Raphael Silva Fagundes

06 de março de 2019, 20h06

Bolsonaro reconquista seu eleitor com o vídeo ridículo sobre o Carnaval

Raphael Silva Fagundes: “Bolsonaro convida seus eleitores a esquecerem a questão da Previdência e se regozijarem desse espetáculo imbecil. E o mais curioso é que muitos deles que até curtem os blocos de carnaval vão concordar com o seu mito”

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Com o vídeo obsceno que Bolsonaro colocou em sua rede social, ele certamente conseguiu trazer alguns eleitores que já começavam a contestar a sua postura. A Reforma da Previdência não está agradando muito. O escândalo do laranjal também não foi muito agradável para os membros do PSL. Somente o resgate do ridículo, do, até mesmo inacreditável, poderia fazer as pazes do presidente eleito com o seu eleitor.

Gramsci dizia que todo ser humano é um intelectual em potencial, embora nem todos ajam como tal. Contudo, é também da natureza humana ser estúpido. O personagem do romance existencialista de Martin Page, Antoine, acredita que a estupidez não está na coisa em si. Achar que alguém é estúpido dessa maneira seria um mero juízo de valor, um preconceito. A estupidez está na maneira de fazer as coisas ou de considerá-las.

E Bolsonaro sabe criar uma imagem estúpida, desta última vez, considerando o Carnaval uma mediocridade de acordo com seu ponto de vista. Portanto, o seu modo de se apresentar como estúpido revela-se pela fala, seja ela escrita ou pronunciada, uma estratégia retórica muito audaciosa, diga-se de passagem.

O ridículo e o seu papel na argumentação

Caim Perelman, um dos grandes estudiosos da retórica do século XX, e sua pesquisadora assistente, Lucie Olbrechts-Tyteca, escreveram um tratado sobre a argumentação iniciando o que ficou conhecido como a “nova retórica”. Esta consiste em uma recuperação da retórica aristotélica sob a luz do conhecimento desenvolvido ao longo dos últimos séculos sobre linguística, filosofia da linguagem e outras ciências da área. Suas observações ultrapassam a retórica tradicional de forma a atualizá-la às produções discursivas do mundo contemporâneo abrindo espaço para um grande debate intelectual.

Na obra dos autores, “Tratado da argumentação: a nova retórica”, há um subcapítulo intitulado “O ridículo e seu papel na argumentação”, onde abordam duas questões: a) o ridículo que o orador pode identificar na tese que se opõem; e b) o papel de ridículo, extremamente arriscado, que o orador pode adotar. Em ambos os casos, o ridículo é tratado como a “transgressão de uma regra aceita, uma forma de condenar comportamentos” ou do que se põe em oposição a concepções que são naturais numa dada sociedade (1).

Isso aparece tanto nas declarações de Donald Trump (por exemplo: “Nova York está congelante, está nevando. Nós precisamos do aquecimento global!”) (2) quanto nos discursos de Marine Le Pen sobre o Holocausto (3).

O presidente Jair Bolsonaro e outros políticos de nosso tempo se enquadram na segunda questão analisada pelos estudiosos belgas, quando “o orador pode afrontar o ridículo, colocando-se em franca oposição a uma regra habitualmente admitida” (4). O orador abraça o ridículo e se põe em risco por condenar sua imagem perante os seguidores. Uma estratégia retórica insolente, de modo que “tal sacrifício” deve “ser apenas provisório”.

Contudo, parece que o que era “provisório” resolveu se perpetuar. É a radicalização do que o jovem herói, Saint-Preux, de “A nova Heloísa”, romance de Jean Jacques Rousseau, escreveu em uma carta a sua amada, Julie: “Tudo é absurdo, mas nada é chocante, porque todos se acostumam a tudo”. E, embora distintos, o absurdo e o ridículo são aparentados. Além disso, parece que há um plano em insistir na estupidez para, em algum momento, nos acostumarmos com ela, e nem percebê-la mais.

“É preciso ter audácia para afrontar o ridículo”, dizem os autores do “Tratado da Argumentação”, “para não soçobrar no ridículo, é preciso um prestígio suficiente”. Certamente, esses políticos adquiriram conceito com a recuperação, a partir dos anos 1990, do que antes era considerado “o cúmulo do elitismo”, um populismo de direita, não só no Brasil, mas em todo mundo, que menospreza a classe trabalhadora e as diversas questões que a aflige (5). Soma-se a isso a crise do politicamente correto, um tipo de comportamento que tinha tudo para não dar certo, pois produziu lindos discursos, porém, alheios a “construção sociocultural objetiva dos desclassificados sociais entre nós” (6).

Na teoria da “nova retórica”, ao afrontar o ridículo o orador “lança um desafio, provoca um confronto de valores cujo desfecho é incerto”. E essa imprevisão pode desencadear no que nos deparamos hoje corriqueiramente: o discurso de ódio. Parece que voltamos aos anos que precederam as grandes guerras, em que linchamentos, ofensas e humilhações eram cultivados por uma sociedade a beira do conflito (7).

A partir daí, o que é ridículo, o deixa de ser: “deixarão de ser ridículos quando outros lhes seguirem os passos”. E isso é constatado no boom de grupos nas redes sociais, que compartilham e propagam os ideais do presidente, inclusive, diga-se de passagem, aproveitando-se de notícias falsas para alavancar a imagem do político.

Muitos foram convencidos por um contexto frágil e pelo aproveitamento de um orador arguto, exatamente como destacam Perelman e Olbrechts-Tyteca: “O prestígio do chefe é medido por sua capacidade de impor regras que parecem ridículas e de fazer seus subordinados admiti-las”. A catástrofe política pela qual se passa o país e a crise de representação aliados à epidemia das redes sociais onde “uma legião de imbecis” adquiriu voz, criaram o cenário perfeito para o afronto ao ridículo.

Entre o ingênuo riso provocado pelo ridículo e o odioso que acarreta escândalo (8), essa retórica acaba por obscurecer elementos defensores do capital e mantenedores dos conflitos de classe tradicionais. Enaltece o mercado em detrimento do Estado, por meio de um pensamento mesquinho em que um é mocinho e outro é vilão. Isso é por si só ridículo, “simplesmente porque apenas no contexto de uma concepção esquizofrênica e irreal pode o mercado ser percebido ‘apenas’ como o fundamento do bem, da liberdade e da justiça” (9).

Sustenta-se um discurso ingênuo e manipulador de que o mercado seria capaz de nos salvar da corrupção que corrói a política. Trata-se de uma ignorância em relação a toda história moderna. Ao usar esses subterfúgios polêmicos que, por um lado, colorem uma retórica estrambótica e, por outro, quer apenas obnubilar o predomínio massacrante do capital sobre o trabalho, Bolsonaro convida seus eleitores a esquecerem a questão da Previdência e se regozijarem desse espetáculo imbecil. E o mais curioso é que muitos deles que até curtem os blocos de carnaval vão concordar com o seu mito; são os efeitos inebriantes do ridículo. E com a vitória da Mangueira, escola que levou à Sapucaí uma história que retrata o protagonismo das minorias, os convencidos podem se multiplicar ainda mais.

 

(1)PERELMAN, Chaim. e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação: a nova retórica. Trad: Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. 234.

(2)O globo. “Dez declarações polêmicas de Donald Trump”. http://oglobo.globo.com/mundo/dez-declaracoes-polemicas-de-donald-trump-18564023

(3)ALTARES, Guillermo. “Absurdos que não deveriam ser ditos sobre a Segunda Guerra Mundial”. El país, Madri, 14 de abr. 2017. In: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/13/internacional/1492084221_516738.html

(4)PERELMAN, Chaim. e OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. op. cit., p. 237.

(5)NAGLE, Angela. “O desprezo pelo povo”. Le monde Diplomatique Brasil, abril, pp. 20-21, 2017.

(6)SOUZA, Jessé. “Os limites do politicamente correto”. ________. (org.) A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte, EdUFMG, 2009. .. 100

(7)GAY, Peter. O cultivo do ódio: a experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud. Trad: Sérgio Flaskman. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

(8)Olivier Reboul, um dos intérpretes da “nova retórica” desenvolvida por Perelman e Olbrechts-Tyteca observa que “quando a incompatibilidade” com as verdades admitidas “é nociva, ela já não é ridícula, porém odiosa”. REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. Trad: Ivone Castilho Benedetti. São Paulo, Martins Fontes, 2004. p. 170.

(9)SOUZA, Jessé. “A tese do patrimonialismo: a demonização do Estado corrupto e a divinização do mercado como reino da virtude”. __________(org.) op. cit., p. 86.

Nossa sucursal em Brasília já está em ação. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Saiba mais.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum