De que lado Ciro samba? – Por Daniel Valença

Ele é o cara que estava de férias na França em 2018, enquanto gastávamos nossas energias tentando virar qualquer voto; que dizia “Lula tá preso, seu babaca”; “a cúpula do PT é quadrilha”, é “organização criminosa”.

Anteontem (5), Ciro Gomes pediu que Lula não se candidatasse.

Para embasar o pedido, usou o argumento de que o ex-presidente deveria “olhar o que a Cristina Kirchner fez na Argentina, em que, tendo uma força grande, deu um passo pra trás e ajudou a Argentina a se reconciliar”.

Para quem se recorda, Cristina topou ser vice-presidenta de Alberto Fernández e ambos acabaram eleitos, derrotando o neoliberal Mauricio Macri.

O argumento de Ciro, porém, tem algumas fragilidades.

A primeira delas é que Cristina é filiada ao Partido Justicialista, assim como o próprio Alberto Fernández. Portanto, pela lógica de Ciro, se Lula fosse vice de alguém, seria de Haddad ou quem o PT definisse, e não do próprio Ciro.

Outra fragilidade é que não houve, de forma alguma, “reconciliação” na Argentina. Quem acompanha o nosso país-irmão viu que, recentemente, as lideranças de direita também se esconderam atrás das forças de segurança para desestabilizar o governo Fernández.

O mesmo se pode dizer do período da pandemia, em que também lá existem negacionistas que lutam diariamente em defesa da morte, como se esta salvasse “a economia”.

Ciro, uma vez mais, falseia a realidade ao reivindicar uma “reconciliação” que inexiste. É mera retórica para deslegitimar a candidatura de Lula, igualando seu governo ao de Bolsonaro para argumentar a necessidade de uma terceira via. Ora, o conflito existe porque há interesses contrapostos; se um lado defende a reforma trabalhista, o outro defende os direitos das classes trabalhadoras, se um lado defende a Lgbtfobia o outro defende a diversidade. Lula apenas desequilibra o conflito para um dos lados. Mas, enquanto houver exploração e opressão, o conflito persistirá.

O debate que Ciro fez anteontem tem várias outras fragilidades e não caberiam neste texto. Mas, para além delas, é importante dizermos, com todas as letras, que o debate dele é cínico, mentiroso, vergonhoso e criminoso.

Ciro é o cara que estava de férias na França em 2018, enquanto estávamos gastando nossas melhores energias tentando virar qualquer importante voto; que dizia “Lula tá preso, seu babaca”; “a cúpula do PT é quadrilha”, é “organização criminosa”. Agora, com a restituição dos direitos políticos do presidente Lula e vendo sua intenção de voto na casa de um dígito, sua posição se mostra, simplesmente, miserável.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Daniel Valença

Professor do Programa de Pós-graduação em Direito da UFERSA, doutor em Direito pela UFPB, coordenador do Grupo de Estudos em Direito Crítico, Marxismo e América Latina (Gedic). Vice-presidente do PT/RN.