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27 de fevereiro de 2019, 05h45

Pesquisa sobre governo Bolsonaro retrata mais “desejo” que avaliação, diz Alberto Carlos Almeida

Um dos maiores especialistas sobre o comportamento do eleitor no Brasil explica que os primeiros meses de um novo governante refletem uma espécie de “lua de mel” com a população; ainda assim, primeira avaliação de Bolsonaro é pior que a de seus predecessores

Foto: Agência Brasil

Nesta terça-feira (26) foi divulgada a primeira pesquisa de avaliação do governo de Jair Bolsonaro. Encomendado pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), o levantamento do Instituto MDA apontou que, passados quase dois meses desde que assumiu o Executivo brasileiro, Bolsonaro é avaliado positivamente por 38,9% da população.

Este é o número mais modesto apresentado pela pesquisa. Em outros recortes do mesmo estudo, o novo governo apresenta um nível considerável de confiança. Por exemplo: para 51,3% da população, a questão do emprego vai melhorar com o governo de Bolsonaro; 41,7% acredita que o capitão da reserva resolverá os problemas da saúde; para 47,2% a área da educação também será melhorada e para 53,3% dos entrevistados o novo governo fará um bom trabalho na área de segurança pública.

Para o cientista político Alberto Carlos Almeida, autor dos livros “A cabeça do brasileiro”, “A cabeça do eleitor” e “O voto do brasileiro”, a confiança refletida pela pesquisa indica uma espécie de “lua de mel” que praticamente todos os novos governantes, seja de prefeitura, governo estadual ou federal, passam com seus eleitores nos primeiros meses de mandato. Mesmo que o governo esteja atolado em trapalhadas, crises, mandos e desmandos nos quase dois primeiros meses, este é um período em que as pessoas preferem “esperar” para avaliar.

Neste sentido, Almeida aponta que a pesquisa CNT/MDA sugere muito mais um “desejo” da população do que uma avaliação propriamente dita.

“Todo governo eleito pela primeira vez – como foi com FHC e Lula – tem uma espécie de lua de mel. O eleitor prefere aguardar um pouco para avaliar. E aí vem alguém e faz a pergunta. Então, a pessoa é obrigada a avaliar, apesar de, no fundo, não querer. Ela quer dar um tempo para o governo. E aí como se responde a uma pergunta dessas? A pessoa responde com esperança, afinal mudou o governo e ela espera que dê certo. Então, tem uma parte imensa que responde pensando isso. Essa primeira avaliação, dos primeiros meses, retrata mais um desejo de que o governo seja daquele jeito do que propriamente uma avaliação. A população ainda não considera que tenha um tempo suficiente pra que se faça uma avaliação com propriedade”, explica Almeida.

Apesar dos níveis de confiança serem relativamente altos, a aprovação do governo de Jair Bolsonaro propriamente dita (38,9%), de acordo com Almeida, é de fato bem mais baixa que a de seus três predecessores. A primeira pesquisa de avaliação do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, em 1995, por exemplo, foi feita em março daquele ano e o ex-presidente tinha 41% de aprovação, de acordo com o CNI/Ibope. Já Lula foi avaliado em pesquisa logo no primeiro mês, em janeiro de 2003, e atingiu os 56,3% de aprovação, de acordo com o instituto Sensus. Dilma Rousseff, por sua vez, tinha 49,2% de aprovação na primeira pesquisa de avaliação, feita em agosto de 2011 pelo mesmo instituto MDA.

Para Almeida, uma série de fatores podem ter contribuído para que a primeira avaliação de Bolsonaro apontasse um número abaixo da média. “De fato a avaliação do Bolsonaro começa pior que a avaliação do FHC, do Lula e da Dilma no primeiro mandato. É difícil dizer o que está causando, mas de fato a avaliação do Bolsonaro é bem pior que a dos três anteriores. É difícil dizer: pode ser uma população mais exigente, mais radicalizada, com mais gente disposta a avaliar negativamente seu adversário. Pode ser também uma espécie de efeito inércia de uma crise econômica muito forte”, arrisca o especialista.

Quanto às expectativas da popularidade do presidente nos próximos meses, o cientista político aponta que o desempenho da economia será fator determinante. Ele chama a atenção, no entanto, para o fato de que se o desenrolar do governo seguir os parâmetros desses quase dois primeiros meses, a tendência é que a aprovação caia, uma vez que “politicamente o governo está indo muito mal”.

“Tudo vai depender do desempenho do governo, basicamente se a vai economia melhorar ou não. As pessoas estão cansadas, muito tempo de crise, poder de compra reduzido, desemprego, recessão. Então, se criou uma esperança com um oposicionista e esse oposicionista gerou toda essa expectativa. Caso ele não realize, essa avaliação, de fato, pode piorar. Mas se as pessoas sentirem melhora na oferta de emprego e poder de compra, essa avaliação poderá melhorar. A julgar por como o governo está se comportando nesses quase dois meses, politicamente está indo muito mal. Se ele continuar assim, não vai conseguir, de fato, resolver os problemas e a avaliação tenderá a piorar”, pontua.

Confira a íntegra da pesquisa CNT/MDA aqui.


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