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25 de setembro de 2019, 10h00

Os filhos da invisibilidade social pagam com a vida

A cegueira social desse Brasil vem, em muito, da preocupação em manter seus privilégios "merecidos" aliada à busca insana em aproximar-se das elites e afastar qualquer possibilidade de aproximação de emergentes da pobreza

Agatha, o pai e a mãe, com a boneca preferida no enterro da filha (Montagem sobre foto de Bruno Itan/ Olhar Complexo)

Por Daniela Santos Gomes da Silva*

Os últimos acontecimentos no Rio, marcados pelo assassinato da menina Agatha Félix, de apenas 8 anos de idade, na sexta-feira (20/09), me levaram a reflexões e questionamentos sobre segurança pública, responsabilidade com o voto, compromisso social, desigualdades, privilégios e privilegiados, condenação histórico-estrutural das comunidades periféricas à marginalidade, à invisibilidade social, econômica e política, e a total falta de dignidade humana.

Por diferentes motivos nas dimensões econômica e política, mas semelhantes nas questões morais, boa parte das favelas e periferias e da classe média elegeram, em 2018, o governador do Rio de Janeiro e o presidente da República. Ambos nunca esconderam suas plataformas políticas, tão alinhadas e comprometidas com a violência e a condenação da pobreza, das periferias, dos excluídos. Nessa nova ordem de um jogo teopolítico nefasto estava claro quem seriam os únicos perdedores. Quem seria eliminado.

É fato que os excluídos ajudaram a eleger seu próprio exterminador. Talvez, numa tentativa desesperada de dizer: olha, nós também somos humanos, cidadãos de bem, trabalhadores. Nós também somos brasileiros e amamos nossa pátria. Pagamos impostos. E merecemos isso aí que vocês estão prometendo… merecemos ter segurança, ter educação, ter emprego, ter saúde. Merecemos viver com dignidade, tal como quem vive nos prédios e condomínios, quem frequenta clubes. Merecemos ter esperança e sonhar com um futuro melhor.

O desabafo dramático do avô da menina Agatha reverbera as razões subjetivas e, talvez, inconscientes de justamente os potenciais alvos terem dado poder a seus carrascos. No auge da sua infinita e avassaladora dor, disse o avô de Agatha: “ela é filha de trabalhador. Ela faz balé e fala inglês”. Especificamente essa fala me chamou atenção. Invadiu minha alma e ainda por todos os cantos. É como se ele dissesse: como uma menina de família, cheia de vida e com futuro promissor morreu pelas mãos de quem deveria nos proteger? Fizemos de tudo para também sermos reconhecidos como humanos, como cidadãos brasileiros, e vocês atiram nas costas da nossa menina? O que ela fez de errado para a sociedade brasileira?

Agatha não fez nada de errado, era uma criança inocente e feliz. Na verdade, enganaram as periferias. Nos enganaram. Nesse país, a cor da pele e a condição social é o que define quem deve viver e quem deve morrer. E, cruelmente, as Agathas das favelas, das periferias, dos quilombos, das aldeias, dos sertões do Brasil estão condenadas a vulnerabilidades sociais, ao desprezo da sociedade e do Estado brasileiro. Não importa se as Agathas e os Kauans do Brasil cumpram as premissas estabelecidas para serem reconhecidos como “cidadãos de bem”, buscando estudar, trabalhar, pagar impostos, ir à igreja. Pois, a classe social e a cor da pele são preponderantes na equação que condena comunidades periféricas à invisibilidade social e define quem morrerá.

Se pobres e periféricos estão pagando com a própria vida, a parte da classe média que votou na dupla Witzel-Bolsonaro segue a vida encastelada em seus prédios gradeados, com seus carros do ano, planejando suas viagens internacionais. Segue acreditando que tem direito a tudo isso porque estuda, trabalha, faz concurso público, tem empresa, empreende, paga impostos e é abençoada por Deus. Essa classe média não costuma refletir o porquê de ter seu direito à cidadania garantido, enquanto grande parte da população não tem acesso ao básico para sobreviver e está condenada a não ter dignidade e, menos ainda, cidadania. Não costuma expandir seu olhar para além dos seus muros sociais, que dirá considerar válido extrapolar garantias de direitos àqueles que estão à margem do seu escopo social.

E segue sem reconhecer que as atrocidades promovidas pelos governos são também resultado do voto egoísta depositado nas urnas, o que se traduz numa conveniente miopia social. Essa classe média não conhece a história Brasil, tão pouco quer saber se a estruturação socioeconômica da sociedade brasileira ocorreu ancorada na exploração e desumanização das pessoas de pele escura, no fomento da desigualdade e da pobreza. Simplesmente, acredita que tudo ao seu redor é seu por merecimento e que o país é seu playground. E assim não há compromisso social, pensamento coletivo, responsabilidade sobre as escolhas.

Ah, mas tragédias como essa acontecem há décadas, dizem aqueles que tentam justificar as ações do governador. Sim, porém, foram aprovadas nas últimas eleições a governos sem projeto de sociedade, sem propostas para o desenvolvimento social e econômico do país, não disseram como iriam gerar empregos, combater a pobreza e eliminar a fome; não revelaram os planos para fortalecer a indústria, a ciência, a tecnologia e a inovação do país; não apresentaram quais seriam as estratégias para a educação e a saúde públicas. Tanto o governo federal quanto o estadual foram aprovados por seus eleitores apresentando apenas chavões neoliberais e teopolíticos com garantias de mais violência contra os mais vulneráveis.

Diante de tragédias como o assassinato de Agatha, essa parte do Brasil se recusa fazer qualquer tipo de reflexão, e, de maneira superficial e descompromissada, apenas diz: que tristeza! Isso quando não se cala ou ainda, sem pudores, justifica e apoia tamanha violência. Diante da fome e da miséria, faz caridade duas vezes por ano para confortar o ego de cidadão de bem. Mas repudia veementemente políticas públicas de inclusão social e de reparação histórica. Na verdade, preocupa-se com o mercado financeiro, com o valor do dólar, com a corrupção (mesmo que agentes corruptos manipulem instituições e a própria sociedade num jogo de tomada de poder, usando como pano de fundo o combate à corrupção). Preocupa-se se empresas públicas, com alguma abertura privada, vão dar prejuízo aos acionistas. Neste caso, a sociedade brasileira que arque com qualquer ônus.

A cegueira social desse Brasil vem, em muito, da preocupação em manter seus privilégios “merecidos” aliada à busca insana em aproximar-se das elites e afastar qualquer possibilidade de aproximação de emergentes da pobreza. Então, manter populações periféricas com educação precária voltada para manutenção da ignorância e não para a construção do pensamento livre e crítico; sem acesso à saúde preventiva e integral, muitas vezes só têm serviços paliativos; sem emprego e tendo que trabalhar de dia em qualquer coisa de qualquer jeito para poder ter o que comer à noite; e sob a assombração da falta de segurança pública.

Trata-se de um perverso projeto de poder que impõe inúmeras violências a milhões de brasileiros todos os dias. Sendo a fome a mais desumana das violências e o tiro de fuzil nas costas de uma menina a mais covarde das violências cometida pelo Estado brasileiro, com aprovação daqueles que se negam a construir um país socialmente mais justo e inclusivo, e economicamente mais competitivo e sustentável. Assim, as elites econômicas e políticas do país se apresentam como as maiores beneficiárias de seu próprio sistema, o qual historicamente define quem viverá e quem morrerá; quem será reconhecido como ser humano e quem terá esse reconhecimento negado.

Falhamos enquanto sociedade, enquanto humanidade. Cabe a todos nós pensarmos onde e como chegamos aqui. Refletir sobre o alto custo pago até agora. Precisamos buscar um outro caminho e construir uma sociedade que não cale a esperança nem mate os sonhos das famílias e de suas crianças, dos seus cidadãos. Não sei mais o que dizer e só me resta envergonhadamente pedir desculpas. Desculpa Agatha. Desculpa Agathas do Brasil.

 

*Daniela Santos Gomes da Silva é Estatística de formação, Pesquisadora Social e mestre em Estudos populacionais e pesquisas sociais pela ENCE/IBGE


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