A foto, o ódio e o enclave. O que vi em Ceuta – Por Henrique Rodrigues

Fui a Ceuta e também a Melilla, os territórios espanhóis encravados na África. O ódio dos extremistas torna tudo ainda mais doloroso. Luna Reyes, voluntária da Cruz Vermelha, é odiada por eles, mas foi abraçada pelos humanos

A imagem está rodando o planeta desde as primeiras horas de ontem. Luna Reyes, voluntária da Cruz Vermelha, acolhe um homem que quase se afogou na tentativa de entrar em Ceuta, uma cidade espanhola que fica na África.

Estive em Ceuta em 2014. Geograficamente falando, é uma aberração. Um pedaço de terra colado no Estreito de Gibraltar, do lado africano, encravado dentro do Marrocos e totalmente cercado por grades e muros altíssimos. Ali é “Europa”. É território da Espanha e da União Europeia, embora seja outro continente.

Fiquei vários dias em Tânger, uma cidade marroquina maluca que já foi área internacional no período da 2° Guerra Mundial e um antro de espiões e criminosos anônimos disfarçados. De lá, tomei um táxi coletivo para Al-Fnideq, com gente carregando frango assado, sacos de tâmaras e só esperando o sol baixar para comerem onde quer que estivessem, inclusive no acostamento da estrada (como ocorreu, e eu comi junto). Era Ramadã. Véspera do 7 x 1 vexatório para Alemanha.

De Al-Fnideq fui a pé, num calor desgraçado, até a supermilitarizada “fronteira” com a Espanha. Na verdade, fui ao complexo militar que separa o Marrocos da cidade de Ceuta, um domínio europeu dentro da África. Passei batido na fila imensa e cheia de gente miserável e o fiz por orientação de um soldado marroquino. Sou brasileiro e passaria direto, apenas apresentando meu passaporte aos espanhóis, do outro lado (na época em que ser brasileiro não era sinônimo de ser chacrete de genocida).

Recebi o “ok” habitual e segui para conhecer o lugar que tem uma história de milênios de dominação por inúmeros povos diferentes. Ainda assim uma coisa me perturbava.

Como era possível toda aquela “organização” e “riqueza” estarem separadas fisicamente de uma legião de miseráveis de diversos países africanos, desesperados do outro lado da muralha?

A Espanha mantém ainda um outro território idêntico, também no Marrocos, mas encravado no meio do deserto: Melilla, 400 km a leste de Tânger. Dois anos depois pousei lá num avião bimotor que saiu de Málaga. Mais muros, grades e gente tentando entrar de qualquer forma. O lugar é um dos mais lindos e incríveis que já conheci, mas esse contraste desumano vive revirando o estômago o tempo todo.

Eu, brasileiro, branco, podia passar, mesmo como estrangeiro, ao passo que árabes e negros se amontoavam desesperadamente para pedir qualquer coisa e implorar por ajuda.

A foto de Luna Reyes, a voluntária da Cruz Vermelha que abraça o homem negro que acabara de escapar da morte por afogamento numa travessia insana, motivada pelo mais cru e dolorido dos desesperos, gerou uma onda dupla.

De um lado, seres humanos emocionados com o ato de amor e misericórdia, do outro, o ódio xenofóbico e racista da extrema direita, mundo afora, mas sobretudo capitaneada pelo Vox, partido espanhol ultrarreacionário e de cariz franquista, conduzido pelo desviado Santiago Abascal.

Quando olho para imagem, só me imagino de um dos lados. O lado em que não há espaço para outra coisa que não seja a humanidade.

Siga em frente, Luna! Você estará sempre, em qualquer circunstância, do lado certo dessa história.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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