Raphael Silva Fagundes

29 de maio de 2019, 21h24

A esquerda decidiu defender o óbvio

Raphael Fagundes: “Para as próximas manifestações é preciso pensá-las, não como respostas aos lunáticos de domingo, mas contra o sistema, contra a radicalização do capital. Não se trata de uma questão ideológica, de cores, mas de luta de classes”

Foto: Reprodução/GloboNews

Perante a iminência de cortes para a Educação, a esquerda vem se mobilizando para contornar essa medida draconiana do governo. “Que tempos são esses em que é preciso defender o óbvio”, disse o poeta.

Uma multidão saiu às ruas no domingo (26) para defender as medidas do governo. E por mais leviano que isso pareça, essa multidão ainda defendeu a queda do Congresso (Legislativo) e do STF (Judiciário). Com plenos poderes, o Executivo poderia abrir o Brasil para os investidores internacionais, enfraquecendo as instituições públicas e transformar o país em um quintal para um mercado lascivo, que pouco se importa para as vidas que aqui vivem.

Como alguém vai à rua defender a aliança entre o Executivo e o mercado? O fim dos poderes que podem mediar esta relação? Os cortes na Educação e o fim dos direitos trabalhistas? Perante a esses absurdos, as esquerdas passaram a defender o óbvio. Educação, os Três Poderes, uma Reforma da Previdência branda e outras pautas que fazem funcionar qualquer democracia liberal passaram a ser o objeto de luta das multidões que se dizem esquerdistas.

As pautas lembram as reivindicações de 2013. Mas, e se essa esquerda defendesse com mais clareza o socialismo? Provavelmente, todas as forças – mídia, Exército e empresariado – estariam bem mais preocupadas. Teríamos uma ditadura? Ou essas reivindicações se transformariam em movimentos realmente revolucionários capazes de derrubar o sistema? A conscientização se cristaliza através da luta, mas se não pensarmos em propostas realmente transformadoras, as manifestações podem virar uma questão de revanche, uma disputa vazia entre quem bota mais gente nas ruas. Às vezes, parece que um lado quer provar apenas que é maior que o outro, uma intriga que traz audiência para os jornais.

Será que defender o óbvio é o melhor caminho? Será que não é esse o projeto dominante: um conflito entre o óbvio e os radicais de direita?

A mídia cobre os dois lados, pois sabe que ambos não alteram o projeto de poder das forças econômicas que controlam o país. No “Bom Dia Brasil”, da Rede Globo, desta quarta-feira (29), chegou-se a comparar as manifestações com um grupo de capivaras que ganhou as ruas do Distrito Federal.

Uma manifestação por reforma agrária, taxação das fortunas e pela nacionalização de setores chaves para o progresso do país causaria medo às classes dominantes. A esquerda precisa voltar a ser antissistêmica e reincorporar o discurso radical, anticapitalista e por uma relativa igualdade social. Mas o que vemos é que à medida que os conservadores se radicalizam, as esquerdas tendem a se moderar, em uma linguagem popular, “nutelizar”.

Para as próximas manifestações é preciso pensá-las, não como respostas aos lunáticos de domingo, mas contra o sistema, contra a radicalização do capital. Não se trata de uma questão ideológica, de cores, mas de luta de classes. Não podemos fazer briga de torcidas, não é o povo contra Bolsonaro, mas os trabalhadores, a pedra angular do país rumo ao progresso, contra a brutalidade da acumulação capitalista. Quando seremos capazes de transformar protestos em levantes?

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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