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02 de outubro de 2018, 22h17

Vinícius Wu: Não é uma onda fascista, é uma onda anti-sistêmica

Aí está o erro fundamental dos opositores de Bolsonaro. A insistência no mesmo repertório e recursos pode facilitar, enormemente, a vida do candidato do PSL nos próximos dias

Foto: Alex Ferreira/Câmara dos Deputados

Por Vinícius Wu*

O Datafolha de 02.10 confirma o crescimento de Bolsonaro, apontado anteriormente pelo Ibope. Fiz alguns comentários sobre a tendência identificada por aquele instituto. (segue o link: https://www.facebook.com/vinicius.wu/posts/10156337477718283).

Seguem agora, então, alguns comentários sobre o que considero o erro fundamental presente nas estratégias de enfrentamento a Bolsonaro desenvolvidas até aqui. A insistência no mesmo repertório e recursos pode facilitar, enormemente, a vida do candidato do PSL nos próximos dias.

Indo direto ao ponto: desde 2016, busco, através de pesquisas quantitativas, qualitativas, análises de redes sociais e conversas com eleitores de Bolsonaro compreender este fenômeno político que, definitivamente, não se formou neste ano eleitoral. E o que me parece bastante claro é que a força primordial de Bolsonaro reside muito antes em seu caráter anti-sistêmico do que em sua agenda e discurso protofascistas. Há muitos apoiadores do “mito” (sic) que não concordam com suas posições a respeito das mulheres, negros ou homossexuais, por exemplo, mas que seguem apoiando-o em sua suposta luta contra o “sistema”.

Assim, seguir “denunciando” sua retórica autoritária, de conteúdo neofacista, não apenas não é capaz de bloquear seu crescimento e retirar-lhe votos, como também facilita a agregação em torno dele de novos eleitores que não se sentem representados pelo atual sistema político.

Em artigo publicado na Revista Fórum no início da campanha eleitoral, havia alertado para o fato de que “(…) toda vez que há um ataque do ‘mundo civilizado’ contra Bolsonaro, ele ganha um pouquinho mais de espaço junto ao senso comum. É o irmão que convence a irmã. O vizinho que convence o vizinho. O colega de trabalho que convence um de seus pares de que ele está sendo ‘perseguido’, atacado pelos ‘políticos’, mídia e pelos ‘poderosos’”. E assim tem sido. Esta não deixa de ser também uma reação, ressentida e rancorosa contra a inteligência brasileira – o mundo supostamente ilustrado – neste país de tamanhas disparidades sociais e culturais. Uma parcela expressiva dos “novos formadores de opinião” que estão com Bolsonaro, originários das classes médias inferiores e que atuam através das mídis digitais, não se sente parte deste universo e o rejeita, desconfiam de seus interlocutores e de sua agenda.

E neste sentido, percebo com preocupação o risco dos opositores de Bolsonaro (nos partidos e na sociedade) seguirem a mesma receita, que não tem se mostrado eficaz.

Desde o início do ano, há quem fale em “unir a política”, em constituir uma grande aliança para derrotar Bolsonaro. E agora muitos acreditam ser este o caminho para derrotá-lo num eventual segundo turno. Há um risco evidente nesta aposta. Afinal, sinalizações que apontem para um “acordão” por cima, um conchavo dos “poderosos” e dos “políticos corruptos” será caminho certo para a derrota, pois, vai reforçar o perfil anti-sistêmico da candidatura de Bolsonaro. Uma eventual aliança contra Bolsonaro deve, sim, ser ampla, deve buscar combater o fascismo, mas sem trazer todo desgaste das negociatas da política tradicional, que no primeiro turno ficou concentrado em Alckmin e impediu seu crescimento. O opositor de Bolsonaro no segundo turno (se houver segundo, parece que será mesmo Haddad) terá de andar no fio da navalha. Deverá evitar posar para fotos ao lado dos Renans, Sarneys e Eunícios da vida, ainda que venha a fazer muitos acordos eleitorais com eles.

Bolsonaro é fruto de um processo político global (que o aproxima de Trump, Brexit etc.), mas que por aqui se agudiza a partir de junho de 2013 e se desenvolve, desde lá, em marcha acelerada, que pode levá-lo ao Palácio do Planalto. Ele encarna o desconforto estrutural de amplos segmentos sociais com a política tradicional, com as instituições, que não souberam acompanhar e compreender as profundas mudanças no tecido social brasileiro e na estrutura de classes no Brasil da última década;

Creio que se quisermos – e se ainda for possível – derrotar Bolsonaro, será preciso abrir mão de algumas hipóteses de explicação do fenômeno que se mostraram absolutamente insuficientes. Muitos apostaram inadvertidamente na ideia de que Bolsonaro iria “derreter” assim que começasse a campanha eleitoral. Este raciocínio se baseava – e se baseia – em duas premissas fundamentais: a) a de que os recursos políticos tradicionais iriam prevalecer sobre um candidato isolado, sem tempo de TV e alianças, e b) a de que no Brasil não haveria espaço para se formar uma hegemonia de ultradireita, protofascista, capaz de vencer uma eleição presidencial.

Esta interpretação, que prevaleceu na maioria dos partidos e organizações políticas, primeiro desconsidera as mudanças ocorridas nas estruturas de formação da opinião e circulação da informação verificadas no Brasil e no mundo das últimas décadas que, como se percebe agora, relativizou fortemente o papel da TV nas disputas presidenciais e, depois, ignora o fato de que não é o discurso fascista que mobiliza a maioria do eleitorado bolsonarista, mas seu posicionamento, sua  performance e sua capacidade de se apresentar como algo diferente de tudo o que está aí.

Abrir mão – imediatamente – da interpretação equivocada sobre o fenômeno Bolsonaro e testar novos repertórios, que possam ir além do diálogo com os setores “ilustrados”, é o único caminho para se tentar evitar o desastre. E é preciso se aproximar da linguagem, da simbologia e mesmo de alguns valores mobilizados por ele. Será preciso falar de segurança, emprego e mover um sentimento fundamental para gerar uma onda contrária a que se formou nos últimos dias: o medo.

*Vinícius Wu é pesquisador do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Política, COMP, da PUC-Rio


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