Raphael Silva Fagundes

24 de maio de 2019, 06h00

Bom para demonizar a esquerda, mas estúpido para santificar o mercado

Raphael Fagundes: “Os setores dominantes perceberam que a tentativa de radicalizar o seu projeto de acumulação de capital foi um erro e que, em vez de confrontar a esquerda, seria mais interessante persuadi-la, estabelecer um diálogo”

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O golpe de 2016 é bem diferente do golpe de 1964. E, sem dúvida, essa diferença é crucial para a possibilidade de uma eventual queda de Bolsonaro.

O sociólogo Florestan Fernandes e alguns historiadores especialistas no assunto acreditam que o golpe civil-militar de 64 foi preventivo, para, enfim, evitar a ação popular e as reformas que já estavam acontecendo. “Os capitalistas”, destaca Daniel Aarão Reis, “temiam que as reformas de base, uma vez implementadas, subvertessem os padrões habituais de dominação e as taxas de lucro” (1).

Já em 2016 o golpe tinha como meta colocar no poder um grupo político que se identificava com as reformas que interessam ao mercado, reformas que se apresentam claramente como o oposto das que em 1964 eram estudadas por João Goulart. Privatizações, Reforma Trabalhistas e da Previdência são dogmas sagrados. Os setores da burguesia não acreditaram que o PT fosse capaz de conduzir tal projeto e escolheram, por fim, golpeá-lo.

Contudo, não havia, em 2016, um medo do PT tanto quanto em 64 se tinha do que Goulart pretendia fazer, pois o debate democrático da esquerda do século XXI está mais ligado a pautas identitárias do que a uma possível reforma agrária ou a uma distribuição de renda mais justa. A política petista não ameaçava a burguesia, pelo contrário. Durante seu governo ela se expandiu.

O discurso ideológico de hoje é muito mais fachada que algo real, pois a burguesia não tem o que temer como nos anos 60. Tudo se parece com o discurso religioso dos finais do século XIX que encobria os interesses capitalistas nacionais e imperialistas.

Portanto, a burguesia que colocou Bolsonaro no poder não se importa em perdê-lo, já que ele se mostrou não apto para tocar os interesses do mercado. Ele é muito bom para demonizar a esquerda, contudo, chegamos em um momento que essa demonização já se tornou desnecessária e o acordo passou a ser o caminho para aprovar os projetos que beneficiam o capital. Ele não consegue apresentar os investimentos como a salvação do país (como faz a imprensa e os economistas burgueses), em vez disso, santifica a si mesmo.

Nessa altura, a burguesia deve estar preferindo a esquerda, aquela de um Lula que tinha como vice o empresário José Alencar. Uma esquerda muito mais ligada ao centro que à esquerda de fato.

Hoje, os setores dominantes perceberam que a tentativa de radicalizar o seu projeto de acumulação de capital foi um erro e que, em vez de confrontar a esquerda, seria mais interessante persuadi-la, estabelecer um diálogo. A pressão popular e a imprensa (que estava ao lado desse projeto radical em 2016) estão encurralando o governo. A burguesia não teme essa mobilização popular, pois esta não ameaça o seu projeto, pelo contrário, Bolsonaro é muito mais tóxico para os interesses burgueses que o povo.

Em 1964, o debate democrático era muito mais antissistêmico e colocava muito mais medo nos interesses do mercado que o debate democrático em vigor no momento da queda do PT. Este último, pautado na diversidade, é muito mais interessante para o capital que a visão unívoca, homofóbica, racista e machista imposta pelo governo atual. Por isso, a ditadura permaneceu por longos e tenebrosos vinte anos e o governo Bolsonaro vive o risco de não completar nem mesmo um.

(1)REIS, Daniel Aarão. Ditadura e sociedade: as reconstruções da memória. In: ______, REDENTI, M. e MOTTA, Rodrigo Patto Sá. (orgs.) O golpe e a ditadura militar: 40 anos depois (1964-2004). Bauru: EDUSC, 2004. p. 38.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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