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27 de setembro de 2018, 16h12

Rodrigo Abel: O fim para um novo recomeço

Urge a necessidade de reunirmos as forças democráticas, inclusive aquelas que foram cindidas ao longo das disputas eleitorais recentes, para a formação de uma ampla aliança cívico nacional civilizatória

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Por Rodrigo Abel*

Faltando algumas semanas para o desfecho do primeiro turno das eleições presidenciais na oitava economia do mundo, analistas políticos estão revisando suas projeções de um segundo turno onde projetavam uma disputa entre azuis e vermelhos, ou propriamente entre PSDB versus PT.

Há alguns meses, quando escrevi o artigo chamado “O signo das eleições”, apontei alguns fatores causais para a mudança deste comportamento eleitoral –   vigente no Brasil desde as eleições regulares de 1994, o qual levaria o constructo dos antagônicos ao segundo turno das eleições de 2018.

Essa operação constituinte dos antagônicos não se trata de uma novidade na literatura da ciência política – muito pelo contrário. O sociólogo argentino Ernesto Laclau em “A Razão Populista” (2013), já identificava no “discurso” o método central para a construção destas novas hegemonias, traduzidas agora, de forma mais clara, no ressurgimento dos movimentos neonacionalistas na Europa, Brasil e EUA.

Embora os discursos nestes países possam parecer por vezes contraditórios, a genética é a mesma. Enquanto no Brasil o discurso hegemônico é a luta contra a corrupção; nos EUA é a guerra contra a globalização que “rouba” os empregos; e na Europa é a luta contra a imigração que corrói a cultura europeia e desestrutura o mercado de trabalho. Ao fim, o que se estabelece por detrás destas narrativas é a assunção de uma pseudomoral superior que opera na lógica da dialética do contraditório – nunca produz síntese. Somos, portanto, eternos inimigos.

Ainda nesta perspectiva, duas leituras recém-publicadas qualificam ainda mais o argumento que apresento. Recentemente, a pesquisadora de Harvard, Woira Weigel, em artigo na revista “Serrote” do Instituto Moreira Sales, explica como o conservadorismo e a direita vêm construindo um discurso plenamente “aceitável” para uma parte da sociedade; e como esta nova forma de expressão política vem produzindo aquilo que ela chama de “álibi” para fazer oposição ao politicamente correto.

“Líderes populistas compreenderam o poder que o antipoliticamente correto tem de atrair eleitores, a maioria brancos insatisfeitos com o status quo e ressentidos com as mudanças dos padrões culturais e sociais”. (Weigel, Woira, Revista Serrote n. 29, página 46)

Portanto, quando o candidato Jair Bolsonaro ataca as mulheres ou quando seu companheiro de chapa, General Mourão, afirma que famílias desprovidas da figura do “macho” são reprodutoras da violência, ambos estão testando nossos limites civilizatórios. Para Woira Weigel, o silêncio, neste caso, é fonte vital para a produção de um discurso fortemente político.

“Fazer oposição ao politicamente correto também se tornou um modo de dar ao racismo uma fachada politicamente aceitável na era pós direitos civis”. (Weigel, Woira, Revista Serrota n.29, página 42)

A segunda leitura que contribui para refletirmos sobre o momento atual vem dos professores de Harvard, Steven Lvitsky e Daniel Ziblatt, autores do livro “Como as Democracias Morrem”.

Ao nos convidar a revisitar o passado, alertam-nos sobre o papel das elites sociais e econômicas na ascensão de Hitler, Mussolini e Chaves ao poder. Em ambos casos, incrivelmente, o “stablishment” acreditava ser possível domesticá-los.

Assim, Franz von Papen, em 1933, em meio a uma aguda crise, achava que estaria recrutando o popular Adolf Hitler para marginalizar os radicais de direita e de esquerda, dando o apoio necessário para transformá-lo chanceler alemão. Dizia Franz von Papen em palavras tranquilizadoras:

“Nós o recrutamos para nós mesmos. Em dois meses, nós o teremos colocado contra a parede de tal modo que ele vai gritar”. (“Como as Democracias Morrem”, Zahar 2018, p. 26)

Da mesma forma, o Rei Vítor Emanuel III, que via em Mussolini a possibilidade de manter o poder e neutralizar a agitação que tomava conta da Itália. Com apenas 35 parlamentares de um congresso formado por 535 mandatários, Mussolini aproveitando-se da divisão dos políticos e o medo dos socialistas, seria ungido chefe da nação.

“Com a ordem política restaurada pela nomeação de Mussolini e o socialismo em retirada, o mercado de ações italiano subiu fragorosamente. Estadistas mais velhos do “stablishment” liberal, como Giovanni Giolitti e Antonio Salandra, se viram aplaudindo a virada dos acontecimentos. Eles encaravam Mussolini como um aliado útil. Contudo, como o cavalo da fábula do Esopo, a Itália logo se viu sob as rédeas e esporas”. (Como as Democracias Morrem, Zahar 2018, p. 24)

Ao fim, aponta-se aqui a imperiosa necessidade de se enfrentar o discurso das falanges de forma mais direta, impondo-lhes os limites que a própria democracia nos oferece por meio da nossa Constituição; e por outro lado, urge a necessidade de reunirmos as forças democráticas, inclusive aquelas que foram cindidas ao longo das disputas eleitorais recentes, para a formação de uma ampla aliança cívico nacional civilizatória.

Não se trata de uma tarefa fácil. Longe disso.

Mas é o fim para um novo recomeço.

*Rodrigo Abel é cientista político e membro da Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia

 


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