quarta-feira, 30 set 2020
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“Nesse ritmo, em dez anos a Caixa vai deixar de existir”, alerta líder dos trabalhadores do banco

Em entrevista à Fórum nesta terça-feira (7), o presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), Jair Pedro Ferreira, discorreu sobre os planos do governo de Jair Bolsonaro de privatizar o banco público. Mais cedo, veio à público que o governo já teria convocado o banco norte-americano Morgan Stanley para assessorar a abertura de capital da Caixa Seguridade, braço de seguros da CEF.

“Eles estão diminuindo a capacidade da empresa de continuar, propondo arrumar mercado e vender uma parte de um serviço que é público”, disse Ferreira. “Se for pra entrar na ciranda financeira, não faz sentido ter uma empresa pública seguindo as regras dos acionistas, que depois você se torna refém do mercado”, analisou.

Ferreira afirmou que a venda de ativos é um mecanismo de desmonte da empresa e, por isso, preocupa os trabalhadores: “O presidente disse que já vendeu 15 bilhões de ativos e vai vender ainda mais agora. Isso nos preocupa, porque está tirando a capacidade do banco de produzir riquezas.”

Essa medida, para a Fenae, faz parte da linha administrativa do atual governo e da presidência da Caixa e, portanto, não é isolada. “Tudo que os empregados, que a sociedade construiu ao longo de 158 anos… a Caixa vai fazer 159 anos! O que essas pessoas estão propondo é você vender isso, aquilo que se foi fazendo ao longo do tempo, que serve pra Caixa ter recursos para financiar desenvolvimento, infraestrutura. Ou você tira isso de verbas orçamentárias ou da rentabilidade de produção da empresa.”

“Hoje, a caixa tem 82 mil empregados. Se você começa a vender, como o presidente da Caixa disse que faria, você está desmontando um grande empresa, um grande banco”, pontuou Ferreira.

“O papel deles [governo Bolsonaro] é destruir (…) Nesse ritmo, em menos de 10 anos não vai existir mais a Caixa”, alertou.

Papel social 

Segundo o presidente da Fenae, a perda de ativos da Caixa resultará em uma diminuição do banco, que ficará restrito às mesmas áreas de atuação do capital privado. “O Brasil vai perder uma grande ferramenta, um grande ativo de fazer políticas públicas, de ir para locais onde os grandes bancos não irão. Ele está transformando uma empresa que tem ativos de 2 trilhões numa empresa pequena, num banco menor. Vai deixar de atender todos os municípios e estados brasileiros e vai focar onde dá lucro”, explicou.

Além disso, de acordo com Ferreira, todo esse processo faz parte de uma linha de governo que não atende às necessidades dos trabalhadores: “A leitura que a gente faz é que o governo não está interessado na população, nos trabalhadores, em criar emprego, diminuir a desigualdade, a pobreza. Essa tem que ser uma tarefa da sociedade brasileira e a Caixa como banco público tem um papel importante nesse aspecto. Se eu começar a fazer isso daqui a 2,3 anos, quem vai tomar conta do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida?”, questionou.

“É uma política que você privilegia quem tem dinheiro. Quem é o investidor que vai comprar ações? Não é a grande parte da população brasileira”, considera Ferreira, sobre as ações gerais do governo Bolsonaro. “É um tipo de negócio [a privatização e venda de ativos] que você vai fazer para privilegiar um percentual pequeno da sociedade brasileira em detrimento da sua grande maioria. Estão diminuindo o tamanho da Caixa, a sua capacidade de funcionamento, de investimento, o que vai diminuir, acabar, inclusive, com uma grande empresa que pode atender a sociedade brasileira, gerar renda e emprego”, pontuou.

De acordo com Ferreira, o desmonte da Caixa e sua possível privatização terão impacto direto no cotidiano da população brasileira: “A Caixa tem agências em mais ou menos 800 cidades. Diminuindo o tamanho dela, você que anda 30, 40 km para resgatar um benefício, vai precisar andar 100, 200 km, porque ela vai sair de perto de você. O principal que a gente tem é o programa Minha Casa Minha Vida, que está ameaçado, principalmente pela ausência da Caixa nesses municípios, nessas localidades. Quem vai administrar o FGTS? Diminuindo o tamanho da Caixa, o trabalhador vai ter mais dificuldade de acessar seu recurso”, declarou.

Diante da situação, está sendo organizada a campanha “A Caixa É Toda Sua”, que pretende mobilizar a população contra a venda da empresa pública. “No dia 13, em comemoração ao aniversário da Caixa, que é no dia 12, os sindicatos do país todo vão estar organizando atos em algumas agências, nas localidades principais.”

Sobre a necessidade de mobilização, Ferreira ressalta que as ações do governo contra os trabalhadores têm sido constantes: “Se você fizer umas leitura rápida, esse primeiro ano de governo Bolsonaro, é um governo que tira os direitos [dos trabalhadores], não aumenta o salário mínimo, inclusive. O clima é de muita apreensão, porque as pessoas estão preocupadas com o que vai acontecer nos próximos anos. O rumo que a presidência da Caixa, o Pedro Guimarães, está dando, ou a gente enfrenta todo mundo junto, ou seremos derrotados. […] Ele veio pra Caixa para desmontar a Caixa”, disse.

 

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