A polarização política a serviço do totalitarismo neoliberal – Por Raphael Fagundes

É missão da esquerda romper com o campo das ideias dominantes e mostrar a verdadeira face da exploração capitalista

Em uma palestra, Marilena Chauí, talvez a maior intelectual brasileira da atualidade, apresenta um diagnóstico interessante do neoliberalismo. Ela destaca que estamos na fase do totalitarismo neoliberal. Se Hannah Arendt chamava os governos de Stalin e Hitler de totalitários, o neoliberalismo assumiu este papel nos últimos anos.

É totalitário porque obriga tudo a se mercantilizar. A escola é uma empresa, o hospital é uma empresa, o Estado é uma empresa. Tudo deve entrar nesta lógica, falar esta linguagem, caso contrário, será excluído. Metas e custo-benefício! É uma lógica fascista, pois como diz Barthes sobre a língua, fascismo não é o que nos proíbe de dizer, mas o que nos obriga a dizer.

Este projeto só seria possível ao polarizar a sociedade. Sem colocar os cidadãos uns contra os outros por meio de um conflito moral e superestrutural, essa mudança na base seria impossível.

As relações de trabalho são alteradas criando uma instabilidade inaudita. As pessoas discutem identidade e a conservação dos valores tradicionais enquanto a base se altera e o ideal de que todo mundo deve ser um empreendedor de si vem à tona. Este liberalismo quer eliminar o trabalhador e transformar as pessoas em prestadoras de serviços. No futuro, todos venderão um serviço. O operário da fábrica venderá seu serviço de apertar parafusos, o médico o de atender um cliente e o professor de dar instruções para a empresa que o contratará por meio de um aplicativo. Sem vínculos empregatícios. Não haverá mais empregado e patrão, apenas prestadores de serviços. O próprio patrão será visto como a empresa que permitirá a realização do serviço. Tudo será como o uber ou o ifood.

Isso só é possível com o conflito que há na superfície. É como a questão do Enem, na qual suspeita-se de intervenção do governo federal no tocante à questão do feminismo e de se referir ao golpe de 1964 como “revolução”. De um lado os que defendem que foi golpe de outro os que defendem que se tratou de uma revolução. Enquanto essa discussão é levantada e repercutida nos veículos da grande imprensa, o projeto neoliberal de ensinar empreendedorismo às crianças, introduzindo este como uma matéria curricular, diminuindo o espaço das ciências humanas, é pouco debatido. Não há estardalhaço acerca dos elementos centrais deste projeto totalitário neoliberal.

Lógico que as questões identitárias, a conservação de valores tradicionais, a questão da manipulação histórica referente ao golpe, são pontos importantes. Não acredito que tenha sido temas forjados para esconder o que realmente importa. São questões que de fato assolam a sociedade. A questão é a repercussão dada a estes temas no negócio político-midiático.

É um projeto que nos obriga a dizer algo sobre este conflito superficial, nos debruçar sobre ele. Os filmes e livros mais vendidos são os que abordam tais assuntos. Aqueles que falam das estratégias capitalistas para maximizar os lucros em cima da pauperização, não são ouvidos ou lidos, a não ser claro, nos meios acadêmicos, que são hoje alvos.

O liberalismo, seja da forma progressista ou conservadora, sempre será totalitário. Aliás, essa forma binária já é por si só fatalista, já que faz parecer que só existe estas duas opções. Não se iludam, a terceira via é um outro nome para a configuração progressista do liberalismo, não alterando em nada a lógica binária já que a base totalitarista do neoliberalismo permanece incólume.

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Há um projeto de poder em que o supérfluo é politizado. O objetivo é politizar tudo de forma binária. A causa da opressão sobre a mulher seria apenas o patriarcado. Dos negros, o branco. Do homossexual, o hétero. Deixa-se de lado a verdadeira causa da opressão. Por isso que mataram Luther King Jr., quando ele pensou além da lógica binária. Por isso, mataram Malcom X…

Até uma pessoa de alto QI pode ser enganada por essa lógica binária, já que são apresentadas duas soluções aparentemente lógicas. É dedutivo e indutivo. Sem conhecimento profundo. Fatalista. O fato é que sem radicalidade, sem atingir a raiz do problema, será impossível entender de fato o que manipula tudo.

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As pessoas confundem radicalismo com polêmica. A mídia nunca dará espaço para um discurso radical. Os conservadores nunca irão proferir um discurso radical. Limitam-se ao polêmico. É por isso que repercute tanto. A polêmica vende muita notícia. Os jornais diminuíram as vendas após a chegada de Biden ao poder. É um fato. Somente o marxismo pode ser radical, já que é a única crítica substancial à economia política neoliberal.

Alguns eleitores de Bolsonaro não conseguem vê-lo como um ser corrupto, justamente por conta dessa lógica binária. Moralidade é um dos opostos de corrupção. E não é à toa que o presidente investe tanto nos valores e na moral tradicional em seus discursos polêmicos.

Essa lógica tem um único objetivo. O fatalismo da política e mostrar como solução o mercado. E voltamos para o totalitarismo neoliberal. É o mercado que deve guiar a sociedade. Esta deve se submeter aos interesses deste. Fazer de tudo para que ele funcione.

Chauí fala que o totalitarismo clássico era o Estado em toda a sociedade. No totalitarismo neoliberal é o contrário, a sociedade controla o Estado. Mas para o liberalismo, sociedade não é o indivíduo, mas o investidor, o empresário. O neoliberalismo de Hayek e Friedman, quando fala de liberdade, refere-se à liberdade econômica. Do Estado não intervir nos negócios. Trata-se da criatividade, do estímulo à invenção. Os trabalhadores estão no nível da rotina enquanto que os empreendedores são os que criam.

A sociedade sem Estado, portanto, é a sociedade em que o maior poder são as leis do mercado, a competição etc. Aqueles que não conseguem se dar bem nas regras do jogo são cancelados. Daí a cultura do cancelamento como mero fruto do totalitarismo neoliberal.

Esse totalitarismo nos faz pensar como máquinas, ou seja, binariamente, enquanto somos forçados a criar, inovar e competir nos termos ditados pelo mercado. Não há liberdade, já que só vale o que é útil para o funcionamento do sistema financeiro. No entanto, a meritocracia é uma farsa, já que o esforço pessoal, mesmo se todos tivessem a mesma oportunidade (coisa que não é constatável), valeria apenas para o que o mercado quer. Não adianta se esforçar, criar, inovar, enfim, ser bom em algo que não seja útil para o mercado.

É dever da esquerda livrar as pessoas dessa lógica binária, mas também é preciso livrar-se a si mesma. Não devemos nos posicionar perante opções que foram impostas pelos que controlam os maiores canais de comunicação ou por aqueles que são financiados pelos acionistas do capital improdutivo. É missão da esquerda romper com o campo das ideias dominantes e mostrar a verdadeira face da exploração capitalista.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.