2020: com Bolsonaro e o coronavírus foi muito difícil, por Raimundo Bonfim

Chegamos ao fim de 2020 com um triste cenário de mais de 180 mil mortos pela Covid-19 e sem um plano nacional de vacinação. Fora Bolsonaro e seu governo. Impeachment já!

Para se fazer um balanço do que foi 2020, considerando o governo Bolsonaro, a Covid-19 e as eleições municipais, é necessário resgatar o que foi o ano de 2016, marcado pelo golpe que tirou a presidenta Dilma Rousseff da Presidência da República, a tomada do poder pelo governo Temer e, consequentemente, a implantação do projeto ultraneoliberal no nosso país. É preciso que se destaque que não há uma diferenciação entre os governos Temer e Bolsonaro, sendo Bolsonaro mais autoritário.

Uma das medidas mais prejudiciais ao Brasil, iniciada por Temer, foi a aprovação da EC 95, que se traduz em congelamento de investimentos nas áreas sociais por vinte anos. Isso significa, por exemplo, que só para a Saúde, em 2019, quando a EC passou a vigorar, houve a desvinculação do gasto mínimo de 15% da receita da União com a área. Um desastre absoluto, no decorrer deste ano, principalmente por ser o Sistema Único de Saúde (SUS) fundamental para as pessoas mais necessitadas, que dependem única e exclusivamente dele para ter acesso ao atendimento.  É preciso destacar que, se não fosse o SUS, o número de mortos e contaminados pela Covid-19 seria infinitamente maior. Foi o SUS quem garantiu saúde para as populações mais empobrecidas.

A Covid-19 chegou ao Brasil nos primeiros meses de 2020, acirrando um quadro de desemprego, aumento da fome e da miséria em um país governado para os donos do capital. Sem plano para enfrentar a Covid-19, Bolsonaro e seu bando se apegaram à teoria negacionista. Com isso, o vírus atingiu em cheio a população, afetando especialmente os moradores de favelas, cortiços, ocupações e periferias de todo o Brasil. Foram os mais vulneráveis os mais atingidos, foi na mesa dessas pessoas que o alimento começou a faltar ou a ficar escasso. Esses não puderam ficar em casa, ficaram expostos ao vírus, pois tinham que sair para garantir muitas vezes a comida do dia. Os mais pobres foram e continuam sendo os mais contaminados pela doença.

A pandemia alimentou as crises econômica, social e sanitária que já estavam instaladas no país, a Covid-19 foi um agravante para o que já caminhava para o desastre. Não fossem as ações de solidariedade praticadas por diversos movimentos sociais e populares, entre elas a Central de Movimentos Populares (CMP), com a campanha “Movimentos Contra a Covid-19”, que integrou a rede de solidariedade “Vamos Precisar de Todo Mundo”, muitas pessoas teriam passado por privação de alimentos. Só esta campanha distribuiu cerca de 300 mil cestas básicas, 130 mil marmitex, milhares de kits de materiais de higiene e limpeza, 70 mil máscaras de proteção confeccionadas artesanalmente, além de apoiar as cozinhas comunitárias. Foi um verdadeiro mutirão em defesa da dignidade e da vida.

Enquanto os movimentos populares organizavam pontos de coleta e distribuição de cestas e todo material de higiene e limpeza, o governo se furtava de assumir sua responsabilidade em promover ações urgentes para conter a disseminação do coronavírus. Ao contrário, por várias vezes insuflou as pessoas a se aglomerarem em manifestações contra a democracia. A manutenção das ações de solidariedade se deu concomitantemente às pressões para que o Congresso aprovasse o auxílio emergencial de 600 reais.

Com o país em pleno pico da pandemia, no primeiro semestre deste ano, Bolsonaro se manteve minimizando a gravidade do cenário que assolava o país e, numa clara tentativa de dar continuidade ao golpe, assistimos a várias investidas contra a Câmara dos Deputados e contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Grupos de extrema-direita fizeram manifestação pelo fechamento do Congresso Nacional, munidos de tochas e símbolos usados pelo movimento de supremacia branca norte-americano do Ku Klux Klan. Em outra ocasião, outro grupo invadiu a laje do prédio da Câmara dos Deputados, além de atacar a sede do STF lançando fogos de artifício. Ações com o claro objetivo de instalar o autoritarismo no país.

Inúmeras torcidas de futebol entraram em campo, tomando as ruas para protestar contra o fascismo e os desmandos do governo Bolsonaro e em defesa da democracia. A CMP participou das manifestações e enfrentou os representantes do fascismo que tentavam dominar as ruas. Em julho e agosto, a CMP e diversas entidades dos movimentos populares, sociais e partidos políticos promoveram as Jornadas Nacionais pelo Fora Bolsonaro e em Defesa da Vida, inaugurando uma nova forma de manifestação devido à recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de manter o isolamento social. Em todo país, pequenos grupos se juntaram e, com cartazes e faixas, denunciaram o governo genocida de Bolsonaro, promovendo apitaços e outras ações, todas simultaneamente.

Nem um minuto de trégua. Essa foi e tem sido a atitude dos movimentos populares frente ao projeto cruel, desumano e de morte de Bolsonaro, que abandonou o povo à própria sorte, não apoiou os pequenos e microempresários com programas e subsídios para que mantivessem seus negócios e assegurassem a manutenção de milhões de empregos

Em meados de julho deste ano, movimentos populares e partidos de esquerda protocolaram um pedido de impeachment na Câmara dos Deputados, enumerando crimes que vão desde improbidade administrativa, declarações do presidente que demonstram apologia à violência e à Ditadura Militar, passando por participação em manifestação que pediam o fechamento do Congresso Nacional, entre outros.

O início dos atentados contra a democracia se deu lá atrás, com Temer e com o juiz Sérgio Moro planejando maneiras para incriminar e condenar, sem provas, um dos maiores líderes políticos do mundo, o ex-presidente Lula. Tudo arquitetado para assumir o Ministério da Justiça de um governo que ele ajudou a eleger. Algo realmente muito estranho, para dizer o mínimo. Mais estranho ainda é que, após deixar o governo por supostas desavenças com a família do presidente, o mesmo juiz que atuou na Operação Lava Jato, que tinha como um de seus alvos o Grupo Odebrecht, será o sócio-diretor do escritório da Alvarez & Marsal, consultoria especializada em recuperação judicial e gestão de ativos e que administra judicialmente o Grupo Odebrecht.

No campo econômico e social, a verdade é que, quando Temer passou o comando do país para Bolsonaro em 2018, as linhas gerais já estavam traçadas. O país estava com um percentual de desemprego de 12,2%, com o dólar, em dezembro de 2018, a R$ 3,90; enquanto em campanha eleitoral Bolsonaro mentia com a promessa de dólar a R$ 2 reais. Hoje, a moeda já vale mais de R$ 5 e a inflação voltou com toda força para ser o grande fantasma para a classe trabalhadora. Em novembro de 2019 o dólar fechou em R$ 4,03; em novembro de 2020 bateu os R$ 5,33 e já acumula alta de 35,2% nesse período de desgoverno. O dólar não chega às mãos do trabalhador e da trabalhadora, é moeda para meganegócios entre poderosos, ricos e milionários, mas sabemos bem o que significa o real desvalorizado: é menos comida na mesa, mas carestia dos produtos, mais dificuldade para comprar o gás de cozinha, pagar a conta da energia elétrica e de água, entre outras. Alimentos básicos como arroz, óleo de cozinha e outros itens passaram a fazer parte de artigo de luxo, tamanho o preço que alcançaram.

O que temos ao final deste segundo ano do governo Bolsonaro é o país figurando no Mapa Mundial da Fome, com a maior alta dos alimentos desde 2002 e o desemprego batendo os 14,6% no terceiro trimestre, com mais de 14 milhões de desempregados.  No campo da corrupção, os escândalos envolvendo o presidente e seus familiares são gravíssimos, o mais recente dá conta de que a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) atuou no desenho de uma estratégia para defender seu filho Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas.  A catástrofe desse governo se dá em todos os campos e sabemos que, para que o Brasil se livre desta tragédia econômica, social e sanitária não há outra alternativa que não seja o impeachment, para pôr fim a Bolsonaro, a todo seu governo e sua política.

O processo eleitoral deste ano ocorreu ainda no contexto do golpe de 2016. Com o uso de mentiras, a direita venceu as eleições municipais, usando a máquina federal e o auxílio emergencial – que Bolsonaro nunca quis aprovar – principalmente por integrantes do Centrão. Mas é falsa a narrativa da grande mídia de que o PT foi o grande derrotado. Quem mais perdeu na eleição foi o PSDB do governador João Doria, se tornando praticamente um partido paulista. 

Chegamos ao fim de 2020 com um triste cenário de mais de 180 mil mortos pela Covid-19 e sem um plano nacional de vacinação. Defendemos a elaboração urgente de um plano nacional popular de vacinação para garantir a imunização gratuita de toda a população, com a coordenação dos governos federal e estaduais, com a participação dos conselhos de saúde, tanto o nacional quanto os estaduais e municipais. E é preciso priorizar as populações mais vulneráveis em todo o território nacional, não apenas nos estados e regiões mais ricas.

Somos um país que, há décadas, é referência em vacinação. É inadmissível que enquanto outros países estão se organizando ou já vacinando suas populações, ainda não temos planejamento algum, apenas jogo político que nos deixam à mercê de disputas eleitorais entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. Saúde não é mercadoria e a garantia da vida humana não pode esperar.

Para 2021 temos o desafio de organizar o povo a partir das seguintes bandeiras de lutas: Vacina já, gratuita, para todos e todas; fortalecer o SUS; denunciar e combater a fome, a violência contra a mulher, o racismo e a homofobia; lutar por emprego, pela instituição de uma Renda Básica Permanente e pelos direitos políticos do ex-presidente Lula.

Fora Bolsonaro e seu governo. Impeachment já!

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Raimundo Bonfim

Raimundo Bonfim é advogado, coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP) e membro da coordenação nacional da Frente Brasil Popular (FBP). Iniciou a militância nos movimentos populares em 1986, na Favela Heliópolis, a maior de São Paulo

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