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27 de julho de 2018, 08h04

PF continua intimidando e ameaçando professores da UFSC

O professor Aureo Mafra de Moraes, chefe de gabinete da reitoria está sendo investigado há cinco meses sob a suspeita de atentado contra a honra da delegada Erika Mialik Marena

Luiz Carlos Cancellier de Olivo, reitor da UFSC que se suicidou em 2017.

A Polícia Federal continua intimando e ameaçando professores na UFSC, mesmo depois do suicídio do ex-reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Desta vez a investigação recai sobre o professor de jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Aureo Mafra de Moraes, chefe de gabinete da reitoria. Ele está sendo investigado há cinco meses sob a suspeita de atentado contra a honra da delegada Erika Mialik Marena. As informações são da Folha de S.Paulo.

Policiais federais instauraram inquérito contra o professor por terem visto indícios de crimes de calúnia e difamação numa reportagem da TV UFSC, produzida por alunos, sobre o evento de aniversário de 57 anos da universidade, em dezembro.

O vídeo, de quase três minutos, mostra os festejos e registra “manifestações em defesa da universidade pública” e homenagens a Cancellier.

Aureo aparece na gravação em duas pequenas entrevistas. A primeira, de seis segundos de duração, resume-se a uma frase incompleta por causa da edição. “[A] reação da sociedade a tudo aquilo que nos abalou neste ano”, diz, numa referência à morte do reitor. Os policiais federais viram aí um indício de crime porque, atrás dele, havia uma faixa com críticas aos responsáveis pela Ouvidos Moucos.

“Agentes públicos que praticaram abuso de poder contra a UFSC e que levou ao suicídio do reitor”, dizia o cartaz que estampava fotos de Erika Marena, da juíza Janaína Cassol, que decretou a prisão de Cancellier, e do procurador da República André Bertuol, responsável pela operação no Ministério Público Federal.

Também no vídeo aparecem uma faixa (“Não ao abuso de poder”) e pequenos cartazes onde se lê “Universidade rima com verdade e liberdade. Quem matou o reitor?”.

Não foi feita nenhuma menção à delegada nas entrevistas. Ao falar de Cancellier, Aureo diz que uma placa em sua homenagem “é um tributo a uma pessoa que nos deixou de forma tão trágica, tão abrupta, e que tinha um compromisso gigantesco com esta instituição, colocando no lugar de honra que todos os reitores desta instituição têm guardado, que é a galeria dos reitores”.

Aureo foi intimado pelo delegado Germando Di Ciero Miranda, no mês passado, para que ele apontasse os responsáveis pelo evento, por autorizar a entrada dos cartazes e por colocá-los visíveis atrás dos entrevistados. Aureo declarou não saber responder essas questões e afirmou que a universidade não interfere e nem cerceia manifestações.

O delegado terminou a oitiva advertindo o professor. Ele estaria obrigado a comunicar a Polícia Federal sobre eventuais mudanças de endereço.

Cancellier

A morte de Cancelilier causou grande revolta na comunidade acadêmica, bem como amigos, parentes e a população de Santa Catarina, pois ela seria um efeito direto dos “métodos” da Polícia Federal e do Ministério Público no país. Ele era investigado na operação Ouvidos Moucos, que apura irregularidades na aplicação de recursos federais para o curso de ensino à distância. Ele foi acusado, junto com outros seis investigados, de desviar R$80 milhões. Ele chegou a ser preso em agosto e foi solto em setembro, mas afastado da reitoria da Universidade. Desde então, passava por tratamento psicológico.

Em uma carta que escreveu no mês passado, Cancellier contou que foi acusado sem provas e sem direito a plena defesa, revelando, assim, as prováveis causas que o levaram a fazer tratamento psicológico e, agora, ao seu suicídio.

Operação Ouvidos Moucos

A delegada Erika deflagrou, em setembro de 2017, a operação Ouvidos Moucos da PF, que apurou supostos desvios de recursos federais na universidade. A delegada participou da Lava Jato, em Curitiba, até fevereiro de 2017, quando se transferiu para Florianópolis.

O reitor havia sido preso 18 dias antes de se suicidar pela delegada, que o acusou de obstrução de Justiça —o reitor não era suspeito de desvios de recursos.

À época, Cancellier negou qualquer irregularidade e deixou um bilhete póstumo no qual responsabilizava a operação policial pelo suicídio. O professor Aureo nunca foi incriminado na operação.

Leia mais sobre o caso Cancellier:

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