Na CPI, Contarato pressiona reverendo Amilton Gomes: “O senhor não lembra de nada?”

O religioso, que é fundador da Senah, instituição religiosa, tergiversou e não explicou como conseguiu pedir e ter uma reunião no Ministério da Saúde enquanto os laboratórios Pfizer, AstraZeneca e Butantan eram ignorados

A CPI do Genocídio retomou os trabalhos nesta terça-feira (3) com o depoimento do reverendo Amilton Gomes, que é fundador da Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah) e que atuou como intermediário da Davatti Medical Suplly ao oferecer 400 milhões de doses da AstraZeneca.

Porém, desde o começo de seu depoimento, o religioso se perdeu em datas e repetia a todo momento que não possui contatos no Ministério da Saúde (MS), afirmação que chamou atenção dos senadores, pois Gomes conseguiu o que nenhum outro laboratório obteve: uma reunião com o MS.

Entre os documentos entregues à presidência da CPI constava o pedido de uma reunião no dia 12 de março, a qual ele sugere que seja realizada às 16h. A mensagem foi enviada na manhã da data em questão e o reverendo Amilton Gomes teve o seu pedido prontamente atendido e a reunião realizada.

A partir deste fato, os senadores passaram a questioná-lo como ele conseguiu tão rápido atendimento e quem seria o seu contato dentro do Ministério da Saúde, visto que os laboratórios da Pfizer, AstraZeneca e Butantan não conseguiram um encontro com o MS, ao que o reverendo reafirmou não possuir contatos na pasta.

Diante das respostas evasivas do reverendo Amilton Gomes, o senador Fabiano Contarato (REDE-ES) resolveu pressionar o religioso para que ele explicasse o que o motivou a fazer a intermediação na compra das vacinas.

“A motivação foi humanitária, nobre senador”, respondeu mais de uma vez Amilton Gomes.

Doações

“Mas o senhor falou que a Davati ia realizar doações para a Senah. Caso fosse realizada essa venda, qual seria o valor dessa doação?”, questionou Contarato.

“Ele (Herman Cardenas) falou de doação, mas não se referiu a quantia”, respondeu o fundador da Senah.

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“Daí o interesse do senhor de participar dessa negociação e por isso o senhor não checou a fonte. O senhor tinha uma promessa de que a Senah ia receber uma doação e óbvio que o senhor teve interesse que fosse concretizado, tanto é que o senhor enviou cartas aos governadores e prefeitos”, questionou o senador Fabiano Contarato.

Como resposta, os senadores novamente escutaram: “interesse humanitário, nobre senador”. “E doação, né?”, replicou o senador.

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Em seguida, o senador Contarato questionou se a Senah já tinha recebido algum tipo de doação e o reverendo Amilton Gomes afirmou que, até este momento só realizou parcerias, mas nunca recebeu dinheiro como doação.

Posteriormente, o parlamentar voltou a questionar sobre o valor das vacinas e o religioso afirmou que não se lembrava. “O senhor não lembra de nada?”, ironizou Contarato.

Dominguetti, Cristiano Carvalho e Davati

A respeito de sua relação com Luiz Paulo Dominguetti e Cristiano Carvalho, ambos apresentados como representantes da Davati e intermediários da AstraZeneca, Amilton Gomes afirmou que levou Dominguetti ao Ministério da Saúde por acreditar que “ele tinha as vacinas”.

Além disso, o reverendo afirmou que obteve de Cristiano Carvalho um parecer que o autorizava a falar em nome da Davati. “Conheci Cristiano Carvalho a partir do Dominguetti, mas, pessoalmente apenas no dia 12 de março”, declarou o religioso.

Questionado sobre o que o teria motivado a fazer tal intermediação, Gomes afirmou que a “motivação foi colocar essa demanda de vacina (400 milhões de doses da AstraZeneca) para o Brasil. Em relação ao governo federal, a gente não tinha tantos contatos, tanto que é a nossa comunicação foi feita via plataforma digital e todos os encaminhamentos também”.

No fim de 2020, a AstraZeneca, após tomar conhecimento de várias empresas que estavam atuando em seu nome, emitiu um comunicado mundial, o qual enviou para todos os governos que não trabalha com intermediadores.

A empresa Davati Medical Suplly é investigada nos EUA e Canadá por atuar em fraudes ativas na venda de vacinas contra a Covid-19.

Vendas ao Ministério da Saúde

O reverendo Amilton Gomes também foi questionado se já havia intermediado algum outro tipo de venda ao Ministério da Saúde em troca de doações. “Que eu me lembre, não”, respondeu o dirigente da Senah.

“O senhor não lembra? Pelo amor de Deus, se o senhor me perguntasse um negócio desse eu ia responder, eu sei o quanto eu pago na conta de energia… Alguma negociação foi bem sucedida ao longo desse período?”, insistiu Contarato.

Todavia, usando a mesma técnica do início de seu depoimento, Amilton Gomes afirmou que não cuida dessa parte de negociação com os governadores e prefeitos.

“O senhor enviou essas cartas aos governadores, quantos governadores responderam? Quais governadores responderam?”, perguntou o senador da Rede.

Depois de afirmar que não cuidava da negociação com os governadores e prefeitos, Amilton Gomes afirmou que nenhuma negociação com governadores e prefeitos foi adiante.

O religioso, a verdade e as mortes da pandemia

Após sucessivas respostas evasivas do reverendo Amilton Gomes, o senador Fabiano Contarato questionou a profissão de fé do depoente.

“Veja bem, quando a gente está com a verdade… o senhor é um reverendo! Quando a gente está com a verdade, essa verdade se perpetua. Eu faço um apelo ao senhor”, clamou Contarato.

“O senhor estava ali de olho na doação, com todo o respeito, não era questão humanitária, não. Era quanto que a Senah ia receber de doação. Muito me admira o governo federal ter esse tipo de relação espúria para aquisição de vacinas: generais, coronéis, reverendos e negando aquisição de vacinas pela Pfizer”, disse o senador.

“Nobre senador, essa era a verdade, as vacinas foram oferecidas por R$ 3,50”, respondeu, mais uma vez, o evasivo Amilton Gomes.

“O interesse do Senah era qualquer um menos humanitário. 557 mil pessoas pagaram com a vida e a digital de muita gente está nessas mortes. O senhor como reverendo deveria ter essa consciência. 557 mil pessoas perderam as suas vidas, quase 20 milhões foram contaminados e estão com sequelas irreparáveis”, afirmou Contarato ao questionar novamente a profissão de fé de Amilton Gomes.

“Esse governo banalizando a vida humana, negociando através de relações espúrias, dentro de shoppings, com gabinetes paralelos. Foi provado usurpação de ocupação pública, por aqui foi provado prevaricação e agora o senhor intermediando e vendendo vacinas com a pretensão de receber doação, a faça-me o favor”, finalizou Fabiano Contarato.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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