defender criminoso” e “o trânsito em julgado é para bandido” – para desespero daqueles que dizem que basta um livro de História a quem diz que nazismo é de esquerda ou que não houve ditadura no Brasil que esse “engano” se reverterá. Quanto ao STF, não parece ser necessário dizer muito, pois o senador Romero Jucá disse tudo em áudio que ficou gravado para a posteridade.

A esperança que as eleições agora aventam em parcela da sociedade parece cegar ao que de fato está se construindo. Se antes me parecia que as eleições iriam selar o golpe de 2016, instalar a “normalidade democrática” para que o mercado pudesse colocar seu “testa de ferro” e assim tomar conta dessa jabuticaba que é o Brasil, país de 207 milhões de habitantes com o SUS, Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, universidades públicas, bolsa-família, museus etc., agora a elite brasileira parece ter abandonado essa boa vontade com a “democracia”. A elite econômica cavalga para o tudo ou nada, levando em seu bojo o Judiciário, as Forças Armadas e a imprensa. O capital internacional, que a financia, aguarda, pronto para dar a salvaguarda e anunciar a legalidade da barbárie que se avizinha.

Do outro lado, um grave problema: a organização. Até se é capaz de alguma mobilização. Mas com o Titanic-PT, que enquanto navegava produziu profundas avarias no quesito organização para não criar conflitos na política de conciliação, ao afundar arrastou tudo ao seu entorno. Incapaz de se organizar e, assim, mobilizar de forma orgânica e estruturada parcela relevante da sociedade, como resistir à violência pura que se apresenta (não será mais ódio, mas terror e terror de Estado)?

Não estamos, pois, diante de uma eleição ou da escolha ou rejeição de um nome. Estamos diante das baionetas e de seus patrões, mercadores que querem tomar posse de tudo, custe o que custar. A questão, ao que tudo indica, é saber quando e como o farão, já que há uma grande parcela da população que está sentindo na pele os efeitos da tal austeridade – nome difícil que visa esconder as políticas neoliberais, as quais foram aprofundadas pelo governo golpista, como a reforma trabalhista, o teto de gastos e cortes em investimentos, enfim, o desmantelamento do Estado. Um povo faminto se levanta, mas, desorganizado, é facilmente reprimido e massacrado. E não nos esqueçamos que as PMs vêm sendo há décadas brutalmente militarizadas e bem treinadas desde as jornadas de junho de 2013.

*Luiza Coppieters é professora de Filosofia, transexual e militante feminista e LGBT


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