Civilização ou barbárie – Por Chico Alencar

A cada atrocidade, é preciso demonstrações de repúdio. A cada gota venenosa de autoritarismo, que haja a denúncia e a manifestação de "ódio e nojo à ditadura" que Ulysses Guimarães proclamou, brandindo a Constituição

Ato 1.

O Exército determinou que qualquer informação adicional relacionada à participação do general Eduardo Pazuello no ato político realizado pelo presidente Jair Bolsonaro no fim de maio, no Rio de Janeiro, ficará em sigilo por 100 anos.

Isso mesmo. Um século!

Embora tenha subido ao carro de som e usado um microfone para se dirigir aos manifestantes, Pazuello afirmou ter sido aquilo apenas um passeio de motos sem conotação política. A explicação foi aceita pelo Exército. Inacreditável.

Ato 2

A Polícia Civil do Rio, cujo governador é alinhado com Bolsonaro, determinou que ficarão em sigilo, por cinco anos, quaisquer informações sobre a apuração da chacina no Jacarezinho que resultou na morte de 28 pessoas.

Incrível.

Ato 3.

Bolsonaro afirmou publicamente que tinha em mãos um documento do Tribunal de Contas de União (TCU) que questiona 50% dos registros de mortes por Covid no país. Assim, segundo o TCU, as mortes pela pandemia não estariam em quase meio milhão, mas seriam a metade disso. Supostamente isso diminuiria sua responsabilidade pelas mortes.

Só que o TCU desmentiu o presidente da República. Em nota divulgada na noite da segunda-feira desta semana, o TCU afirma “que não há informações em relatórios do tribunal que apontem que ‘em torno de 50% dos óbitos por Covid no ano passado não foram por Covid’, conforme afirmação do Presidente Jair Bolsonaro divulgada hoje.”

Impressionante.

Casos como estes poderiam ser citados às dúzias. Todos ocorridos recentemente.

O governo perdeu o respeito por si mesmo e pelos brasileiros. E o país vai se acostumando a assistir a cenas inacreditáveis, devido ao comportamento irresponsável, cínico e mentiroso por parte do presidente e do grupo que o cerca.

A democracia brasileira desde sempre guarda heranças da escravidão, de uma enorme exclusão social e da concentração de renda. E essas marcas convivem com o autoritarismo que desde sempre marcou nossa História.

Com Bolsonaro a situação é ainda mais grave. Temos um presidente eleito com quase 58 milhões de votos que é defensor declarado da ditadura e da tortura.

Houve quem se iludisse, afirmando que, na Presidência, o capitão seria “contido pelas instituições” ou “moderado pelas exigências da governabilidade”. Pura ilusão.

Ou, se não ilusão, justificativa mambembe para um voto marcado pelo antipetismo de eleitores agora arrependidos.

Críticas aos governos de Lula e Dilma são várias e cabíveis, claro, mas nada poderia justificar o voto em Bolsonaro. Aqui se trata de questão de princípios, de valores.

Seja como for, é bom que uma parcela dos eleitores de Bolsonaro hoje esteja revendo seu voto. Ela não deve ser hostilizada. É melhor reconhecer o erro do que insistir nele.

O capitão que saiu do Exército pela porta dos fundos prepara visivelmente, a conta-gotas, um golpe contra a democracia. Militariza o governo, compra apoio no Congresso, ataca o STF, dá aval a madeireiras e garimpeiros ilegais, desdenha da pandemia. E estimula a violência policial.

A ordem é desmatar e matar, mentir e enganar.

Tenta moldar a Polícia Federal à sua imagem e semelhança. Protege seus filhos “zeros” de investigações sérias, estimula bolsões fascistoides nas polícias, manda e desmanda nas corporações militares, a começar pelo “seu” Exército.

E – o que é vergonhoso – até aqui não se ouviu no Alto Comando uma voz mais altiva, que afirme com coragem as Forças Armadas como instituições de Estado.

Não à toa, Bolsonaro, ao comentar a invasão do Capitólio após a derrota de seu ídolo Trump, disse descaradamente que “no Brasil pode ser pior” no ano que vem. Usa o fim do voto impresso, obsessão de seus seguidores fanáticos, como desculpa para questionar antecipadamente o resultado das eleições do ano que vem, caso lhes sejam desfavoráveis. Está agarrado ao poder com unhas, armas e dentes, babando ódio.

É evidente que prepara uma saída golpista. É provável que tente virar a mesa caso se desenhe um cenário desfavorável nas eleições de 2022.

O caminho é um só: o da resistência democrática, desde já. Nas ruas, nas redes, nos parlamentos, na imprensa, nos movimentos, nas igrejas, nas escolas, no trabalho, no campo e na cidade. Nas conversas de família e na vizinhança. Em palavras e em atos.

A cada atrocidade, é preciso demonstrações de repúdio. A cada gota venenosa de autoritarismo, que haja a denúncia e a manifestação de “ódio e nojo à ditadura” que Ulysses Guimarães (1916-1992) proclamou, brandindo a Constituição cidadã de 1988.

O futuro do país está em jogo.

As opções são a afirmação da civilização ou o triunfo da barbárie.

E a barbárie não pode triunfar.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Chico Alencar

Professor e escritor foi o quinto vereador mais votado da cidade do Rio de Janeiro em 2020 pelo PSOL. É graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Educação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).