ABC de um golpista – Por Chico Alencar

As urnas eletrônicas, introduzidas em 1996, sempre funcionaram muito bem e são perfeitamente auditáveis. O “voto impresso” era bandeira esfarrapada do golpismo

Autocrata; Beócio; Canhestro; Destemperado; Evasivo; Farsante; Golpista; Hipócrita; Insensível; Jurássico; Kafkiano; Leniente; Mentecapto; Negligente; Obtuso; Primário; Querelado; Reacionário; Sociopata; Tirano; Ultrajante; Vingativo; Xexelento; Zangadiço.*

A lista de adjetivos que cabem para o presidente Jair Bolsonaro é interminável. Poderia, sem grande esforço, ocupar mais outro parágrafo deste artigo.

Bolsonaro, decididamente, vai ladeira abaixo. Cada nova iniciativa com que tenta mudar o quadro, só faz com que afunde mais na lama. Nessa senda tresloucada, até a Marinha ajuda…

Seu último lance foi o desfile de blindados no início desta semana. Com a justificativa esfarrapada de receber o convite para assistir a um exercício militar que é feito há 33 anos, Bolsonaro promoveu o simulacro de um carnaval fora de época, com desfile de tanques de guerra e lança-foguetes na Esplanada dos Ministérios.

O objetivo de intimidar o Legislativo e o Judiciário ficou patente. Afinal, tudo aconteceu no dia em que a Câmara dos Deputados votou – e derrotou – a proposta de volta ao voto impresso, a menina dos olhos do capitão.

A “tanqueata” passou em frente ao Supremo Tribunal Federal e do Congresso, até parar diante do Palácio do Planalto. Um militar, devidamente paramentado, saiu de um blindado para entregar ao presidente um envelope com o convite.

Foi patético.

Os equipamentos sucateados foram um espetáculo à parte. Tanques soltando rolos de fumaça preta ou enguiçando foram prato cheio para os chargistas. Houve quem lembrasse que, quando um “zero” de Bolsonaro voltasse a dizer que para fechar o STF bastaria um jipe, um cabo e um soldado, ele lembrasse de levar também um mecânico para o veículo…

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Até Regina Duarte foi mencionada. Afinal, a apoiadora de Bolsonaro foi a estrela daquela antiga novela “Rainha da Sucata”. Teve gente propondo que, se houvesse um próximo desfile como aquele, ela fosse devidamente fantasiada como destaque num dos carros alegóricos daquela “parada disparatada” fora de hora e de sentido.

Apesar da parafernália, a micareta de Bolsonaro não surtiu efeito e a proposta de volta do voto impresso não foi aprovada. E não faltou esforço para tal; o presidente chegou a ameaçar com a não realização das eleições de 2022.

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Diante das mais de 560 mil mortes pela Covid, dos 19 milhões de famintos, dos 15 milhões de desempregados, da inflação de 9%, da devastação ambiental aumentada em 30% e dos esquemas de corrupção do Centrão e de militares em torno da “propinavac”, o presidente e seus fanáticos quiseram convencer o país de que o problema do Brasil é a não impressão dos votos em cada uma das mais de 400 mil urnas eletrônicas.

É inacreditável.

Os bolsonaristas queriam que milhões de cédulas fossem manuseadas e recontadas. Esse processo, aí sim, manipulável, se estenderia por meses a fio, criando campo fértil para confusões provocadas por milicianos e para uma virada de mesa. O que fazer no caso de algum eleitor mal-intencionado afirmar que votou em A e o voto impresso, àquela altura já perdido no meio de outros tantos, indicou o voto em B? Como tirar a dúvida? Seria impossível. E o que fazer? Desconsiderar a denúncia? Afastar aquela urna, deixando-a sob suspeição? E se isso ocorrer em milhares de seções ao longo do país? Não estaria criado o cenário para embaralhar a eleição e tentar anulá-la?

O fato é que a proposta de Bolsonaro não tinha nada a ver com transparência ou lisura, mas com indecência e pilantragem. As urnas eletrônicas, introduzidas em 1996, sempre funcionaram muito bem e são perfeitamente auditáveis. O “voto impresso” era bandeira esfarrapada do golpismo.

As milícias e todos os que desejam a volta da ditadura perderam. Melhor para o Brasil e para a nossa ainda frágil democracia.

* Adjetivos retirados de reportagem dos jornalistas Mariliz Pereira Jorge e Luiz Cláudio Cunha.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Chico Alencar

Professor e escritor foi o quinto vereador mais votado da cidade do Rio de Janeiro em 2020 pelo PSOL. É graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Educação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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